Pais de bebê raptado ficarão emocionalmente marcados para sempre

O sequestro do bebê recém-nascido do hospital da Asa Norte vai marcar a história de duas famílias: trauma precisa ser tratado por profissionais

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postado em 11/06/2017 12:07 / atualizado em 11/06/2017 13:23

Bárbara Cabral/Eso. CB/D.A Press
 

Junho de 2017 ficará marcado pelo cruzamento tortuoso da história de duas famílias. No Setor de Chácaras Santa Luzia, área carente da Estrutural, os catadores de lixo Sara Maria da Silva, 19 anos, e Jhony dos Santos, 20, pais de Jhony dos Santos Júnior, que hoje completa 17 dias de vida, tiveram de equilibrar sentimentos antagônicos e enfrentar muitas incertezas no nascimento do primeiro filho. Menos de 5km dali, no Guará 2, a ex-estudante de enfermagem Gesianna de Oliveira Alencar, 25, e o motorista Adriano Borges, 30, também comemoravam a chegada de um filho. No entanto, o bebê que chegou lá, na verdade, havia sido roubado por Gesianna.

 

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As 20 horas que Jhony passou longe dos pais biológicos deixaram toda a cidade atônita. O caso  ultrapassou o noticiário. Virou comentário geral, medo entre vizinhos e pânico entre mães e gestantes. No carro, um menino de 13 anos conta ao pai que debateu o assunto na escola. O amiguinho de classe teme pelo irmão recém-nascido. Reflexos de um choque coletivo. O garoto é filho do vice-presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr), Jorge Salim Rizk. Por duas horas, na noite da última sexta-feira, o especialista em psicoterapia analisou entrevistas, depoimentos e os efeitos do sequestro. “Todos os personagens dessa história vão carregar marcas”, resume.

Jorge explica que o fato vai além da dor das duas famílias. “A sociedade fica temerosa. Mães ficam receosas, gestantes começam a imaginar o que pode acontecer com elas e seus filhos. A população está assustada. É toda uma cidade em choque”, explica. O médico defende o acompanhamento psicológico paras os personagens do drama. “O estresse pós-trauma deve ser monitorado. É possível que haja uma depressão ou uma psicose decorrente do que aconteceu”, ressalta o médico formado pela Universidade de Brasília (UnB).

Esta semana, o caso ganha novos contornos na Justiça. Gesianna, sequestradora de Jhony, está presa na Penitenciária Feminina do DF, a Colmeia. Sua advogada, Leda Rincon, pediu um exame psiquiátrico para ancorar a defesa. “Essa é uma análise essencial para o futuro dela. A avaliação dos médicos determinará se deverá ser submetida à detenção ou a um tratamento clínico. Há gente que tem transtornos mentais, outras só tem a índole criminosa”, pondera. Com 25 anos de carreira, Rizk recebeu o Correio para uma entrevista em seu consultório, na Asa Norte. Confira os principais trechos.

O que pode ter levado a Gesianna a sequestrar o bebê?
O possível aborto em 2015 pode ter ficado marcado. O trauma do aborto pode ter tomado uma dimensão maior do que deveria. Com isso, ela passou a ter um pensamento obsessivo por um filho. Pode ter havido um quadro psicótico. Isso deve ser avaliado por perícia ou junta médica. Ela pode estar doente, mas também pode ter agido de má-fé.

A advogada de Gesianna pediu uma perícia psiquiátrica. O resultado será usado na defesa…

A família dela está surpresa com a atitude. Isso pode dar indícios de que seja algo recente, que não seja uma questão de caráter ou quadro sociopático. A perícia deve ser cautelosa para analisar essa condição. O marido, por exemplo, pode ter notado diferença de comportamento. Mas quando ninguém percebe, aí é questionável se ela estava com algum tipo de planejamento que conseguia dissimular, manipular ou encobrir essa intenção. Isso é o que a avaliação médica deve esclarecer.

É um procedimento que traz resultados confiáveis?

É uma avaliação criteriosa que segue um protocolo. Geralmente, as perícias médicas vão ter vários profissionais da psiquiatria investigando separadamente. Em junta médica, são três profissionais. Ela será submetida a várias consultas com conversas livres, vão ter perguntas direcionadas, questionários e testes. A partir disso é feita a discussão do caso, de onde surge o laudo pericial. O que será avaliado é o juízo (consciência) crítico.


Laudo psiquiátrico é uma estratégia muito usada por advogados para diminuir penas ou livrar clientes de condenações…
Realmente, um quadro psíquico é usado para amenizar situações criminais, penais e justificar condutas. As doenças mentais, quando interessam, são usadas de um jeito. Quando não, são colocadas como insignificantes, sem importância. Alguns advogados querem encobrir uma situação, mas não pode haver esse uso.

