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Morre Álvaro Lins, militante de esquerda que lutou contra o regime militar

Opositor do regime militar, líder sindical e referência estudantil, Álvaro Lins morreu ontem, aos 67 anos, de complicações decorrentes de um transplante

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postado em 28/11/2016 06:00 / atualizado em 28/11/2016 17:06

Luiz Calcagno

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

O Distrito Federal perdeu, na manhã deste domingo, um importante militante de esquerda e opositor do regime militar. Álvaro Lins, 67 anos, morreu, pela manhã, de complicações decorrentes de um transplante de fígado. Ele estava internado no Hospital Brasília. O ativista deixou uma irmã, a mulher, cinco filhos e sete netos. O velório de Álvaro Lins acontecerá hoje, na Capela 6 do Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, de 13h às 17h. Posteriormente, o corpo será levado para o crematório de Valparaíso (GO).

Álvaro foi um dos precursores do movimento estudantil na capital, atuou em organizações políticas contrárias à ditadura como a Ação Popular e a Ala Vermelha, do Partido Comunista do Brasil, onde agiu na clandestinidade e foi obrigado a mudar de nome pelo menos três vezes. Bem relacionado com políticos dos mais variados partidos, após a anistia, trabalhou na campanha à presidência de Fernando Collor de Mello, com quem também dividiu a sala de aula na adolescência. O filho mais velho, o gerente de RH Carlos Cavalcante, 41 anos, ressalta a simpatia e o otimismo do pai. “Ele nutriu os mais variados amigos. Da direita à esquerda, do intelectual ao operário, do cientista ao artista.”

 

Álvaro tinha o mesmo nome do pai, o deputado federal pelo Ceará Álvaro Lins, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Na clandestinidade, também se chamou Timóteo, e depois Paulo Oliveira e, ainda, Paulo Oliveira Tavares (veja Para saber mais). A história repleta de reviravoltas começou quando ele tinha 15 anos, morava na 105 Sul e estudava no Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem). O ano era 1964 e ele acompanhou o Golpe Militar no rádio da família, um Zenith trazido de uma viagem ao exterior. A percepção do absurdo da deposição por militares de um presidente eleito democraticamente despertou a inquietude política no jovem. Ele viu os melhores professores do Ciem serem demitidos sob a acusação de serem comunistas e também acabou expulso da unidade ao se manifestar contra o desligamento de uma colega. Foi preso pela primeira vez em uma passeata na 506 Sul, em 1968. Amigo do militante, o jornalista Hélio Doyle presenciou o momento.

 

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“Nós fugíamos para dentro dos blocos. Estávamos em um elevador quando a porta abriu e um policial jogou uma bomba de gás lacrimogêneo lá dentro”, recorda. Doyle lamentou a morte de Álvaro, que descreveu como uma pessoa com uma história de vida excepcional. “Estudamos juntos no Ciem. Eu tinha simpatia com a esquerda, mas foi ele quem me levou para a militância. Participamos do movimento estudantil juntos e ele era dirigente regional do Ala Vermelha”, recorda. “Tínhamos uma ligação que ia além da militância. Conheci a família dele. A mãe dele, dona Zimar, que nos apoiava. Estive na Vila Kennedy, um lugar muito pobre em Bangu (RJ), onde ele morou quando estava na clandestinidade, no Rio de Janeiro, e conheci os filhos dele pequenos. Vivemos as coisas de escola e da militância leve e pesada. Vimos pessoas próximas sendo presas e morrendo. Estou sentindo muito. A morte dele pesa bastante. Ele foi cedo, aos 67 anos. Ainda não era a hora”.

O governador Rodrigo Rollemberg também lamentou a morte do amigo e militante. “Na última semana perdi três amigos com quem convivi e compartilhei muitas histórias de Brasília. Marcio Cury, Manfredo Caldas e Alvaro Lins. Hoje perdemos Álvaro Lins, o Alvinho, um militante de esquerda que marcou sua trajetória com lutas democráticas desde os idos de sessenta”, escreveu o governador, em nota. “Perseguido, foi preso e, na clandestinadade, continuou a lutar pela redemocratização do Brasil.”


Arquivo familiar/Reprodução

Na segunda vez que foi preso, Álvaro estava em um comício relâmpago em que pedia que libertassem os estudantes que participavam do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). O evento era clandestino e acontecia em um sítio em Ibiúna (SP). O comício em questão aconteceu em um evento de militares em uma escola na L2 Sul. Depois de solto, passou a ser perseguido e se mudou para o Rio de Janeiro, depois para São Paulo e, então, de volta para o Rio. Irmã de Álvaro, a bancária aposentada Ana Amélia Gadelha Lins Cavalcante, 66 anos, militou com o irmão na Ala vermelha. “Ele sempre foi uma referência. Sou mais nova que ele e fomos muito companheiros na luta contra a ditadura. Entramos na clandestinidade. No Rio de Janeiro, ele teve um desempenho grande. Participou do sindicato dos metalúrgicos, organizou greves. Foi uma referência do movimento sindical no estado”, destaca.

