População recorre a poços artesianos para driblar a crise hídrica

A perfuração só é permitida se houver autorização da Adasa

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postado em 05/11/2016 12:16 / atualizado em 05/11/2016 12:46

Mariana Niederauer/CB/DA Press
Como em uma contagem regressiva, o brasiliense tem acompanhado dia a dia o nível dos reservatórios que abastecem o Distrito Federal. Veio a taxa extra na conta de água, quando o volume útil atingiu os 25%. Agora, a expectativa é pelo racionamento, previsto para começar quado o índice baixar de 20%. A Barragem do Descoberto chegou a 21,34%. Com a perspectiva de ficar sem água por pelo menos 24 horas, os moradores começam a procurar soluções, inclusive ilegais, como a construção de poços artesianos e cisternas sem outorga da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do DF (Adasa). O que não faltam são anúncios espalhados pelas ruas oferecendo o serviço.

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Na propaganda, a mensagem é de garantir água em casa. Pelo telefone, o homem pergunta o endereço de onde seria perfurado o poço e o tamanho do lote. Ao dizer que seria em uma casa grande, mas com menos de 5 mil m², ele alerta para alguns cuidados, como a necessidade de autorização prévia da Adasa e de licença ambiental. Porém, garante que ninguém segue esse trâmite. “Não precisa falar com ninguém. Isso não é fiscalizado. A gente fura, reveste e, com bomba e tudo, fica por R$ 15 mil. Se quiser fazer um mais raso, com menos de 50 metros, fica mais barato, uns R$ 10 mil. E a gente faz sem licença mesmo, todo mundo faz assim.”

Pelas regras da Adasa, só é justificável a perfuração para construção de poço artesiano em lotes nos quais a área permeável supere os 5 mil m² ou em que a região não seja atendida pela Companhia de Abastecimento do DF (Caesb). Ainda assim, é preciso outorga prévia para serem avaliadas a profundidade do poço, a quantidade de água retirada e a finalidade do uso. Segundo levantamento da Adasa, hoje existem 5.051 poços autorizados. Quando os fiscais identificam a existência de um irregular, o responsável é notificado. Ele tem a possibilidade de legalizar a situação ou de fechar o ponto de captação. Quando aplicada, a multa varia de R$ 1 mil a R$ 10 mil. Também cabe embargo e lacração do poço. O estado de escassez hídrica é um agravante que potencializa o valor das infrações.

Diante da crise, a agência suspendeu as concessões de novas outorgas para captação de água. A intenção é forçar a economia em todos os setores. “Há os usuários abastecidos pela Caesb, os ribeirinhos e os poços, com uso da água subterrânea. Como estamos em um momento difícil, entendemos que todos devem racionar o uso”, explicou o superintendente de Recursos Hídricos da Adasa, Rafael Mello. Segundo ele, de janeiro a junho, 774 outorgas foram emitidas e 357 notificações contra a perfurações irregulares.

Para emitir a outorga, a Adasa leva em consideração o nível da reserva hídrica subterrânea do DF. Parte da água é outorgável, pode ser usada, já que é renovada, por exemplo, com a infiltração das águas das chuvas. No entanto, em algumas regiões, como São Sebastião, o nível está em 60% do uso e não pode mais ter exportação de água subterrânea. “É a região mais comprometida do DF. Lá, não autorizamos mais”, afirmou Rafael.

Lago seco

A falta de água não influencia apenas o abastecimento de água. Visivelmente mais seco, o Lago Paranoá está, desde 24 de outubro, com 999,8 metros — nível mínimo estabelecido em resolução pela Adasa. Apesar de baixo, segundo a agência, o nível está dentro do previsto para o período. Para não baixar ainda mais, a Companhia Energética de Brasília (CEB) controla o uso da água na geração de energia. A expectativa do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para o fim de semana é otimista. “A previsão de chuva se mantém nos próximos dias. As madrugadas prometem ser mais frias. A temperatura mínima deve ficar em torno de 16°C e a umidade, entre 85% e 35%”, explica o meteorologista Mamedes Luiz Melo.

Entenda a diferença

Cisterna
Poço de diâmetro de um metro ou mais, escavado manualmente e revestidos com tijolos ou anéis de concreto. Capta do lençol freático e tem, geralmente, profundidades de até 20 metros.

Poço tubular
Obra de engenharia que dá acesso à água subterrânea, executada com sonda por perfuração vertical e profundidade de até 2 mil metros para captação.

Memória

Crise anunciada
Em 2011, o consumo de água no DF dava indícios de uma possível crise hídrica. O uso dos recursos estava crescente e a aparição de poços artesianos e cisternas foi, justamente, um dos primeiros sintomas da busca pela água. O jeito foi a Adasa criar regras para o uso das águas subterrâneas da cidade. Levantamento feito pelo Correio à época mostrou que 83% dos poços artesianos e cisternas em funcionamento eram ilegais. O objetivo da agência era regularizar os pontos de captação que existiam para ter maior controle sobre a qualidade e quantidade da água retirada nos poços.
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Alvaro
Alvaro - 06 de Novembro às 09:17
Alguém ai..... acha que vai controlar a irresponsabilidade da falta de prevenção por parte dos órgãos competentes????