Especialistas cobram conscientização para evitar tragédias no trânsito

Os flagrantes de motoristas pegos dirigindo após consumir álcool no Distrito Federal aumentaram 54%, se comparado ao mesmo período do ano passado

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postado em 07/05/2017 09:29 / atualizado em 07/05/2017 09:37

Fernando Lopes/CB/D.A Press

 
São perdas insuperáveis. A frase do presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Geraldo Guttemberg, dimensiona o sofrimento das famílias de mortos no trânsito. “Não esperamos um fim completamente evitável como em acidentes. O trânsito voltou a ser agressivo e está havendo a banalização da vida. O carro virou uma arma”, critica. O especialista voltou recentemente do Canadá, onde fez uma especialização sobre prevenção de acidentes de trânsito. “Em Brasília, mais de 400 pessoas são flagradas dirigindo após beber no fim de semana, isso é inconcebível”, completa.

Os flagrantes de motoristas pegos dirigindo após consumir álcool no Distrito Federal aumentaram 54%, se comparado ao mesmo período do ano passado. Nos primeiros quatro meses deste ano, o Departamento de Trânsito (Detran) autuou 6.864 condutores alcoolizados. São 2.415 multas a mais que no mesmo período de 2016, quando foram flagrados 4.449. O número deste ano é preliminar, pois ainda existem multas em processamento.

Especialista da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Jorge Risk explica que a intensidade e o tempo de luto dependem da relação com a vítima. “O local, o horário ou o modelo do carro remetem à dor de perder o parente ou amigo. Tem gente que consegue reagir com suporte familiar, outras precisam de medicamento”, pondera.

Por mais de 15 anos, as famílias envolvidas em acidentes de trânsito que chegavam ao Hospital Regional de Sobradinho eram recebidas pela psicóloga Eliana Mendonça Vilar. Nos braços dela, histórias de quem matou ou morreu se repetiram um sem-fim de vezes. Encontrar conforto ou pelo menos atenuar o sofrimento fazia parte da rotina da médica que, a cada colisão, resgata na memória o drama de um antigo paciente. A emergência deu lugar às aulas no Centro Universitário de Brasília (UniCeub), mas a experiência até hoje mexe com Eliana. “Normalmente são situações extremas. O ser humano não está adaptado a lidar com a morte”, explica (leia Depoimento).

Hora de um basta

Os especialistas são unânimes: é preciso um basta. O trânsito faz parte do cotidiano do brasiliense e é necessário que seja um ambiente de paz. Geraldo defende que a educação deve ser iniciada nos primeiros anos da infância. “Parcela dos condutores não têm medo. Quem mata no trânsito fica livre. Precisamos educar os jovens, fortalecer a fiscalização e criar uma cultura de trânsito consciente e responsável”, comenta. “As campanhas estão aquém da necessidade. Temos que nos inspirar em abordagens de outros países. A que estamos fazendo não funciona”, completa.

A mensagem de Eliana é voltada aos jovens: “Não temos uma interlocução com o jovem, as campanhas não os atingem. Não observamos o padrão do consumo de álcool, da falta de responsabilidade e da banalização da vida.” Jorge acredita que a comoção quando há acidentes de grande repercussão causa uma conscientização, mas só isso não basta para impregnar na mente dos motoristas a necessidade de uma direção segura e defensiva. “Tem gente que aprende pelo exemplo, e outras, somente pela dor”, conclui o psiquiatra.

No DF, em duas semanas, 15 atropelamentos mataram cinco pessoas e deixaram a cidade estarrecida. O psicólogo Fábio de Cristo, administrador do Portal de Psicologia do Trânsito, estuda o comportamento dos condutores. “As vidas perdidas no trânsito podem ser salvas. Evitar as perdas é um dever de todos. Pessoas, comunidades e instituições. Impossível diminuir o problema sem esforço legal, educacional e infraestrutura. Não só o DF, como o Brasil todo, devem investir em criar uma cultura de segurança no trânsito”, pondera (veja Três perguntas para).

Trauma

Em algumas circunstâncias, a dor imobiliza. Transforma a saudade em silêncio. Mãe de Luis Filipe, Sayonara Evangelista Almeida prefere se calar. Não tem condições de falar da perda do filho em um acidente na L2 Norte, em 14 de abril último, quando o carro em que ele estava com mais sete pessoas bateu no meio-fio, após uma curva, e capotou na altura da 601 Norte. A avó materna de Luis Filipe conversou com a reportagem por meia hora, em frente à casa dela, no Gama, onde a vítima passava a maior parte do tempo, mas, a pedido da mãe do jovem, preferiu que o depoimento não fosse publicado.

Ao telefone, a voz embargada revela como o assunto ainda é delicado para Táina, hoje com 22 anos, única sobrevivente do acidente que matou seis jovens, em Ceilândia. Ela não quis remexer no trauma. Um amigo das vítimas também preferiu manter o silêncio. Mágoas não superadas desde 21 de janeiro de 2012. Naquele dia, por volta das 4h, o carrou do qual Táina desceu minutos antes capotou diversas vezes na BR-070. Além do motorista, que não tinha habilitação, as passageiras — entre 16 e 19 anos — morreram na hora. Eles foram lançados para fora do carro, a aproximadamente 50 metros do local da tragédia, e caíram num terreno com declive e água acumulada da chuva.

Depoimento
“Não encontramos famílias, mas sim, fragmentos”
“Trabalhei com grupos de famílias que perderam parentes no trânsito no contexto hospitalar. O nosso suporte é para elaborar o luto. O ser humano não está adaptado a lidar com a perda de parentes ou amigos. Quando a morte vem com senso de injustiça ou catástrofe, a dificuldade de aceitação é ainda maior. Não há indicação de iniciar tratamento nesse período, mas de oferecer suporte. É importante a pessoa ter um consentimento para que o luto não se torne crônico. Não encontramos famílias, mas fragmentos. A sociedade fica perplexa. O primeiro momento é de revolta e indignação. Fica um luto coletivo pela impunidade. É como se a vítima tivesse sido assassinada. A mistura de sentimentos intensos, da dor à perda, até a reconstrução da vida é muito delicada. Até as pessoas que conseguem refletir ou perdoar sofrem.”

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João
João - 07 de Maio às 10:21
O excesso de velocidade é um problema no DF. Não há fiscalização. Cadê os famigerados radares móveis que compraram? Um condutor trafega a dentro da velocidade da via, aí vem outro trafegando o dobro dessa velocidade. Essa diferença de velocidade que é IMPACTANTE. Quem estudou FÍSICA sabe disso, o que não parece ser o caso dos nossos especialistas de segurança de trânsito do Poder Público. Estando dirigindo bêbado ou sóbrio, e estando em excesso de velocidade, a ameaça a segurança das pessoas existe. Falta fiscalização da velocidade também. No trajeto entre um pardal e outro, aí que mora o PERIGO!!!