Aos 100 anos, pedreiro realiza o grande sonho de sua vida

De presente, ele só tinha um pedido: sair no jornal

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postado em 21/04/2017 06:00 / atualizado em 20/04/2017 23:52

Hugo Gonçalves/Esp. CB/D.A Press
 
 
Distante 63 quilômetros de Brasília, Planaltina de Goiás guarda a história de um senhor que conseguiu um feito raro: completar 100 anos. É em uma casa simples, mas espaçosa e aconchegante, no Jardim Paquetá, que Afonso Idomineu da Silva vive com a esposa, Maria Nasaré Silva, 75, e recebe os 11 filhos, 21 netos e 15 bisnetos. O sanfoneiro e tecladista, totalmente lúcido, veio para Brasília em dezembro de 1970 e participou da construção de prédios residenciais da Asa Norte como pedreiro. Para comemorar o centenário, o pedido era simples: uma festa com toda a família reunida e aparecer no jornal. “Desde que fiz 80 anos, sempre disse que esses eram meus sonhos para meu aniversário de 100 anos. Gosto da imprensa e da tevê. A família que tenho é uma bênção de Deus.”
 

A história de seu Afonso começou na cidade de Picos, município de 76 mil habitantes no Piauí. Em 22 de abril de 1917, nascia um menino de família simples com 12 irmãos — hoje, resta apenas Afonso. Ele cresceu e, aos 22 anos, fez parte do pelotão do Exército que por pouco não foi enviado para a Segunda Guerra Mundial. “Mas Deus me abençoou e me deram baixa. Por isso que estou aqui hoje”, brinca. Ele serviu durante 10 meses e chegou a ser fuzileiro atirador. “Nunca vou esquecer. Meu número era o 228, era assim que chamavam os soldados”, relembra. Já casado com a primeira mulher e pai de três filhos, viajou para uma cidade vizinha e viu Maria, à época com 14 anos, pela primeira vez.

Aos 39 anos, Afonso conheceu o que diz ser o amor da vida dele. “Eu vi aquela menina, ainda se formando, e não pensei em outra coisa. Fui com ela para o mundo. Agradeço muito a Deus por ter minha esposa na minha vida.” Os dois foram embora fugidos das famílias e, desde então, cuidam um do outro. Contabilizam oito filhos e incontáveis experiências. “Ele era pedreiro e, quando viemos para Brasília, trabalhei de segunda a sábado como diarista. O segredo é muito amor”, garante Maria. E lá se vão 61 anos de união. Após 26 anos da fuga amorosa, eles conseguiram realizar o sonho de dona Maria, que era se casar.

Após decidir construir a vida no Distrito Federal, o casal comprou um lote e Afonso ergueu, com as próprias mãos, a primeira casa da família, em Planaltina, no DF. Morou por três décadas na Vila Buriti. Nessa época, participou do Trio Saudade do Nordeste, onde tocava sanfona com mais dois amigos — um no triângulo e outro na zabumba. “Nós nos apresentamos em várias festas por essa cidade, íamos em vários forrós. Foi uma época boa.”

Maturidade
Afonso se apresenta como músico, compositor de melodia e tem três CDs gravados. Em 2004, participou do Programa Maturidade do Banco Real e ganhou na categoria Música Vocal. Mas o que mais chama atenção é que ele decidiu aprender a tocar teclado aos 79 anos, depois de comprar o primeiro instrumento a partir de um anúncio de jornal. “Um dos meus filhos é pianista e me disse que eu tinha que parar de andar com gente que bebe, que eram os forrozeiros. Como eu nunca bebi, decidi aprender teclado e me apaixonei.”

Dos oito filhos do segundo casamento, um morreu, dois moram no Distrito Federal e outros cinco se mudaram para Blumenau, em Santa Catarina. Seu Afonso e dona Maria venderam a casa de Planaltina e tentaram morar um tempo no Sul do País, “mas não suportamos o frio”, brinca o músico. Voltaram para Brasília há 16 anos e conseguiram comprar uma outra casa, agora em Planaltina de Goiás. Lá, o centenário tem uma criação de pombos. Na casa dos fundos, há bichos de raça e é isso que complementa a renda da família. Aposentado com um salário mínimo depois de um acidente de trabalho, os animais são vendidos para pet shops e no portão de casa. “Quando eu tinha 10 anos, gostava de dar comida para os pombos da minha cidade. Quando cheguei a Brasília, comecei a criar pombo-correio.”

Festança

A família agora se prepara para realizar o maior sonho de Afonso: a festa do aniversário de 100 anos. A expectativa é que 120 convidados, a maioria de familiares de várias regiões do país, reúna-se amanhã, data de nascimento do patriarca, em Planaltina. Perguntado sobre a importância, Afonso sorri e responde: “Quando nascemos, nosso destino é programado por Deus. Ele é bom e tenho essa família linda. É muita felicidade.” Mas quem estava emocionada mesmo era dona Maria, que, com os olhos marejados, afirmava que a felicidade dela era estar ao lado do marido em uma data tão importante.

“Quando nascemos, nosso destino é programado por Deus. Ele é bom e tenho essa família linda. É muita felicidade”  
Afonso Idomineu da Silva , pedreiro aposentado
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