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Animais grandes e ferozes habitaram território onde hoje está o DF

Eles chegaram a conviver com os homens da caverna

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postado em 23/10/2016 08:03 / atualizado em 24/10/2016 15:52

Renato Alves

Pacífico/CB/D.A press

Pesquisadores argentinos anunciaram, no mês passado, a descoberta dos fósseis da maior criatura da Terra. Eles estimaram 40 metros de comprimento e 20m de altura (quando esticava o pescoço) para o dinossauro. Com 77 toneladas, seria tão pesado quanto 14 elefantes africanos e teria sete toneladas a mais do que o recordista anterior, o Argentinosaurus, também localizado na Patagônia. Na última semana, paleontólogos brasileiros apresentaram o fóssil resgatado em Presidente Prudente (SP), que afirmaram ser do maior dinossauro do país. O Austroposeidon magnificus, como o chamaram, tinha 25m de comprimento e viveu há 70 milhões de anos, segundo os estudiosos. E o Planalto Central abrigou gigantes como esses? Embora escavações nunca tenham sido feitas no Distrito Federal e no Entorno, especialistas detectaram indícios de esqueletos de animais extintos e de instrumentos usados por homens das cavernas na região.

Os homens não conviveram com os dinossauros em nenhuma parte do mundo. Os dinossauros foram extintos há milhões de anos antes do surgimento da humanidade. Mas o primeiro registro da presença humana no Planalto Central coincide com a fase de extinção dos primeiros animais que habitaram a região, bichos grandes e ferozes, como o tigre dente-de-sabre. Os homens da caverna também tinham a companhia de outros animais enormes, como o megatério — uma espécie de preguiça — e o gliptodonte, um tatu gigante de até 1m de altura. De uma faixa de terra, onde hoje é a América Central, animais do Norte chegaram ao Sul. Entre eles, o mastodonte, os cães-urso e os ancestrais dos cavalos. Todos, antigos moradores do cerrado.

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Apesar da longa coexistência, não há nenhuma evidência confiável de que o homem caçou os animais gigantes de forma sistemática no território nacional ou mesmo na América do Sul, ao contrário do que ocorreu na América do Norte, onde mamutes e mastodontes eram presas constantes das populações humanas. “O desaparecimento da megafauna no território nacional provavelmente não teve relação direta com a chegada do ser humano, como algumas hipóteses para essa extinção sugerem”, afirma o arqueólogo Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio, um dos autores do estudo, ao lado do irmão Alex Hubbe, pós-doutorando da Universidade de São Paulo (USP). Eles acreditam que a extinção dos animais deve ter sido desencadeada por uma mudança climática. Na teoria deles, as espécies da megafauna teriam se extinguindo gradualmente a partir da última grande glaciação, no fim do período chamado Pleistoceno (há aproximadamente 12 mil anos). Os maiores não teriam vivido além de 10 mil anos atrás e os menores teriam avançado um pouco além da “nova era”, chegando a 4 mil anos atrás.

Desenhos


Homens e mulheres já viviam no Planalto Central há ao menos 12 mil anos. Eram povos nômades. Buscavam abrigo em grutas nos meses mais frios. No verão, saíam para caçar. Nas paredes das rudimentares casas, ilustravam o cotidiano em pinturas de animais e descrições de caçadas. Os vestígios dos ancestrais candangos estão espalhados por fazendas do Entorno e até em áreas povoadas do DF. Nos pastos e plantações de fazendas de Formosa (GO), por exemplo, homens, cavalos, bois e outros bichos pisam sobre ferramentas fabricadas entre 4 mil e 12 mil anos atrás. Machadinhas, pontas de lanças e outros artefatos estão em propriedades rurais. E esses não são os únicos tesouros pré-históricos expostos e desprotegidos no município, a 80km de Brasília.


Ronaldo de Oliveira/CB/D.A press

Pinturas rupestres feitas pelos primeiros habitantes do Planalto enfeitam sete das 29 grutas catalogadas em Formosa. Os homens das cavernas também deixaram gravuras em dezenas de paredões e pedras encravadas no cerrado. As pinturas estão nítidas, levando-se em conta o desgaste sofrido ao longo de tanto tempo de exposição. Algumas foram feitas a até 7,5m do solo. A maioria tem um só tom: vermelho, laranja, vinho e preto. Poucas têm associação de duas cores. As representações são variadas. Algumas gravuras se referem a animais, como tatus e veados. Também há marcas de pés, com quatro, cinco e seis dedos, e desenhos primários de pessoas. Mas há muitas gravuras ainda não decifradas pelos cientistas. Elas têm formatos geométricos e tradições astronômicas. Os pesquisadores supõem ser retratos do céu, das diversas constelações.

