Pesquisa que revelou descrença do eleitor do DF não surpreende políticos

Candidatos no próximo pleito concordam com resultado de pesquisa feita com exclusividade para o Correio; para especialistas, será difícil reverter o quadro

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Valter Campanato/Agência Brasil


A descrença do brasiliense com o cenário eleitoral não surpreende a classe política. Nem mesmo o índice de 91% de entrevistados que ainda não sabem responder em quem votariam na disputa pelo Governo do Distrito Federal causou estranheza a políticos da capital federal. O resultado faz parte de levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, elaborado com exclusividade para o Correio Braziliense e divulgada no domingo. Além disso, os moradores de Brasília rejeitam a maioria dos nomes que se articulam para disputar cargos no Palácio do Buriti, no Congresso Nacional e no Executivo federal.

 

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O senador Cristovam Buarque (PPS) recebeu o resultado da pesquisa sem surpresas ou desconfianças. Ao contrário, o parlamentar disse que é natural essa resposta da população, porque a classe política não está acompanhando a evolução da sociedade. Segundo ele, o povo tem razão na sua percepção de corrupção e de falta de novas bandeiras da classe política.“Ficamos para trás. O mundo avança mais rápido do que as nossas ideias e os nossos projetos. Os grupos organizados, como os sindicatos, também trazem coisas que não são compatíveis com o mundo em ebulição”, analisou.

Cristovam, que teve o índice de rejeição mais baixo entre todos os políticos do DF, com 60,7%, não ficou envaidecido com o resultado favorável. “Não me iludo. Percebo a rejeição alta da classe política, mas sinto até uma certa gratificação por não estar entre os mais rejeitados”, afirmou.

Para o deputado federal Alberto Fraga (DEM), é natural que a população tenha uma percepção negativa da classe política por causa dos seguidos escândalos de corrupção no Brasil. Mas, segundo ele, isso não pode contaminar o desejo do eleitor de escolher seus representantes. “Política é indispensável no dia a dia dos cidadãos”, defendeu. Segundo a pesquisa, 66,5% dos entrevistados não votariam em Fraga.

O deputado federal Laerte Bessa (PR) acredita que o resultado da pesquisa publicada pelo Correio é reflexo do descontentamento do povo com a atual situação de corrupção no Brasil. “A população acompanha o que está acontecendo na política, está mais bem informada e também enojada com a promiscuidade que é a política brasileira”, disse.

A assessoria de Comunicação do GDF informou que o Executivo local não comenta resultados de pesquisa eleitoral. De acordo com o levantamento, entre os entrevistados, 67% consideram a gestão de Rodrigo Rollemberg ruim (18%) ou péssima (49%); e 31% classificam o governo como ótimo (2%), bom (7%) ou regular (22%).

 

 

Desafio

Especialistas ouvidos pelo Correio acreditam que os dados apresentados ontem traduzem em números o que sente o brasiliense. O cientista político Antônio Testa, professor da Universidade de Brasília (UnB), avaliou que a alta rejeição surge de um desgaste dos “velhos caciques do DF”. “Diversos escândalos políticos, como a Caixa de Pandora, o Petrolão e o Mensalão, tiveram envolvimento de antigos políticos brasilienses, e a impunidade em cima deles cria uma descrença na população”, explicou.

Sobre os novos nomes, Testa acredita que nenhum seduziu o eleitor. “Não são pessoas que estão na boca do povo, até mesmo os que aparecem no Legislativo ou em outros cargos públicos são mais conhecidos por quem acompanha o cenário político. Acredito que, para eles, o próximo ano será vital para se apresentarem e mudarem esse pensamento da população de que opção é não votar em ninguém”, afirmou.

O cientista político e professor da UnB João Paulo Peixoto tem opinião semelhante, apostando na retrospectiva da política brasiliense para explicar o desânimo da população. “Viemos de um histórico com governadores e senadores presos, membros do Legislativo afastados pela Justiça e diversos outros escândalos políticos a nível nacional que têm influência no quadro local. A baixa eficiência e a pouca moralidade cria uma apatia da sociedade”, garantiu. Peixoto crê, também, que o brasiliense ainda não conhece novos nomes por “falta de interesse na política”, principalmente devido à descrença.

Sobre Rollemberg, Peixoto relata que a falta de ações que impactem na população fez o nome do governante se desgastar. “As pessoas se perguntam o que mudou. As ruas continuam esburacadas, os hospitais seguem ruins, e ele ainda deu o azar de pegar uma época de racionamento. Houve avanços, principalmente, no campo intragovernamental, mas não há nada que traga benefício para a sociedade e que ela possa ver se aquilo melhorou a condição de vida”, argumentou.

O professor de ciência política da UnB André Borges se baseia em dois fatores para explicar os dados da pesquisa: a descrença geral na política e a impopularidade de Rollemberg. “O governador é sempre o candidato natural ao cargo, mas, no caso do DF, não é assim. Rollemberg assumiu um governo em crise e não conseguiu reverter essa situação em três anos no poder”. Para Borges, o quadro atual será um desafio a mais para os próximos candidatos ao Buriti. “Até o momento, nenhum nome vem empolgando o eleitorado. Então, os futuros candidatos terão um ano para tentar reverter essa situação e o cansaço da população em relação à política”, concluiu.


Pesquisa

Os pesquisadores ouviram mil pessoas em 23 regiões administrativas. A margem de erro é de três pontos percentuais, em um intervalo de confiança de 95%. As entrevistas foram realizadas entre 1º e 5 de julho.

 

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