"Dirigir embriagado é brincar de roleta-russa", diz especialista da UnB

Em entrevista ao Correio, o especialista em segurança de trânsito David Duarte reforça a necessidade de punição dura aos infratores como forma de exemplo aos demais condutores

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 26/04/2017 06:00 / atualizado em 26/04/2017 06:51

Antonio Cunha/CB/D.A Press
 

A morte do administrador de empresas Edson Antonelli, 61 anos, na manhã do último domingo, reacendeu o debate sobre a Lei Seca no Distrito Federal e os riscos de consumir álcool antes de pegar o volante. A jovem que atropelou o ciclista, a estudante Mônica Karina, 20, voltava de uma festa. O teste do bafômetro feito pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER) registrou 0,8 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões, quase três vezes o limite considerado para estabelecer crime. Antonelli pedalava na ciclovia da QI 7 do Lago Norte. 
 
 
Mônica ficou presa por cerca de 30 horas. Na Justiça, a jovem conseguiu o direito de responder ao processo em liberdade mediante o pagamento de fiança de R$ 5 mil. Em entrevista ao Correio, o especialista em segurança no trânsito da Universidade de Brasília (UnB) David Duarte defende pena severa para quem descumpre a lei e provoca um acidente como esse. Mas revela que o desrespeito é cada vez mais comum. Pesquisas indicam que os jovens continuam bebendo e dirigindo. Correm um risco altíssimo de morrer ou matar.  “Dirigir embriagado é como brincar de roleta-russa. Não vale a pena correr o risco de matar alguém no trânsito. Não vale a pena o risco de deixar alguém paraplégico”, diz.
 

Que tipo de ação deve ser desenvolvida para atingir os motoristas e, realmente, promover uma cultura de direção mais segura?

A campanha Paz no Trânsito do Correio deu certo por quê? Porque foi movida por uma grande emoção. Só se muda o comportamento nas vias pela emoção. Esse sentimento é muito mais forte do que a razão. Enquanto as ações de trânsito não envolverem paixão, essa situação não se reverte.

Em alguns países, como os Estados Unidos, o condutor é preso quando flagrado alcoolizado. Aqui, apesar de ter previsão legal, isso não acontece, nem quando resulta em morte. Mais rigor na aplicação da lei seria um caminho?

Os americanos são muito duros. Conheço o caso de um brasileiro que ficou preso dois anos, depois de ter se envolvido em um acidente sem vítima num cruzamento. Ele parou, e um carro bateu na traseira dele. A polícia chegou, ele fez o bafômetro e saiu de lá preso. Depois, foi deportado. Ele tinha bebido duas latinhas e não foi o responsável pela colisão. Os europeus seguem outro caminho, o do convencimento. Você não pode beber porque perde os reflexos, a sua percepção fica alterada e isso provoca acidente. No caso do Brasil, a mudança pelo convencimento seria mais eficaz. Não temos infraestrutura judiciária para julgar os crimes de trânsito nem infraestrutura penitenciária que respeite as pessoas. E o Estado, a Polícia Militar, o Detran e o DER não têm força para implantar o Código de Trânsito Brasileiro.

Em relação à embriaguez ao volante, o senhor disse que é preciso esclarecer as pessoas
sobre os efeitos do álcool no organismo e o tempo necessário para o corpo metabolizar a bebida. Há alguma regra que sirva para todos?

Sim. A norma geral é: para cada dose de bebida, a pessoa deve esperar 1 hora para pegar o volante. Independentemente da bebida. Uma tulipa de chope, uma taça de vinho, uma dose de cachaça, não importa. Isso levando em conta que essa pessoa está com o fígado em boas condições.

A nova geração bebe mais e dirige mais alcoolizada? 

Não sei se bebe mais, mas bebe muito. Falo isso com base em pesquisas que fizemos dentro da UnB e pelo que vemos lá. São alunos de diferentes cursos: medicina, jornalismo, ciências sociais. A farra é frequente. De modo geral, eles estão sensíveis a essa questão do álcool e volante, mas a mensagem do Estado não chega a eles. Os alunos são sensíveis a isso, mas o Estado não faz campanhas e, se faz, não são adequadas.
 
Antonio Cunha/CB/D.A Press

Qual é a mensagem certa,aqueles vídeos chocantes, que mostram vítimas, sangue?

A Austrália sempre mostrou sangue. Eles mostram a cena crua. Os EUA pegam no bolso. E a Europa apela para a conscientização. Mas a Austrália, há cinco anos, pensando em como convencer o jovem, inventou um símbolo como pênis pequeno. Fizeram uma série de vídeos comparando a pessoas que cometem infrações no trânsito àquele símbolo. Na campanha, um motorista sai cantando pneu numa faixa de pedestre e duas moças se assustam. Uma senhora de uns 70 anos, do outro lado da rua, diz: “Liga não”. Ela olha e faz o sinal com o dedo mínimo, como quem diz: fez isso porque tem o pênis pequeno. Essa campanha fez um sucesso e teve impacto. A mudança de comportamento, medida em pesquisas, foi muito positiva. Talvez devêssemos, no Brasil, criar a mesma rejeição ao mau comportamento no trânsito que temos com quem fuma. Hoje, se alguém entrar fumando nessa sala, todos vão reprovar. Fumar é brega. Talvez se associássemos algo assim às más condutas no trânsito poderíamos ter bons resultados.

