Ao menos 800 pacientes aguardam radioterapia na rede pública do DF

Dos quatro aparelhos existentes, três estão inoperantes. Apenas o Hospital Universitário de Brasília conta com um equipamento que funciona

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Em uma tarde de sexta-feira, a sala de espera da ala de radioterapia do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) não contava com mais do que três pessoas. Antes, o espaço era sempre lotado de pacientes. Mas, infelizmente, a sala vazia não indica que todos tiveram acesso à terapia necessária e que não há fila de espera. A sala está às moscas porque os aparelhos destinados ao tratamento radioterapêutico não funcionam há cerca de dois meses. Os consertos até ocorrem, porém, um dos equipamentos utilizados tem mais de 30 anos.

Dos quatro aparelhos disponíveis na rede pública — dois no HBDF e dois no Hospital Universitário de Brasília (HUB) —, apenas um, que fica neste último centro de saúde, funciona. Diante de quebras recorrentes, a troca de peças dos aparelhos, às vezes, envolve procedimentos demorados, ou burocracia exagerada. A licitação pode levar meses. Enquanto isso, mais de 800 pessoas aguardam na fila, com a esperança de iniciar o tratamento o quanto antes.

Maria Rodrigues, 63 anos, é uma dessas pacientes. Ao descobrir um câncer de mama, em maio de 2015, a paciente já imaginava os desafios que estavam por vir. Sem hospitais para tratamento da doença no Recanto das Emas, cidade onde mora, Maria foi diagnosticada e encaminhada ao HBDF para fazer quimioterapia. “Quando descobri que estava com câncer, primeiro me encaminharam ao Hospital Regional do Gama, onde eu faria a cirurgia de retirada da mama. Lá, eles me orientaram a fazer a quimioterapia no Hospital de Base, porque eu precisava reduzir o tumor para operar”, explica Maria. Após três meses de tratamento, o tumor havia diminuído o suficiente para ser retirado e a dona de casa foi submetida à cirurgia em setembro do mesmo ano.

Mesmo assim, a luta não terminou por aí. Ainda eram necessárias sessões de radioterapia para reduzir as chances de reaparecimento da doença na área operada. “Era preciso deixar o nome em uma lista. Só que também tive de recorrer à Justiça, porque meu caso era grave e eu tinha de fazer o tratamento o mais rápido possível”, relata a paciente. Maria conta que esperou seis meses até conseguir a primeira sessão. “Assim que comecei o tratamento no Hospital de Base, o aparelho quebrou, então fiquei mais um mês sem fazer o procedimento”, conta. Apesar disso, ela se diz grata por ter conseguido concluir o tratamento em maio deste ano. “Teve gente que só começou a fazer depois de um ano da cirurgia. Acho que eles só me chamaram porque minha filha entrou na Justiça, caso contrário, eu teria ficado na lista de espera. Talvez estivesse esperando até hoje.”

Espera

A situação de Maria não é isolada. Segundo a Secretaria de Saúde do DF, atualmente há ao menos 816 pessoas na fila, aguardando o tratamento radioterapêutico. O problema se agrava a cada dia, pois as duas máquinas do Hospital de Base — o acelerador linear e o cobalto-60 — são antigas, estão quebradas e não têm previsão para manutenção. “O nosso aparelho de cobalto é da década de 1980, sendo o mais novo. Como não podemos colocar outro equipamento no lugar por conta dos custos, precisamos consertá-lo e tê-lo em operação o mais rápido possível”, declara a coordenadora de Atenção Especializada à Saúde da secretaria, Viviane Rezende.

No caso do HUB, além do acelerador linear, o hospital conta com um aparelho de braquiterapia. Contudo, o equipamento está em manutenção, com término previsto para o próximo mês. Desde o ano passado, a oncologia do HUB passa por reformas para receber um segundo acelerador linear. Viviane Rezende justifica que a essa situação é “consequência da falta de investimentos no setor em gestões anteriores”.


Para saber mais

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa para 2017 é de 8.550 novos casos de câncer no Distrito Federal, sendo 3.940 em homens e de 4.610, em mulheres. O câncer de mama é o mais comum (1.020 casos), seguido pelo de próstata (840), cólon e reto (570). O último levantamento de óbitos no DF decorrentes de câncer, feito em 2014, aponta 2.301 mortes. De acordo com a Sociedade Brasileira de Radioterapia, existem três clínicas de radioterapia privadas em Brasília: Instituto de Radioterapia de Taguatinga, Hospital Santa Lúcia e Hospital Sírio-Libanês. Os valores do tratamento variam entre as instituições.


Duas perguntas para Eronides Batalha, radio-oncologista e especialista em radioterapia

 Luis Nova/Esp. CB/D.A Press


Quanto tempo um paciente pode esperar para começar o tratamento da radioterapia?
O tempo que a pessoa pode aguardar para começar o tratamento depende da finalidade da radioterapia, porque ela pode ser feita de forma paliativa ou curativa. Em alguns casos, com certeza, a radioterapia pode perder seu papel e sua indicação. Nos casos curativos, o tratamento de um paciente que deveria ser irradiado e esperou muito pode perder a eficácia para aquilo a que foi destinado. Também há pacientes que, se não forem tratados imediatamente, podem morrer. Já outros podem esperar três meses e tudo bem. No caso de um tumor radical, que deva ser tratado pela rádio, um mês de espera faz bastante diferença.

Quais são as consequências de se postergar a terapia?
As consequências são as mais variadas, e vão desde perder a indicação do tratamento até a perda da chance de controlar a doença. Alguém pode morrer, sim. Mas não posso usar essa palavra forte para generalizar. O que podemos afirmar é que, quanto mais se demora, menor é a chance de se controlar a doença. É muito pior interromper o tratamento do que demorar para começar. Quando você começa e a máquina quebra, por exemplo, você pode estar piorando o prognóstico do paciente, porque o tumor pode se agravar. E existe ainda o fenômeno da repopulação acelerada, que ocorre quando você começa a tratar o tumor e ele tenta compensar a morte das células, proliferando-se mais rápido. Ele se torna mais agressivo.



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