Homem de família

Segundo Ana Amélia, Álvaro estava confiante para enfrentar a cirurgia no último sábado. Durante o procedimento, ele acabou apresentando problemas de coagulação e a pressão baixou. “A gente sabia que era perigoso, mas estávamos todos muito confiantes. Ele tinha todas as condições. Não contávamos com isso. Esperávamos que ele saísse bem. Foi muito chocante. Ontem, ele saiu do quarto brincando com os filhos, tirou fotografia, estava alegre. Ninguém podia adivinhar que isso poderia acontecer. Ele era uma pessoa que amava a vida, muito alegre, amigo dos filhos, tinha uma capacidade de liderança muito grande e também foi muito importante politicamente”, afirma. “Fomos criados na Vila Kennedy, um lugar muito pobre, e depois viemos para Brasília. Vivemos as duas realidades. Ele teve uma vida rica, e isso se refletiu na gente”, completa o Carlos Cavalcante.

O filho destaca que a dedicação de Álvaro à política era tão intensa quanto o amor que nutria pela família. Criou os filhos com carinho e era um avô dedicado, que gostava de se fantasiar de mágico nos aniversários dos netos e fazer as crianças sorrirem. “Como legado, ele nos deixou a vontade de viver, um otimismo marcante e um espírito de família. Ele amava viajar e deixou isso muito forte na gente. Sonhava em ter 12 netos e estava apaixonado pela mais nova, minha filha, Malu, que tem 12 meses”, recorda. A mulher de Álvaro, Darlene de Jesus Oliveira, 49, conta que eles esperavam viajar para Paris, para comemorar o sucesso da cirurgia. “Soubemos do câncer e da cirrose hepática há mais de um ano. Descobrimos que era preciso transplante em setembro do ano passado. Ele estava otimista. A expectativa de vida era grande. Foi um baque. De agora em diante, não sei como vai ser. Vou me inspirar no otimismo dele, na alegria de 16 anos juntos. Daqui para frente é buscar por isso e, por enquanto, tentar viver”, declara.

O amanhã

O presidente do Partido Socialismo e Liberdade (PSol), Toninho do PSol, conta que, em 4 de novembro, se sentou com Álvaro para conversar sobre a situação política do DF e as perspectivas para as eleições de 2018. “Ele se ofereceu para nos ajudar, qualquer que fosse a escolha do Psol para o Distrito Federal. Estava animado com a campanha do partido. Eu conheci o Álvaro no Rio de janeiro. Ele vivia clandestinamente e tinha uma importante militância no meio metalúrgico. Ajudou a formar operários conscientes. A esquerda do nosso país está enlutada pelo falecimento de um dos nossos heróis da resistência”. A ex-deputada Maria José da Conceição Maninha descreve Álvaro como um “herói anônimo”. “Tínhamos uma amizade que se tornou familiar quando nossas filhas passaram a estudar juntas. Ele era um especialista em publicidade e marketing e me ajudou diversas vezes em minhas campanhas. É um cidadão que deu toda a sua vida para a construção de uma democracia.”

» Para saber mais
Codinome Beija-Flor


O jornalista e professor da Universidade Católica de Brasília Aylê Salassié é autor de um livro que conta parte da vida de Álvaro Lins. Amigos de militância política na juventude, o escritor relata que fez as entrevistas durante conversas em mesas de um bar na 410 Asa Norte. Aylê destaca que o apego de Álvaro à mãe é um ponto importante na história do militante. Nas pesquisas que fez, o estudioso conversou com psicanalistas que falaram sobre as mudanças e danos à personalidade que a troca constante de nome e aparência podem causar nas pessoas. As transformações, no entanto, pareceram não afetar o militante. “Quando foi para São Paulo, ganhou dos companheiros da Ala Vermelha o nome de Timóteo. Isso porque ele cantava músicas de Agnaldo Timóteo para se lembrar da mãe. Os codinomes atravessaram a personalidade dessas pessoas. Eles têm que esquecer as origens. E ele só não se esqueceu por conta da dona Zimar, que manteve contato com ele e até usava codinome para visitá-lo. Por esse motivo, chamei o livro de codinome beija-flor. Ele era uma pessoa que não tinha muitos apegos. Nunca quis se candidatar, ser presidente. Mas era um homem muito inteligente e um líder excepcional. O que fazia, fazia bem-feito”, conta.

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