Ações sociais oferecem livros em paradas, geladeira e até em uma Kombi

Ter o hábito de ler pode ser mais fácil do que se imagina

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postado em 15/07/2017 08:00 / atualizado em 15/07/2017 13:47

 
Em geladeiras, Kombi, posto policial abandonado, paradas de ônibus e até dentro do transporte público: livros estão disponíveis onde menos se espera. O Distrito Federal é repleto de lugares inusitados que visam promover aprofundamento no mundo da leitura.

Os brasilienses conheceram, há dois anos, a história de Antônio da Conceição Ferreira, cobrador de ônibus maranhense que descobriu nos livros uma oportunidade de entreter diariamente passageiros dentro do transporte público em Brasília. O caixa do coletivo virou estante para clássicos como os de Clarice Lispector e Castro Alves, que passaram a ser cedidos por até três dias.

O projeto ganhou o reconhecimento da Viação Piracicabana, e o rodoviário foi liberado da função para expandir a iniciativa para mais coletivos. Hoje, além dos mais de 100 ônibus que circulam pelas ruas da capital com pelo menos 15 títulos diferentes, Antônio do Livro (como ficou conhecido o rapaz) tem um espaço na Rodoviária de Brasília, repleto de obras disponíveis para empréstimo — mais de 2 mil livros, incluindo crônicas, contos e romances. Basta o interessado fazer um cadastro para levar o livro para casa.

No último mês, um posto policial abandonado no Riacho Fundo 2 foi transformado em uma biblioteca pública, com capacidade para atender até 15 pessoas ao mesmo tempo. O espaço, que havia sido até incendiado e estava servindo como ponto para usuários de droga, foi revitalizado, pintado com desenhos coloridos e abastecido de livros. A biblioteca funciona em frente à Administração Regional do Riacho Fundo II (QN 7A, Conjunto 6, Lote 1/2), de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Conheça outros espaços “diferentes” do DF nos quais se pode mergulhar no universo literário.

O conhecimento na geladeira

Onde descartar aquela geladeira velha e quebrada que não tem mais uso? E como estimular a comunidade a ler e pesquisar sobre o mundo? Foi tentando encontrar soluções para essas duas questões que o produtor cultural e videoartista Lucas Rafael, 32 anos, teve a ideia de criar o projeto Refresque Ideias — Geladeira do Livro.

No meio de uma praça na QE 17 do Guará 2, uma geladeira colorida chama a atenção de quem passa. Ao abrir a porta, ela está repleta de livros à disposição dos pedestres, que podem levá-los para casa, assim como completar o eletrodoméstico com outros títulos que estejam parados em casa. “O objetivo é fazer com que os livros circulem, não queremos que fiquem empoeirados em uma estante”, explica Lucas Rafael.

A geladeiras espalhadas pelo DF funcionam como bibliotecas públicas, nas quais se pode pegar livros emprestados e deixar outros. “Se a pessoa quiser ficar com o livro para ela, também pode. Por exemplo, A erva do diabo, do Carlos Castañeda, é o livro da minha vida, não posso ficar sem ele”, afirma o idealizador. “Mas a maioria das pessoas leem e devolvem, porque senão o livro fica estagnado depois”, completa.

Outra motivação para o Refresque Ideias é o deficit de bibliotecas no Distrito Federal, afirma o criador. “O Setor O, na Ceilândia, por exemplo, não tem nenhuma biblioteca, a geladeira foi a primeira. Nossa intenção é levar informação e cultura a comunidades que têm pouco acesso. É uma maneira de transformar a comunidade”, explica.

Dentro dos eletrodomésticos, os títulos são variados, desde clássicos da literatura, até livros didáticos. Há obras que fazem parte de edições raras e limitadas, muitas de capa dura. “Uma vez, enquanto organizava uma das geladeiras, encontrei uma edição especial de As veias abertas da América Latina, do Eduardo Galeano. Esse é um dos meus livros preferidos, tive que levar pra mim”, conta Luciana Ribeiro, 33 anos, uma das integrantes do projeto.

A primeira geladeira foi instalada em 2013, na QE 32 do Guará 2.  Os eletrodomésticos são pintados e grafitados por artistas brasilienses.

Morador do Guará há 40 anos, o profissional de logística Alexandre Sobrinho, 47, vai sempre à geladeira da praça da QE 17 em busca de bons livros de história. “Amo ler sobre guerras, principalmente sobre as que ocorreram no Brasil”, pontua. 

Onde estão as geladeiras do livro?