Raridades

Desenhos como os das grutas de Formosa, no Brasil, foram encontrados somente em Sete Cidades, no Piauí. Eles também estão em outros continentes, o que intriga os pesquisadores, pois, na pré-história, não havia meios de comunicação e de transporte. “As figuras mais curiosas dos sítios arqueológicos de Formosa estão na Pedra Pintada, onde tem a Árvore da Vida, bem semelhante a representações encontradas na África e na Austrália”, contou o historiador Paulo Bertran (1948-2005), autor do livro História da terra e do homem no Planalto Central, um dos poucos que tratam da pré-história do DF e região.

As conclusões de Bertran são embasadas por vestígios deixados pelos primeiros habitantes do Centro-Oeste nas grutas de Formosa. Muitas delas sofreram alterações antigas. Há sinais de camas artesanais e jaulas, onde animais de pequeno e médio portes, capturados no verão, eram trancados para servir de comida aos homens no inverno. Bertran sempre destacou que os vestígios dos homens das cavernas são um importante registro da pré-história para todo o país. “A presença do homem aqui é tão antiga quanto nas demais partes da América do Sul. O solo e as grutas do DF e de cidades goianas próximas guardam uma grande quantidade de pinturas rupestres e fósseis. É um acervo tão rico quanto o da região de Lagoa Santa (MG), por exemplo”, ensinou o historiador.

Inexplorado

Os costumes da antiga civilização do Planalto Central ainda são um tesouro pouco explorado. A Universidade de Brasília (UnB) engatinha nas pesquisas da pré-história do DF. A maior parte dos estudos sobre os antigos animais e os primeiros homens da região foi feita pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Algumas das pesquisas foram realizadas pela UFG em convênio com a Universidade de São Paulo (USP), no Projeto Anhanguera de Pesquisas Pré-Históricas. O estudo envolveu as áreas próximas ao DF, entre elas, Planaltina de Goiás, único sítio arqueológico estudado a fundo nas proximidades de Brasília.

Em levantamentos iniciados em 1979 na cidade goiana distante 56km da capital, a professora Dilamar Cândida Martins, da UFG, encontrou uma “indústria pré-histórica” de instrumentos de pedra. São mais de 4 mil peças — cunhas, machados, raspadores — que ainda não foram escavadas. Tudo está na beira do córrego Rico. Pelos cálculos da professora, esses instrumentos têm cerca de 8 mil anos. “Há evidências na região de outros sítios arqueológicos, como o do Barreiro (escavado em 1985 por uma equipe da professora Margarida Andreatta, do Museu Paulista)”, ressaltou Dilamar.

Aldeias

O arqueólogo goiano Eurico Miller encontrou as primeiras pistas de sítios pré-históricos no território onde fica o DF. Em 1991, no Gama, ele deparou-se com dois sítios em antiga região de mata densa, derrubada em 1960. Neles, havia restos de cerâmica e artefatos de pedra, espalhados nas cabeceiras do Córrego Ipê, onde hoje está a Universidade Holística Cidade da Paz. No Ribeirão Ponte Alta, Miller e um grupo de exploradores encontraram vestígios de quatro sítios arqueológicos. Segundo Miller, o achado indica que ali havia uma aldeia indígena, de formato circular, característica de um povo conhecido como Jê. Ainda na Ponte Alta, foram encontrados outros dois sítios, com artefatos de cerâmica feita pelos homens, um deles bem maior e também de formato circular.


Cadu Gomes/CB/D.A press

No começo de 1993, Miller descobriu cinco sítios em Taguatinga, às margens do Córrego Melchior. O lugar tinha características de acampamento de caça. Um ano depois, uma equipe localizou 16 sítios arqueológicos na área do Rio Descoberto. Cinco eram taperas de fazendas coloniais. Uma das ruínas de fazenda estava sobre um sítio indígena milenar. Pelos cálculos de Miller, alguns desses sítios teriam de 7 mil a 7,5 mil anos. Ninguém, porém, os escavou. A falta de exploração impede conclusões precisas.

Outra área arqueológica pesquisada no Entorno fica na Chapada dos Veadeiros, a pouco mais de 200km de Brasília, guarda pinturas rupestres diferentes das de Formosa. Na Chapada e no Vão do Paranã, há farto registro de inscrições em pedras. Os retratos são abstratos. A maioria, de formas geométricas bem variadas em tamanhos. Até 1982, tinham sido catalogados 90 sítios na região. Em Unaí, a 180km de Brasília, arqueólogos encontraram dois abrigos de pedras com pinturas rupestres. Os estudiosos estimam que os registros foram feitos por uma comunidade que ali viveu há 10 mil anos.

Para ler
História da terra e do homem no Planalto Central — Eco-história do Distrito Federal, do indígena ao colonizador, de Paulo Bertran. Editora Verano, 2000, 270 páginas.

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Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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andre
andre - 24 de Outubro às 08:36
Interessante a matéria! Quanto a reportagem dizer que o homem não conviveu com os dinossauros basta ver as "figuritas de Acambaro" no México e as "Piedras de Ica" no Peru. Era outra humanidade, chamada de geração pré-adâmica que não teve conexão com o homem atual.
 
filomena
filomena - 23 de Outubro às 20:06
O unico animal realmente feroz e' o humano.

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