Cidades

Primeiro índio doutor em linguística se forma na UnB

Para ele, um dos maiores desafios durante o doutorado foi a indisponibilidade de pesquisas sobre a língua de seu povo, sobretudo em português

postado em 19/12/2014 18:44
Para ele, um dos maiores desafios durante o doutorado foi a indisponibilidade de pesquisas sobre a língua de seu povo, sobretudo em português

Nascido no município acriano de Tarauacá, na Terra Indígena Praia do Carapanã, Joaquim Paulo de Lima Kaxinawá se tornou o primeiro índio no Brasil a receber o título de doutor em linguística pela Universidade de Brasília (UnB). Mais conhecido como Joaquim Maná, ele defendeu nesta sexta-feira (19/12) a tese ;Para uma gramática da Língua Hãtxa Kuin;.

Alfabetizado na língua portuguesa aos 20 anos em um programa alternativo coordenado pela Comissão Pró-Índio do Acre, ele fez o magistério indígena no estado e a graduação em um curso intercultural indígena na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. O mestrado e o doutorado foram feitos na UnB.

Para ele, um dos maiores desafios durante o doutorado foi a indisponibilidade de pesquisas sobre a língua de seu povo, sobretudo em português. ;Muitas pesquisas foram escritas em inglês, alemão, francês, espanhol e não foram apresentadas ao povo, ficaram guardadas;, ressalta.

Agora ;doutor;, Joaquim Kaxinawá acredita que a tese não deve provocar muitas mudanças, mas espera que sirva de exemplo para a formulação de um programa de ensino da língua nativa aos diferentes povos do país.

;Das doze terras que nós temos, seis já estão com problemas. Os mais velhos falam na nossa língua e os jovens já não falam mais. Falam em português. Agora é preciso se aliar às secretarias municipais, estaduais, ONGs [organizações não governamentais], que trabalham com os povos indígenas para criar um programa e manter um curso de ensino de língua oral, língua escrita e produção de material didático;, defende Kaxinawá.

Recentemente, a Agência Brasil publicou a reportagem especial Ixé Anhe;eng destacando que, nos próximos 15 anos, o Brasil corre o risco de perder até 60 diferentes línguas indígenas ; o que representa 30% dos idiomas falados pelas etnias do país.



A coordenadora do Laboratório de Literatura e Línguas Indígenas da UnB, Ana Suelly Cabral, destaca a importância do estudo sobre os povos originais. ;Se eu sou professora, ou fui, do Joaquim, ele foi meu professor também. Trabalhar com eles é uma grande aprendizagem. Ao mesmo tempo em que eu passo esse conhecimento, eu estou aprendendo com eles, a língua deles, e também, mais importante, eu aprendo uma riqueza cultural incrível que eles me passam;, declara.

A professora adianta que outros dois pesquisadores indígenas devem conquistar o título de doutorado pela UnB nos meses de fevereiro e maio de 2015. Ela espera que os estudantes se espelhem em Joaquim, que pretende voltar à Terra Indígena Praia do Carapãnã, no Acre, para reforçar o ensino da língua Hãtxa Kuin, do povo Huni Kuín, entre crianças e adultos.

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