Quais são os traumas para a família da sequestradora?
Muita gente se afasta, conclui que é um monstro... A família sofre com estigma, crítica e desprezo. Há um lado que os parentes se preocupam, sentem culpa por não ter evitado ou acreditam que não perceberam um sinal. A desqualificação e a marginalização são muito duras. Existe a autocobrança, a cobrança externa, a crítica e a rejeição. Muitas vezes, as pessoas acabam mudando de cidade pelo porte do trauma.

Quando um crime desse acontece, interfere na cidade? Brasília
viveu essa mesma situação em 1986, com o caso Pedrinho. É um trauma coletivo?

Fica o temor pela situação dos hospitais. Se cria um nível de medo. A população considera o que pode acontecer. É um trauma social. Para se entender, cria-se sentimento coletivo semelhante ao da insegurança das ruas, de sofrer um assalto. Há pessoas que se desesperam. É um receio generalizado. Esse aspecto é maior para pais, mães e gestantes. Há também quem passa a imaginar, ‘ e se eu tiver sido sequestrado?’. É um caso que tira as pessoas do seu equilíbrio.

Esse sentimento deve ser ainda maior para a família do Jhony...
Eles estão vivendo o estresse pós-trauma. Vai-se levar um tempo para ter um relaxamento. Há o medo disso acontecer novamente. Isso se mantém por meses ou até anos. Isso deve ser acompanhado por psiquiatra e psicólogo.

A situação socioeconômica da família interfere na recuperação?

É uma questão superável, até mesmo com tratamento medicamentoso. Nesse contexto, isso realmente acaba reforçando o trauma. Eles podem se afetar de uma maneira que não dê importância ou entrar em um quadro de muito medo, de ansiedade ou de depressão.

O período em que eles vão ficar “superprotetores” é perigoso?
Eles vão sentir que o tempo todo estão correndo risco, que estão em um ambiente inimigo. É esperado que a família fique em vigília constante. Até dormindo, vão estar observando o filho. Vai demorar para eles conquistarem a confiança de deixar a criança com outra pessoa. O pai, quando for trabalhar, vai ficar pensando se está tudo bem, se a esposa está tranquila com o filho sozinha.

Qual a repercussão disso na criança?

Ela pode se tornar uma criança superprotegida, com um nível de ansiedade, de medo, e se tornar insegura. A grande dificuldade é como isso vai se refletir. É importante que se cuide dos pais agora, para que isso não chegue a um nível muito alto.

Sobre o sentimento que os pais de Jhony nutrem pela sequestradora, como raiva ou medo, até onde é natural?

Isso vai se arrastar por um tempo. Existem fases: primeiro é o pânico, o trauma, a surpresa da situação e o desespero. Depois, a ansiedade e a expectativa de como vai se desenrolar o fato. Em seguida, o alívio e o conforto de ter resolvido a situação. A raiva e o medo são os últimos. Se tornam patológicos, quando saem do controle.  Se a família (da sequestradora) demonstra um respaldo de não haver interferência novamente, traz certa tranquilidade.

Nos últimos tempos, crimes brutais chocaram a cidade. A sociedade está mais doente?
Há um aumento de pessoas com transtornos mentais. O crescimento é até maior que o da população. Isso está acontecendo no país inteiro. Esses acontecimentos podem ser consequência de um transtorno anterior e que tomou uma proporção maior.

As crises política, econômica, da saúde e da segurança deixam a população mais desequilibrada?
Os valores estão se perdendo. O que é ético, moral e certo está diminuindo. As pessoas estão dando menos importância a isso e minimizando as situações. Repercute muito na saúde mental e vai se passando pelas gerações. Se falando de vida, as coisas estão tomando um distanciamento muito grande da compaixão, da empatia e da identificação emocional. As pessoas estão ficando mais frias para não se deixarem afetar.

Sem levar em consideração a experiência médica, qual o sentimento  que o senhor tem pelos personagens do caso Johny?
Dói muito. Os valores humanos estão se perdendo e as pessoas, sofrendo mais. Emocionalmente, todos eles têm danos e desgastes por causa disso. Vai virar um fato na história dessas famílias.


"Eles estão vivendo o estresse pós-trauma. Vai-se levar um
tempo para ter um relaxamento. Há o medo disso acontecer novamente”

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Jair
Jair - 11 de Junho às 19:00
Chega desse assunto. Busque outros. Tá chato demais.