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Correio Braziliense

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Artista pinta pontos de ônibus com desenhos que remetem às suas memórias

E presenteia os moradores com desenhos que remetem às memórias de infância, ao cerrado e às belezas da cidade

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postado em 15/10/2016 06:08

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


Da mãe, ela carrega o sobrenome de cor, Dourado. Do pai, aprendeu sobre urbanismo e guardou as instruções: “Minha futura arquiteta, capricha nos desenhos, insista na caligrafia e nunca deixe de ler”. Seguindo esses passos, a brasiliense e designer gráfica Viviane Ferreira Dourado, 41 anos, mais conhecida como Vivi Dourado, transformou os rabiscos na parede de casa em trabalhos com personalidade, alegria e, principalmente, amor pela cidade natal. Quem está acostumado a pegar ônibus no Cruzeiro Velho, agora, vai dividir a espera com os desenhos da brasiliense.

O sol escaldante do cerrado, os blocos de três andares do Plano Piloto, os pássaros, a infância candanga e a Paróquia Nossa Senhora das Dores são alguns elementos que se destacam no meio das casas e do comércio da região. Amanhã, Vivi Dourado pinta mais uma parada em homenagem aos 55 anos da escola de samba Aruc — que surgiu a partir da reunião de um grupo de moradores do Cruzeiro Velho. A ideia de dar uma cara nova para os pontos de ônibus surgiu no ano passado, mas só foi possível concretizar agora. “Na gestão passada, eles fizeram uma estrutura de banner, com fotos, e fiquei pensando por que artistas locais não pintavam as paradas. Tinha sonhado com isso. Estava voando pela região”, conta.

 

 

 

Vivi Dourado sempre morou no Cruzeiro. Criou com a região administrativa laços quase familiares. Ali, aprendeu a pintar com professores locais, construiu seu ateliê e sua vida. “Quando pensei em transformar os pontos de ônibus, já trabalhava com ícones de Brasília, como a fauna, a flora, o cerrado e a arquitetura. Mas por que não pintar o Cruzeiro com sua origem e sua história?”, relembra. E falar da localidade é falar da história e da infância da designer. Não à toa, um dos desenhos preferidos é o da Paróquia Nossa Senhora das Dores. “Foi onde meus pais se casaram. Quero que as pessoas se sintam nela”, comenta.

O pai de Vivi, Andarilho Ferreira dos Santos, veio da Bahia para a capital trabalhar na construção do sonho de Juscelino Kubitschek. “Ele fez a curva da Rodoviária”, afirma orgulhosa. Segundo Vivi, foi com ele que aprendeu a urbanizar e arborizar a cidade, a se envolver. “A ideia não é ter moradores de rua dormindo nas paradas. Mas confesso que fiquei emocionada ao ver um rapaz deitado em um dos bancos, porque imaginei que aqui ele encontrou paz. Quero que esses pontos passem uma inspiração de um futuro melhor, de que podemos plantar uma semente e propagar”, afirma. Em menos de 15 dias, a arte de Vivi chamou a atenção e virou ponto turístico. Na página dela nas redes sociais, as pessoas compartilham fotos nas paradas. “Principalmente, os idosos. Eles adoram. É uma forma de aproximar as pessoas da cidade”, complementa.

Andarilho Ferreira faleceu em 1996, após uma parada cardíaca, mas a filha sabe que ele está com ela desde a concepção dos projetos. “Acho que o meu pai está aqui hoje. Com certeza, estaria comigo fazendo o mesmo, assinaria embaixo. Ele participa comigo desde quando sonho”, afirma com carinho. O patriarca era alfaiate e foi observando o trabalho dele que Vivi se apegou às linhas. “Vou atrás do traço e daquilo que ele representa no momento. Desenho em guardanapo de restaurante. Tenho vários blocos”, comenta. Sua visão é diferente. Para cada muro com um portão, imagina uma janela com flores e muitas cores. “Por isso que dizem que nós (artistas) somos doidas”, brinca. Também foi da insistência de Andarilho para que a filha fizesse caligrafia que surgiu a assinatura Vivi Dourado, com letras bem redondas, uma das marcas registradas da designer.

Para buscar as referências e inspirações, a designer vai a campo. Conversa com os moradores, olha os pontos da cidade e vai lá no fundo da caixinha de memórias encontrar as lembranças da infância. Depois dos traços, a filha Giulia, 18 anos, é quem dá o aval final. “Ela é bem crítica. Se ela gosta, tudo bem; mas, se não gosta, eu refaço”, confessa, aos risos.

Comunidade
Viabilizar o projeto de Vivi só foi possível com a ajuda da Administração Regional do Cruzeiro e dos comerciantes. A administração faz o reparo das paradas, pinta de branco e deixa no ponto para a artista fazer a arte. “É um resgate cultural da própria cidade. Ela está contando a história do Cruzeiro”, comenta o administrador Reginaldo Rocha Sardinha. Os comerciantes ajudam, doando as tintas. Ao todo, 17 pontos de ônibus serão transformados e, assim que finalizarem as pinturas no Cruzeiro, a ideia segue para o Sudoeste e para a Octogonal. Sempre priorizando os artistas locais.

“Primeiro, quando vi, achei que era sujeira. Depois, vi que era um menino empinando pipa”, relembra a diarista Guirmar Nunes, 54 anos. Há cinco meses, ela pega ônibus na parada da Quadra 4. Com os desenhos de Vivi, a espera ficou mais agradável. “A parada suja dá uma sensação de medo e de que está largado”, comenta. Apesar da delicadeza dos traços e da alegria das cores, é comum no cenário da cidade encontrar os pontos de ônibus pichados e sujos. A designer sabe que isso pode ocorrer um dia com seu projeto, mas não tem medo. “Vou persistir até mudar a cabeça das pessoas. Não podemos desistir na primeira etapa. Temos que dar o exemplo”, declara.

 

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