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UnB ganha piano adaptado para que aluna com doença óssea possa estudar

Shirley Nunes, 27 anos, nasceu com acondroplasia, uma displasia óssea que impede o crescimento; ela parou de crescer aos 10 anos, quando media 1,18m, estatura que mantém até hoje

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postado em 19/05/2017 06:00 / atualizado em 18/05/2017 23:01

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Foi na igreja, aos 6 anos, que Shirley Nunes observou, pela primeira vez, o instrumento de teclas brancas e pretas tocado durante os cultos. Filha de um pintor de automóvel e de uma empregada doméstica, ela ganhou um pequeno teclado e começou a tocar intuitivamente. O pai notou a facilidade da menina e a incentivou. O ouvido afinado dispensava a partitura. De ouvido, ela tirava qualquer coisa, sonho de 10 entre 10 pianistas, mas nem sempre uma realidade.
 

Antes da adolescência, a menina passou a ter aulas e aprendeu a ler a pauta musical. O salto para o piano seria natural, não fosse um detalhe: Shirley, hoje com 27 anos, nasceu com acondroplasia, uma displasia óssea que impede o crescimento. Ela parou de crescer aos 10 anos, quando media 1,18m, estatura que mantém até hoje. Alcançar os pedais do piano — instrumento com média de 72cm entre o teclado e o chão — era complicado. Como limitação não é uma ideia que faça parte da vida da pianista, ela procurou Rogério Resende, afinador e restaurador de pianos, para solucionar a questão. O resultado é uma história de amizade e dignidade que passa pela paixão pela música e termina nos dedos habilidosos da moça quando executa a Sonata ao luar (Beethoven) e as Invenções a duas vozes, de Bach.
 
Poder utilizar o pedal do piano era uma questão de evolução dos estudos. Há uma infinidade de composições pré-século 17 para as quais o pedal é um detalhe dispensável. Mas quando se adentra a música clássica, e mais para frente, a romântica, o mecanismo que ajuda a prolongar o som das notas e dá uma imponência notável à execução se torna uma constante. Nesse universo se encaixam Chopin, Liszt, Rachmaninoff, Brahms, Beethoven, Schumman, Schubert e mais uma centena de gênios do piano. “E eu queria muito tocar Chopin, Rachmaninoff”, diz a pianista, que passou no vestibular do Departamento de Música da UnB, em 2016, para realizar uma licenciatura e tocou, na prova específica, justamente Chopin e Beethoven. Enquanto cursa a graduação na UnB, Shirley também trabalha no Centro de Documentação do Correio Braziliense.

A UnB não tem instrumentos adaptados à estatura de Shirley. Ela foi, então, atrás de uma solução. Tímida e muito reservada, soube que Rogério Resende era especialista em reformar, construir e colecionar o instrumento. Resende é um pianista que não lê partitura, mas entende a música e sua execução pelas entranhas. Depois de pesquisar, chegou a duas soluções para a necessidade de Shirley.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
 

Mecanismo

A primeira, e mais rápida, foi adaptar um banco que permite à moça uma posição mais confortável em relação ao teclado. Para os pedais, Resende encontrou um equipamento bastante comum: um adaptador capaz de permitir o alcance do mecanismo via encaixe. À venda em sites especializados, o mecanismo foi pensado para crianças e pessoas de baixa estatura. “Isso é uma adaptação, serve para tocar em qualquer piano. Mas me parece que tocar com dignidade, de fato, deve ser de outra maneira. Por isso fiz outro piano”, avisa Resende.

O teclado de um piano comum tem altura média de 72cm. O afinador retirou 22cm de um instrumento e o rebaixou para que Shirley pudesse tocar sem nenhum tipo de adaptação. “Para mim, as coisas incomuns são naturais. Não é uma dificuldade. A máquina é só uma máquina, ela pode sofrer interferências”, diz Resende. “Essas coisas são a razão da minha vida.” Ainda será preciso encontrar uma sala no Departamento de Música da UnB capaz de receber o instrumento, que será emprestado à universidade.

Mas o resultado já está claro para Shirley: é uma conquista em um mundo no qual a acessibilidade ainda não é uma regra. “A universidade e a sociedade deveriam ser mais preparadas para receber pessoas com acondroplasia. É possível adaptar um instrumento”, diz a moça. “Isso é para as pessoas que têm acondroplasia não sentirem que não têm capacidade de tocar um instrumento. Se você nasceu para a música, independentemente do que for, precisa saber que ela pode te libertar de várias coisas que você passa na vida.”
 
“A universidade e a sociedade deveriam ser mais preparadas para receber pessoas com acondroplasia. É possível adaptar um instrumento”
Shirley Nunes, estudante de  música

“Para mim, as coisas incomuns são naturais. Não é uma dificuldade. A máquina é só uma máquina, ela pode sofrer interferências”
Rogério Resende, afinador e restaurador de pianos
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