Família luta para tratar criança de 6 anos com canabidiol

Durante cinco anos, as visitas aos hospitais e as crises convulsivas eram constantes. Até que Emanuel começou a usar o medicamento à base de cânhamo, planta da mesma família da maconha. Desde então, a transformação é visível

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postado em 31/10/2016 06:00 / atualizado em 01/11/2016 14:43



Emanuel vive com o pai, Elizandro Souza, 40 anos, a mãe, Valéria Moreira, 32, e a irmã, Sabrina, 14, numa casa de fundo. É um quarto, sala, cozinha e banheiro. Sabrina dorme numa cama de solteiro na sala. Emanuel e os pais dividem a cama de casal. Desde que Elizandro perdeu o emprego, há oito meses, por causa das constantes internações do filho, a família vive com a renda de bicos que ele faz. Ainda assim, o clima na casa é de alegria.

O único momento de tristeza é quando Valéria se lembra do dia em que, no hospital, ao ver Emanuel tendo uma convulsão atrás da outra, entregou o filho nas mãos de Deus. “Aquilo rasgou meu coração. Mas eu disse: ‘Senhor, eu vou entender se ele não tiver que ficar aqui entre nós’.” Não era da vontade de Deus que Emanuel partisse naquele momento.

Nos seis anos de vida, o menino de cabelos negros e riso fácil tem batalhado cada segundo para viver. Os exames do pré-natal não detectaram a má formação no esôfago e, portanto, a necessidade imediata de ele ser operado após nascer. O bebê precisou esperar três dias até conseguir a vaga no Hospital de Base. Quando, finalmente, foi transferido, teve uma parada cardiorrespiratória, que lhe deixaria com graves sequelas, só descobertas a partir dos 6 meses de vida. “Ele não conseguia se sentar e uma das mãozinhas ficava o tempo todo fechada”, relembra Valéria.

As dificuldades do desenvolvimento foram trabalhadas com ajuda de fisioterapeutas, uma prótese e um andador. Aos 2 anos e 3 meses, ele conseguia ficar de pé amparado e tentava se equilibrar sem apoio de ninguém. Foi nessa idade que ele teve a primeira sequência de crise convulsiva. “Uma tomografia constatou danos em todo o lado direito do cérebro e comprometimento em parte do lado esquerdo”, conta a mãe.

Começaram os tratamentos para conter as convulsões. Um tempo depois, “um anjo” — como a família chama uma médica do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) que a família prefere manter o nome em sigilo — atendeu Emanuel por acaso, em uma das crises. A empatia foi imediata. Valéria conta que ela examinou o garoto, fez o diagnóstico, trocou o medicamento e acrescentou outros. A primeira dose, a família não tinha dinheiro para comprar e estava em falta na rede pública de saúde. A médica pagou do próprio bolso os cerca de R$ 300. A qualidade de vida do menino começou a mudar naquele dia.

“Anjos”

Mas a transformação, mesmo, começou no ano passado, quando veio a recomendação do Instituto de Neurologia de Goiânia. Emanuel teria que ser tratado com canabidiol. Com o laudo e a recomendação, começou a luta da família para comprar o medicamento. Eles fizeram rifa de um espremedor de suco, conseguiram R$ 2,5 mil e compraram as três primeiras seringas. “Foi um sufoco porque a gente não fala uma palavra em inglês e teve que importar o CDB”, relata.

A ajuda também chegou por meio das redes sociais, depois que os pais do menino postaram vídeos contando a história. Desconhecidos compraram os bilhetes da rifa por mensagem. Outros simplesmente depositaram ajuda em uma conta aberta para Emanuel. Também rifaram um tablet (doado por uma amiga da família) e uma churrasqueira elétrica. Mas não dava para ficar fazendo rifa a cada vez que o medicamento chegasse ao fim. “Então, apareceu um outro anjo na nossa vida. Um casal muito discreto nos encontrou, ligou para o meu marido e comprou três seringas de CDB para o Emanuel”, conta Valéria.

Agora, a luta da família é para conseguir a substância na rede pública. Por meio da Justiça, obteve decisão de sequestro do orçamento da Secretaria de Saúde para comprar uma remessa. O processo levou cerca de um mês e meio. Em janeiro, Valéria recebeu uma ligação de funcionários do governo, avisando que estava no processo final de compra do CDB. Mas o ano está acabando e, até agora, nada. Na geladeira, uma seringa em uso e outra fechada são as únicas garantias de qualidade de vida para Emanuel.

Diante da incerteza de não conseguir a substância do governo e da certeza de não ter o dinheiro para pagar pelo CDB, Valéria se desespera. “Tem um ano e meio que Emanuel iniciou com o CDB. Tem um ano e meio que não sabemos o que é uma internação. Não quero voltar para aquele lugar onde já estivemos, de dor, sofrimento. Não queria depender do governo para garantir qualidade de vida para o meu filho. O que eu peço é agilidade do poder público. E que eles cumpram a lei”, desabafa.

Enquanto a família segue na luta para garantir o acesso aos medicamentos, Emanuel sonha com uma cama. Não uma cama qualquer. Aquela do Relâmpago MacQueen, o protagonista do filme Carros. O pai, Elizandro, também sonha com um emprego de vigilante. Só assim conseguirá realizar o desejo do filho, ter uma renda e, durante o dia, ainda ajudar a mulher nos cuidados com o caçula e com a filha mais velha, Sabrina, orgulho da família e braço direito de Valéria nos cuidados com o irmão.

Quer ajudar?

Quem quiser apoiar o tratamento de Emanuel pode fazer contato com a família pelo telefone 9 8122-9842 ou fazer o depósito diretamente na conta do menino:

Caixa Econômica Federal
Emanuel Moreira Venâncio
Agência: 4462
Operação: 013
Conta Poupança: 00005213-8
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