Poluição no córrego de Riacho Fundo está contaminando tartarugas do Cerrado

Poucos animais sobrevivem no cenário de desolação que se tornou o córrego Riacho Fundo, o que preocupa moradores e ativistas, como o grupo Tartarugas do Cerrado

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postado em 16/07/2017 08:00

Ed Alves/CB/D.A. Press

Sacos de lixo, pedaços de plástico, colunas de concreto e até uma cadeira fazem parte do cenário que compõe o Córrego Riacho Fundo. Isso sem contar o esgoto jogado no manancial, um dos mais importantes afluentes do Lago Paranoá e o mais poluído. Poucos animais sobrevivem no cenário de desolação que se tornou a corredeira, o que preocupa moradores e ativistas, como o grupo Tartarugas do Cerrado, que tomou para si a responsabilidade de combater a poluição na região.

 

Como símbolo do movimento e como protegido, eles adotaram o cágado de barbicha, um dos poucos espécimes capazes de sobreviver em ambientes tão sujos e que está migrando da localidade, segundo o comerciante e militante ambientalista Estephânio Vieira, 34 anos, um dos líderes do grupo. O animal ainda não está ameaçado de extinção.

 

O Tartarugas do Cerrado existe na região desde 2014 e é mantido com os recursos dos próprios voluntários, cerca de 16, que fazem saídas pela região de 15 em 15 dias para limpar o manancial e acompanhar pequenos grupos de cágados da região. “Já detectamos até animais doentes. Bactérias que não são comuns à região estão atacando alguns desses cágados, que aparecem com doenças de pele, por exemplo. Antigamente, esse córrego abrigava uma fauna muito maior. Tinha, inclusive, camarões de água-doce”, afirma Estephânio.

 

Ele conta que se interessou pelo córrego após praticar, com amigos, uma série de atividades ecológicas pelo Distrito Federal. “De repente, vimos que não dava para abraçar tudo. O Cerrado é um bioma rico, importante e muito grande. Decidimos agir de modo mais pragmático, e nos voltamos para o córrego”, afirma.

 

Um dos maiores problemas do córrego é o avanço urbano sobre o local, que acontece de forma desordenada e ilegal. Tanto residências da Vila Cauhy ,quanto da Colônia Agrícola Sucupira deságuam esgotos na região. A reportagem do Correio esteve em um ponto próximo a uma estação de tratamento de esgoto da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e se deparou com esgoto sendo despejado de uma galeria de captação de águas pluviais.

 

“Isso é ligação clandestina. A pessoa liga o esgoto à rede porque vive em uma área irregular. Com o avanço desenfreado dessas habitações, a fauna não está conseguindo se adaptar e está ficando doente. Mesmo os cágados de barbicha comem plástico e podem morrer. Alguns encontram barreiras intransponíveis para eles, saem da água e correm o risco de ser atropelados”, lamenta.

 

Na sede do grupo, na QN 5, uma loja que os ativistas dividem com duas associações, uma delas de reciclagem de materiais eletrônicos, eles guardam um exemplar de cágado de barbicha morto atropelado e cuidam de outro espécime vivo, encontrado há 16 dias e entregue aos ambientalistas há 14.

 

“Uma veterinária examinou o animal voluntariamente, e vai voltar a vê-lo. Enquanto isso, estamos estudando um local para devolvê-lo à natureza do modo seguro, garantindo sua sobrevivência”, explica Estephânio. “Com a degradação do meio ambiente, perdemos animais que sequer chegaremos a conhecer. Por isso trabalhamos a educação ambiental. Procuramos escolas de ensino médio para falar de limpeza e conscientização, chamamos a população para fazer coleta e procuramos parcerias”, acrescenta.

 

Na incursão feita no córrego, a equipe do Correio encontrou, ainda, pedaços rasgados de sacola, calçados e copos plásticos em diversos pontos. O taxista Reinaldo Soares, 39 anos, caminha diariamente próximo ao rio e concorda com Estephânio sobre a necessidade urgente de despoluir o córrego para restaurar o ecossistema local. Segundo ele, os períodos mais críticos do dia para o riacho acontecem de manhã e à noite. “É a hora em que as pessoas estão em casa e também que o esgoto vem com mais força. Em alguns pontos, o cheiro fica insuportável e vai longe. À medida que o córrego avança, algumas nascentes amenizam o estrago diluindo parte da poluição, mas deixou de ser um lugar frequentado pela população. Antes, era possível até pescar nessas águas”, conta.

 

Professor do departamento de engenharia civil e ambiental da Universidade de Brasília (UnB), Sérgio Koide destaca as consequências da poluição do afluente para o Lago Paranoá. O braço sul do espelho d’água, que recebe as águas do Córrego Riacho Fundo, é justamente o mais sujo. “É a pior qualidade de água. Para mudar essa situação, é preciso coibir a proliferação de ocupações desordenadas e irregulares e regularizar o que puder ser regularizado. Só assim a Caesb conseguirá atender a essa parcela da população com esgotamento sanitário. Quem vive nessas invasões, por sua vez, precisa construir fossas sépticas adequadas para não despejar água suja na nossa bacia hidrográfica. Se continuar assim, cada vez mais teremos poluição jogada no lago, que, a partir de setembro, já começa a alimentar o sistema hídrico da capital”, destaca (leia Palavra de especialista).

