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Por vontade própria, moradores de Sobradinho transformam lixões em praças

Com a matéria-prima retirada dos entulhos, levam verde e cidadania aos moradores

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postado em 20/10/2016 06:00 / atualizado em 20/10/2016 18:46

Roberta Pinheiro - Especial para o Correio

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Todos os dias, depois que levanta e toma o café da manhã, Alair Alves, 60 anos, também conhecido por Catolé, vai cuidar das plantas e dos vasos, feitos de pneus, que ficam em frente à sua casa. “Para um velhinho aposentado, é uma terapia”, afirma aos risos. Mas, algum tempo atrás, as manhãs de Catolé não eram bem assim. No lugar das flores, ele encontrava lixo. Em frente à residência do morador da Quadra 5 de Sobradinho, um espaço estava tomado por entulho de todo tipo. “Várias coisas iam parar dentro da minha casa”, relembra.

O cenário mudou a partir do empenho e da dedicação da dupla Nelson Rodrigues de Souza, 42, técnico ambiental, e Ilton Correa dos Santos, 50, ambientalista. Tem gente que chama os dois de doidos e lixeiros, mas eles não ligam. Ilton e Nelson iniciaram um trabalho de formiga na comunidade, que vem, aos poucos, dando frutos. Primeiro, eles identificaram os pontos de acúmulo de lixo — os lixões — em diferentes quadras de Sobradinho. “A gente tentava criar um diálogo com a administração para limpar esses pontos”, comenta Nelson.

Entre idas e vindas, conversas e mais conversas e com o apoio de uma amiga que trabalha no Serviço de Limpeza Urbana (SLU), a dupla conseguiu fazer a limpeza desses locais. Neles, encontraram de tudo um pouco, inclusive a matéria-prima para fazer a diferença na região, com arte e delicadeza: pneus. Munidos do material de borracha e tinta, Ilton e Nelson transformaram o descarte tão perigoso em vasos de planta. E tem para todo gosto do freguês. Há vaso de diferentes cores, com bolas coloridas, com os símbolos dos times de futebol. “Do Bob Esponja e dos Minions”, acrescenta Ilton.
 
 
 
Aos poucos, o técnico ambiental e o ambientalista estão dando uma cara nova para as quadras de Sobradinho. Quem anda pela região administrativa vai encontrar o sinal do trabalho dos dois nas quadras 5 e 8, em duas creches, no Colégio Vila Rabelo, no Parque Jequitibá e no balão de Sobradinho II. “Hoje, as pessoas ligam pedindo para fazer na quadra delas”, conta Nelson. Além de pegar os pneus nos lixões e entulhos, a dupla percorre diferentes borracharias da cidade. A tinta é uma doação dos moradores, que também ajudam na preservação e no cuidado dos vasos e fazem como Catolé, que já comprou várias unidades e agora quer levar outras para a família, que não vive em Brasília. “As pessoas estão se conscientizando sobre a importância desse olhar e da reciclagem”, avalia Alair.

Ilton trabalha há nove anos com o meio ambiente. Ele conta que no lixão os dois encontram vários criadouros do Aedes aegypti, o mosquito da dengue e de outras doenças. “A vistoria do governo é feita só nas casas e isso não resolve. Precisamos combater a proliferação do mosquito e tomar cuidado com o surgimento de uma nova mutação no ano que vem. Além disso, pode-se aproveitar e reciclar muita coisa do lixo”, afirma o ambientalista. Brasília é uma cidade movida a automóveis e transformar pneus em vasos de plantas é, por exemplo, uma maneira correta de descartar esse material.
Fiscalização

As mudas das plantas de jardinagem são produzidas em Sobradinho. A dupla também cultiva mudas de árvores grandes. “São medidas fáceis e simples, porém importantes para a preservação do meio ambiente”, comenta Ilton. Para Nelson, é uma terapia. “Estimula a boa convivência com a vizinhança e é uma forma de educar. Metade desse descarte incorreto é culpa do governo e metade, da população”, declara. “Só basta um jogar o lixo para o outro fazer também. E joga na porta da casa dos outros. Não tem fiscalização”, acrescenta Ilton. No entanto, desde que os pneus transformados em vasos começaram a aparecer nas quadras de Sobradinho, o cenário mudou. No lugar dos entulhos, as flores começaram a aparecer.

Para manter tudo em ordem, os dois contam com a ajuda da “fiscal do lixo”, a mãe de Nelson, Davina Teodora de Souza. 70. “Aqui na cidade, as pessoas jogam papel de balinha no chão. Não entendem que a cidade mais limpa é uma questão de saúde”, afirma. Segundo a fiscal, a rua onde mora é a mais bem cuidada. Além dos vasos coloridos, não tem lixo fora do lugar. Do filho, é nítido o orgulho que Davina carrega. “Ele trabalhava em um supermercado e foi mandado embora. Como não consegue ficar parado, começou a trabalhar reciclando esses pneus e transformando em vasos”, conta. Na época, Nelson viu uma reportagem de Ilton, que já brigava por questões ambientais na região, e quis ajudar. “Se passar uma semana sem pintar pneus, fico doente”, confessa aos risos.

 

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