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Especialista: "Não avaliar o quadro mental de uma mãe é um erro"

Elisângela Cruz dos Santos Carvalho está presa e responderá pelo homicídio do seu filho Miguel Santos Carvalho, de 5 meses, encontrado morto no Lago Paranoá

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postado em 14/04/2017 06:00

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
 
O garçom Iturialde Silva aparentava cansaço e tristeza, mas mantinha a serenidade ao se despedir do filho, Miguel Santos Carvalho, 5 meses. Enterrado no Cemitério do Gama, na manhã de ontem, o bebê foi encontrado morto no Lago Paranoá no último domingo. A mãe da criança, Elisângela Cruz dos Santos Carvalho, 36 anos, está presa e responderá, inicialmente, por homicídio. Antes, passará por uma avaliação psiquiátrica. Há chances de ela ter cometido o crime em razão de uma depressão pós-parto ou de uma psicose puerperal. “O Miguel, infelizmente, não volta mais. Eu não estou aqui para fazer julgamentos. Mas posso dizer que ela (a mãe) é nobre de coração e excelente com os filhos. Uma pessoa querida, que tem o apego de todos. A dor vai ficar. Precisamos, agora, agir para ajudar uma pessoa que está debilitada”, lamentou Iturialde.


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Ao Correio, ele fez questão de destacar que sairá em defesa de Elisângela. Inclusive na Justiça. “Ainda tenho dois filhos. Temos de seguir em frente e pretendo blindá-los de comentários na rua, na escola e em qualquer lugar. E vamos auxiliar a mãe, que é quem os gerou. Vamos nos empenhar nisso”, afirmou. O pai disse nunca pensar que, um dia, a história da família pudesse estampar páginas de jornal. “De repente, não sou mais um espectador. Estou do outro lado da notícia. E é muito cruel.” Ele mora no mesmo terreno que a ex-mulher, mas em outra casa. Via os filhos diariamente. O casal se separou quando ela engravidou de Miguel.

Amigos e parentes deram o último adeus ao menino em um enterro simples, sem velório, ao lado do jazigo. Cerca de 40 pessoas participaram da cerimônia. Rezaram, cantaram, fizeram silêncio e se abraçaram, enquanto tentavam compreender os motivos da tragédia que chocou Brasília. Falava-se em buscar conforto em Deus e em não emitir julgamentos contra Elisângela. A cerimônia de despedida começou às 10h30 e durou cerca de 15 minutos. Parentes e amigos ainda ficaram mais alguns minutos no local.

Um irmão de Elisângela, que pediu para não ser identificado, disse que a família busca apoio na religião. Ele contou que tem um filho da mesma idade de Miguel. “Era boa mãe, não transparecia ter algum problema. Estava sempre com os filhos. Tudo indica que tenha sido depressão pós-parto e tristeza da separação.”

Segundo uma prima de Elisângela, a mãe de Miguel aparentava tristeza desde o ano passado. “A última vez que nos vimos foi em outubro. Ela não queria conversar ou se abrir. É uma pessoa calma e deixou, inúmeras vezes, de cuidar de si para cuidar dos filhos. Depois que acharam o bebê, pensamos que ela também estivesse morta. Foi um alívio quando soubemos que estava viva. Resta-nos ajudá-la, orar e não julgá-la”, opinou. O psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília Raphael Boechat Barros disse que, se ficar provado, após avaliação médica, que ela agiu em decorrência de depressão pós-parto, será considerada inimputável.


Inquérito

 
O drama que culminou na morte do bebê começou em 7 de abril. Elisângela saiu de casa, por volta das 12h, levando dois dos três filhos, Miguel e Pedro (nome fictício), 4 anos. No dia seguinte, o mais velho voltou para casa. Ele não soube dizer onde esteve nem o que aconteceu. Horas depois, preocupados, familiares registraram ocorrência de desaparecimento. Elisângela chegou a mandar uma mensagem no grupo de WhatsApp da família pedindo perdão e afirmando que faria uma viagem sem volta. No dia 9, o empresário André Bello, 35, pilotava um jet ski quando se deparou com o corpo do bebê no Lago Paranoá. Três dias depois, o editor de vídeo Ferdinand André Sousa da Silva, 40, encontraria a mãe na QL 26 do Lago Sul. Ela estava em cima de uma árvore, desorientada e não se lembrava de ter filhos ou parentes.

Ferdinand imaginou se tratar de uma moradora de rua, mas chamou a PM e os bombeiros. Ela foi encaminhada para a 10ª DP (Lago Sul), onde confessou o crime. O delegado-chefe, Plácido Rocha, explicou que o inquérito está encerrado, mas a polícia fará mais diligências a pedido da Justiça. “Devemos ouvir o pai e alguns familiares. O laudo cadavérico vai nos ajudar a esclarecer a dinâmica dos fatos. Saberemos se ela jogou o bebê da ponte (JK) ou se soltou à beira do lago. Mas isso não muda a gravidade dos fatos. Ela passará por avaliação para ser segregada de outros detentos na Colmeia, e o juiz deve pedir o laudo de sanidade mental para saber se estava lúcida quando matou o bebê”, detalhou.

O defensor de Elisângela, Onildo Gomes, se reuniu, na tarde de ontem, com a proprietária do centro de convivência e atenção psicossocial Mansão Vida, Icer Giraldi Dias. A clínica particular se dispôs a atender a mulher gratuitamente caso a Justiça a libere para ficar internada. “Ela sofreu uma depressão pós-parto. Vamos trabalhar para aliviar o sofrimento. Ela não agiu segura de suas faculdades mentais”, avaliou o advogado.


Palavra de especialista


Necessidade de avaliação

“Temos três quadros no pós-parto que demandam atenção. O blues puerperal, que é a tristeza pós-parto, costuma ser transitório e atinge 70% das parturientes. É causada pela queda de hormônios. Um quadro mais grave é a depressão pós-parto. Nesse caso, é necessário intervir com medicação e terapia. O mais grave de todos — e o mais raro — é a psicose puerperal, em que o paciente perde o juízo e informações básicas sobre si. Pode até se esquecer de membros da família. Não avaliar o quadro mental de uma mãe é um erro. É preciso ficar atento a sinais como isolamento em relação ao filho, medo de fazer mal ao bebê. Do ponto de vista legal, se for considerado que ela estava em psicose, não poderá ser julgada como uma pessoa comum. Ela é inimputável, mas isso depende de avaliação médica”

Raphael Boechat, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da UnB


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Mauricio
Mauricio - 14 de Abril às 16:14
Será que se o assassino fosse um homem, mereceria tanta compreensão?! Eu duvido. Crimes de mulheres são sempre justificados. A culpa nunca é delas. Incrível isso.
 
ercilia
ercilia - 14 de Abril às 11:16
Vai tentar ter um tratamento mental no GDF...é impossivel...não existe. São raros os psiquiatras na rede pública. A sociedade deveria atentar mais para os problemas mentais das pessoas menos favorecidas. Se chocam com essa tragédia mas nada fazem.
 
Mauricio
Mauricio - 14 de Abril às 10:54
A diferença de nobreza entre homens (seres humanos do sexo masculino) e feministas é gritante. O pai, diante da maior dor que pode sentir, não demonizou a mulher, não aproveitou o fato para subir tags de ódio, não foi para a TV dizer que todas as mulheres são ruins. Um crime MUITO mais grave que o assédio juvenil do ator global, um crime cujo agente é UMA MULHER, e a conduta do homem é nobre, acolhedora e compreensiva.