No caso da jovem que atropelou e matou o ciclista no Lago Norte, como será a vida dela de 
agora em diante? 

Quem mata alcoolizado precisa de um tratamento, porque carrega um arrependimento, uma culpa, e se martiriza muito. O abalo psicológico é muito mais grave do que o sofrido por alguém que se envolve em acidente fatal sem estar embriagado. Há vários estudos de psicologia sobre isso. Muito provavelmente ela vai sofrer anos, mas ela precisa responder e ser punida pelo que fez. Ser exemplo de punição. Todo ato precisa ter consequência. Mas não adianta pegar essa moça para Cristo.

No geral, crime de trânsito não dá cadeia nem mesmo em casos graves. E a situação é ainda pior quando o autor tem alto poder aquisitivo. Como mudar essa realidade?

Nos últimos 30 anos, mais de 1 milhão de pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil. Para saber as reais causas, temos de ter perícia. E, comprovada a culpa, tem de ter cadeia. Por que no Brasil não dá cadeia? Porque quem está de carro é rico e quem está com o pé na lama não merece respeito. O Judiciário tem sido negligente com os casos de trânsito. As pessoas precisam pagar. No mundo todo se prende. Precisamos parar de pensar que quem é rico pode tudo.


No caso de álcool e direção, dê cinco razões para que o jovem não dirija depois de ter ingerido bebida alcoólica. 

Primeiro: quem bebe e dirige muda o comportamento e passa a negligenciar as normas de trânsito, dirigindo em alta velocidade, por exemplo. Segundo: perde os reflexos. Fica incapaz de reagir ou reage tardiamente às situações inesperadas e, com isso, aumenta as chances de se envolver em acidente. Terceiro: se estiver embriagado e provocar um acidente com vítima, ele vai pagar um preço muito alto. Dirigir embriagado é como brincar de roleta-russa. Não vale a pena correr o risco de matar alguém no trânsito. Não vale a pena o risco de deixar alguém paraplégico. Quarto: quem bebe e dirige tem ofuscamentos. O campo visual se reduz. O corpo não atende aos comandos do cérebro, perde a capacidade de calcular a distância e o tempo de frenagem. E quinto: temos leis, regras. Quando você bebe e dirige, você está descumprindo uma norma. É fácil apontar para o Temer (presidente Michel Temer), para o Lula (ex-presidente) e para a Dilma (ex-presidenta) e dizer que eles fizeram isso ou aquilo, todas essas coisas que estão na Lava-Jato. Quem não cumpre a lei não pode exigir do outro. Tem uma frase que eu gosto muito: “No volante, continuemos humanos”. Quando dirigimos alcoolizados, os sentimentos humanos estão revoltos, fora de controle. A pessoa perde a capacidade de respeitar e obedecer às normas.


Muitos condutores não respeitam os ciclistas. As pessoas ficam mais intolerantes no trânsito. O que causa essa raiva quando uma pessoa entra no carro?

O motorista se acha o dono da rua. Hoje (ontem) de manhã, por exemplo, pedalei um pouco. As pessoas tiram fino de propósito. Senti isso. E, no caso do ciclista atleta, que merece todo o respeito, ele precisa andar na pista da via principal, porque a velocidade dele é alta, muitas vezes, de 50km/h, 60km/h. E ele tem direito a isso. Então, é preciso muito mais campanhas e punir rigorosamente quem tira fino, quem derruba ciclista. Isso é coisa de consciência mesmo. 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.
 
Fernando
Fernando - 26 de Abril às 13:11
Dirigir embriagado e causar morte. deve ser caracterizado como homicídio doloso, é evidente que a pessoa sóbria e mesmo alcoolizada não tem a intenção de matar ninguém, todavia ao beber assume o risco e portanto tem de ser responsabilizada, o que não pode é beber, matar e pagar cinco mil reais e sair pela porta da frente da cadeia.
 
marcos
marcos - 26 de Abril às 11:36
Concordo com o sr David, porém acrescento que campanhas educativas normalmente tem efeito assim que são lançadas mas depois caem no esquecimento. O ideal, na minha opinião, era que deveríamos fazer que nem nos EUA, onde a prisão é imediata, não tem desculpa ! E acho que depois da prisão, por pelo menos uma semana, o assassino deveria prestar serviços nos Pronto-Socorros dos Hospitais e no IML, para que tenha a devida dimensão do que fez ! Isso sim, faria as pessoas pensarem duas vezes antes de beber e dirigir. Todo dia morre um pai de família, uma mãe, um filho, pessoas humildes na sua maioria por conta destes assassinos ao volante e isso tem que mudar !!!
 
henrique
henrique - 26 de Abril às 11:34
Excelente entrevista. Gostei muito da proposta do pesquisador e temos que priorizar a conscientização sem que com isso a punição não seja esquecida. Julgamento rápido e cadeia para a estudante Mônica Karina, juíza Lorena Alves todas questões estão claras não há que justificar a demora no julgamento. Dois meses é mais que suficiente.