Guará I
QE20

Guará II
QE32 

Praça da QE17, em frente ao SuperMaia

Planaltina
Praça Módulo 8, Mestre D’Armas

Ceilândia
EQNO 17/16, praça central (campo sintético), acima do posto policial

Samambaia
Praça do BRB, Quadra 206/406, Samambaia Norte

Paranoá
Praça central ao lado da Administração do Paranoá Quadra 28

São Sebastião
Parque Ambiental do Bosque, Praça CAIC, Quadra 05, Área Especial, próximo à Administração de São Sebastião

Areal
Unidade de Acolhimento para Adultos e Famílias (Unaf), Lote 1/7 Bairro de, Qs 11 Conjunto N V, 9 – Águas Claras



Um negócio cultural e charmoso

Uma livraria ambulante que, além de livros e quadrinhos, leva discos de vinil, cafés, cupcakes e pães de queijo recheados feitos em chapa de waffle aos clientes. Essa é a proposta do Book Truck Café, idealizado há três meses por um pernambucano, criado no Ceará e radicado em Brasília há cinco anos. “Eu sempre sonhei em abrir uma livraria, mas era muito caro. Então tive a ideia de trocar o carro que eu tinha por uma Kombi e transformá-la no negócio que tanto sonhei”, conta Pedro Mendes, 33 anos.

Casado há um ano com a professora de inglês Monna Povala, 30 anos, eles cuidam juntos da Kombi. “Esse negócio foi uma surpresa. Em março, do nada, o Pedro me mandou uma mensagem: ‘Comprei uma Kombi’. Achei uma loucura, mas mergulhei de cabeça na ideia e a colocamos em prática em abril”, relata Monna. O casal investiu todas as economias para reformar o veículo e deixá-lo pronto para rodar repleto de livros e cafés.

Os primeiros títulos colocados à venda eram da coleção pessoal do pernambucano. “Fiquei impressionada, porque foi um processo de desapego para o Pedro. Antes, ele lia um livro no computador e, depois de ler, comprava a obra só para tê-la na estante. Quando colocou os próprios livros à venda, precisou desapegar”, lembra a professora. “Às vezes, eu ainda tenho umas recaídas e fico me lembrando das obras que tinha e não tenho mais”, diverte-se o dono da Kombi.

Pedro ganha a vida dando aulas de matemática e, no tempo livre, circula com a Kombi-livraria. Ele almeja viver apenas do negócio, mas ainda não é possível. “O Book Truck Café está fazendo sucesso e nos trazendo boas surpresas, mas ainda estamos pagando o que investimos”, diz. Ele conta que diversas pessoas começaram a procurá-lo para entregar obras usadas. “Sabe quem nos dá muitos títulos? Casais que se separam e querem esvaziar a casa. Já recebi várias malas de pessoas que haviam se separado e queriam se desfazer dos livros”, revela.

O professor de matemática é formado em economia e iniciou outros cinco cursos de graduação: direito, filosofia, administração, engenharia civil e matemática. No entanto, a maior paixão sempre foi ler.

O casal gosta de levar a Kombi de livros a eventos que envolvam música e cultura. “Damos preferência a eventos que tenham uma pegada mais cultural, tem mais a ver com a gente”, ressalta Monna, formada em letras. Por ser confeiteira nas horas vagas, Monna começou a fazer cupcakes para vender no Book Truck Café. Os bolinhos são decorados na hora, quando o cliente faz o pedido. Inspirada por uma tia, ela também teve a ideia de colocar a massa de pão de queijo na chapa de waffle para vender salgados. “Estamos sempre buscando vídeos e tutoriais na internet para incrementar o negócio”, pontua.

Onde encontrar o Book Truck Café?

Terça-feira
Estacionamento em frente ao Condomínio Park Sul, próximo ao ParkShopping

Quinta-feira
Buraco do Jazz, na Funarte

Sexta-feira
706 Norte, estacionamento do canteiro central, em frente à Igreja Metodista

Sábado e domingo
Eventos variados

Horário: a partir das 17h


Antonio Cunha?/CB/D.A Press


O mundo cabe em uma parada de ônibus

No último mês, o projeto de bibliotecas populares promovido pelo Açougue T-Bone completou 10 anos. Todas as 37 paradas de ônibus da W3 Norte possuem uma estante repleta de livros que podem ser pegos por quem passa. Além da W3, também há estações culturais no Setor Bancário Sul, no CCBB e na frente do açougue (312 Norte).

“Na nossa avaliação, o projeto é um sucesso. Recebemos muitos depoimentos de pessoas que começaram a ler graças aos livros disponibilizados nas paradas de ônibus, ou que passaram em vestibulares e concursos”, relata o idealizador, dono do açougue, Luiz Amorim, 52 anos. De acordo com o empresário, 200 mil livros por ano circulam nas bibliotecas populares.

 “Nós somos pioneiros nesse formato de ter livros expostos 24 horas por dia sem nenhum tipo de controle. Depois que implementamos o projeto em Brasília, muitas cidades do país copiaram”, completa Amorim.

De origem humilde, Amorim só foi alfabetizado aos 16 anos. Leu o primeiro livro aos 18 e se encantou. “Eu me beneficiei tanto com os livros, que decidi levar para os outros também. Apaixonei-me por filosofia e literatura, e senti a necessidade de ocupar o espaço público com o bem comum. Levar arte para a população, provocar questionamentos dentro da cidade, democratizar o espaço público”, conta.

O estudante de enfermagem Leonardo Augusto Gonçalves, 19 anos, é um dos usuários das bibliotecas nas paradas de ônibus. “Gosto bastante de livros de economia, que sempre encontro aqui. Também pego muitos livros de preparação para concursos da Secretaria de Saúde”, aponta.
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