 

Já o professor do departamento de engenharia florestal, Reuber Albuquerque Brandão, alerta que qualquer alteração em corpos hídricos é prejudicial ao ecossistema do local. Ele destaca que o que havia de raro no Córrego Riacho Fundo “já foi perdido”. “O que continua ali (no riacho) é o que consegue conviver com o ser humano, pois o local está extremamente poluído. As espécies adaptadas a ambientes aquáticos e que são mais sensíveis desaparecem assim que o local sofre as primeiras alterações. Drenagens, formações de barragem, mudanças climáticas e ocupação do território estão entre os principais inimigos. O barbicha só está lá porque consegue sobreviver à ação humana”, exemplifica.

Fiscalização e denúncia

 

Técnicos da Agência Reguladora de Água, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa) coletam água do Córrego Riacho Fundo trimestralmente para verificar se os afluentes têm qualidade de água para suas funções na capital. Segundo o coordenador de informações hidrológicas Welber Ferreira Alves, cada manancial obedece a uma função e pode ser melhorado de acordo com a demanda da sociedade. No riacho em questão, o recurso hídrico só pode ser usado para consumo humano após um tratamento convencional. “Nosso papel é verificar se o rio está adequado à classe enquadrada. Se há anormalidade, destacamos uma fiscalização pontual para descobrir o que está acontecendo. Qualquer tipo de empreendimento que lance material ou interfira na qualidade da água pode prejudicar a vida aquática e precisa de outorga da Adasa. A população pode e deve denunciar atividades irregulares”, esclarece.

 

Por meio de nota, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) informou que realiza ações na região desde 2014. “São cerca de três grandes operações por ano, fiscalizando toda a área de proteção ambiental, da nascente à foz. Somente este ano, foram realizadas duas ações de fiscalização dos corpos hídricos nas quais foram detectados pontos de poluição no Córrego Riacho Fundo.” O texto pede, ainda, que a população procure o Ibram para denunciar abusos.

Quelônios nativos

 

De nome científico Phrynops geoffroanus, o cágado barbicha, também conhecido como tartaruga do cerrado, é natural do Centro-Oeste brasileiro e se adequa bem a ambientes aquáticos que sofreram a ação humana. Tanto que também estão presentes nos lagos do Zoológico de Brasília e em vários outros mananciais da região. Isso não ocorre, no entanto, com o cágado preto, ou Acanthochulys spixi, e o Frilopis Vanderhaegei, conhecido como cágado Vanderhaegei. Os espécimes são raros e correm risco de extinção. O primeiro pode ser encontrado em algumas lagoas do Parque Nacional e o segundo, em córregos que não sofreram ação humana.

Palavra de especialista

 

“O Córrego Riacho Fundo sofreu um impacto muito grande com crescimento urbano desordenado e irregular.  É impactado tanto pela Vicente Pires, quanto pela Vila Cauhy, por exemplo. Isso faz com que haja uma carga de esgoto chegando constantemente no riacho. Estamos falando de um dos principais tributários do Lago Paranoá e, graças a esse despejo, o mais poluído. É por isso que o braço do Lago Sul alimentado pelo afluente é o que tem a pior qualidade de água. É preciso coibir ocupações irregulares.

Enquanto não fizerem isso, a Caesb não terá como captar esgoto de certas regiões. Se continuar assim, com o passar do tempo, teremos cada vez mais  poluição jogada no lago. É importante lembrar que o Paranoá começa este ano a ser utilizado para abastecer parte do DF e, a partir de 2019, vai haver uma retirada maior. Por isso, é muito importante direcionar esforços. Nesse sentido, acredito que a utilização do lago para esse fim deve deixar toda a população mais atenta. Será preciso que todos trabalhem para a manutenção da qualidade da água.”

Sérgio Koide é doutor em recursos hídricos e professor do departamento de engenharia civil e ambiental da Universidade de Brasília

 

Telefones úteis

Para fazer denúncias ao Ibram, basta ligar para a ouvidoria no número: 3214-5655

Para denunciar abusos e irregularidades à Adasa, o número é: 3961-4900

Interessado em procurar o grupo Tartarugas do Cerrado, basta ligar no: 99330-9658

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Messias
Messias - 16 de Julho às 13:10
Se começarmos a analisar o córrego Riacho Fundo desde a sua nascente, certamente que chegaremos aos primeiros sinais de poluições que veem irresponsáveis cometendo contra a natureza. E porque não fazermos isso, se temos um contingente de pessoas regiamente pagas para zelar do meio ambiente? Essa é uma tarefa difícil de se realizar? Ora Brasília, sinônimo de Brasil!