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Educadores contam o que os faz continuar ensinando, apesar das adversidades

No Distrito Federal, a educação pública vive um momento difícil

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postado em 15/10/2016 06:00

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 
Em português, aprende-se a conjugação dos verbos, que flexiona as ações. Na matemática, é ensinado que tudo que envolve amor sempre soma, nunca subtrai. Durante os vários anos dentro da sala de aula, a geografia constrói um mapa de sentimentos. A convivência com pessoas diferentes faz com que a filosofia ensine que o ser ou não ser é só uma questão de relações sociais que a sociologia ajuda a descobrir. A química é tão complicada quanto a física, mas nada que a fórmula certa não ajude a resolver. E uma história do passado é contada enquanto a do futuro vai sendo escrita. Entre essas e outras tantas disciplinas, há algo em comum, o professor. A profissão é tão importante, que passa por todas as fases da vida do ser humano. No Distrito Federal, a educação pública vive um momento difícil. Faltam valorização salarial, estrutura, incentivo e reconhecimento. Mas educadores contam o que os faz continuar dentro da escola, mesmo com todas as adversidades.

Há 13 anos, Regina Cotrin, 45 anos, dá aula no Centro de Ensino Médio 2 de Ceilândia. Ao trabalhar com adolescentes, ela enxergou que o futuro da sociedade se encontrava ali. “A maioria da comunidade é carente. E ver pessoas da periferia com vontade de querer mudar de vida não tem preço. É óbvio que eu gostaria que nosso trabalho fosse melhor reconhecido e, às vezes, isso até me desanima. Mas, quando vejo todo o meu histórico, vale a pena. Eu me descobri professora. Não era minha primeira opção, mas, quando vivenciei, eu me apaixonei”, admite.
 
 

Na escola em que leciona, há um projeto que trabalha a autoestima dos estudantes, no qual é conversado sobre igualdade de gênero, racismo e todos os tipos de preconceito. “Eu abro um mundo diferente para meus alunos, acho que isso me aproxima deles. E eles precisam disso, principalmente porque são vítimas da opressão”, aponta. “Pode ser clichê, mas essa geração é o futuro. Eu acredito que a educação é o caminho para uma sociedade mais justa e igualitária. Confio que estou fazendo meu papel”, completa. Wilson Venâncio é diretor da mesma escola e se diz orgulhoso com o papel que os pedagogos desempenham. “Não é qualquer coisa você pegar uma escola de Ceilândia, em que todos nos chamam de periferia, e ver que 86 alunos passaram nas universidades federais e mais de 100, nas particulares. Isso nos motiva a continuar. Não é qualquer um que é professor, você tem que gostar.”

Joana Meireles, 35, dá aulas no DF há seis anos. O local de trabalho é o Centro Educacional 3 de Planaltina, que atende os ensinos fundamental e médio. Ela dá aula de inglês e diz que, quando vê um aluno decidir por conta própria fazer um curso fora da escola, sente o quanto o trabalho é estimulante. “O que me motiva é transmitir o saber, apesar da desvalorização. A gente consegue ver no rostinho de um aluno um motivo para continuar. Quando eles falam que conseguiram aprender, vejo que nada é em vão”, destaca. Joana também lecionou no período noturno, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), e relata a dificuldade de ter que adaptar o conteúdo à diversidade de idades. “Tinha alunos que estavam há muito tempo sem estudar, aqueles que não sabiam nada, mais velhos, mais novos, tudo em uma mesma turma. Quem dá aula nesse horário tem que ser muito mais que professor. Encaramos o papel de encorajá-los, de dizer que nunca é tarde para aprender.”

Extensão da família
O Setor Habitacional Sol Nascente, em Ceilândia, é considerado a maior favela da América Latina. Com mais de 70 mil habitantes, lá se encontra o Centro de Ensino Fundamental 27, onde Luciana de Medeiros, 40, exerce a função de orientadora educacional. Ela se desloca todos os dias do Park Way para a escola, mas não troca a rotina por nada. “Para mim, tudo isso vale a pena, quando eu vejo que eles percebem que existe outro lado, sem ser o da violência. É muito triste quando percebo que muitos dos meus alunos não sabem o que é sonhar, pois a realidade deles é muito dura.” Luciana relata que presencia diariamente diversas histórias tristes. Alguns chegam na sala com fome, outros encontram refúgio na escola porque, em casa, o pai espanca a mãe. “Aqui, exerço o posto de mãe, pai, tia, avó, cozinheira, enfermeira e tudo de que eles precisarem. Desenvolvemos um projeto chamado terapia do abraço, no qual estimulamos esse contato. As pessoas precisam entender que não é uma questão de dinheiro. A gente lida com vidas, nós estamos moldando uma geração. As pessoas estão muito conectadas e estão perdendo o contato de olho no olho”, exalta. Mas, ao receber uma cartinha de um aluno ou um elogio de uma mãe na ouvidoria, todo o esforço é recompensado. “Eu amo o que faço e dou o meu melhor. Quando recebo esse carinho, é muito melhor que qualquer gratificação.”

É possível observar que a motivação é uma característica comum dentro da profissão. Luciano de Sousa, 43 anos, confirma isso sendo professor de uma disciplina que, para a maioria dos estudantes, é complicada: a matemática. Mas, para ele, mais do que mostrar que os estudantes são capazes, o bom relacionamento faz toda a diferença. “Eu me sinto na obrigação de fazer isso por eles. Tive muito problema com essa matéria, quando era jovem. É primordial que o educador se coloque no lugar do outro, passe o conhecimento de uma forma que os alunos sintam prazer”, analisa.
 
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