Família do motorista morto em DP é intimada para depor na Corregedoria

Cunhado, irmã e sobrinha de Luís Cláudio Rodrigues, encontrado sem vida na 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho), em 14 de julho, são ouvidos pela Polícia Civil

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postado em 03/08/2017 17:47 / atualizado em 07/08/2017 10:11

Carina Ávila/Esp. C.B./D.A. Press
A Corregedoria-Geral da Polícia Civil continua a ouvir testemunhas do caso do motorista terceirizado da Caixa Econômica Federal encontrado morto na 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho), Luís Cláudio Rodrigues. Na tarde desta quinta-feira (3/8), a irmã da vítima, Marta Rodrigues, o cunhado, Marcos Eustáquio, e a sobrinha, Anna Beatris Rodrigues, foram ouvidos. 

 
“A Polícia Civil demorou a nos chamar para depor. Deveríamos haver sido os primeiros, pois estávamos na delegacia quando tudo aconteceu, vivemos tudo de perto”, protesta o autônomo Marcos Eustáquio, 48 anos. A irmã de Luís Claúdio, Marta, 53, estudante de direito, ressalta que a família não descansará enquanto não obtiver respostas das autoridades responsáveis pela investigação do caso. “Um dos nossos vizinhos tem câmeras de segurança em casa e nos disse que elas gravaram o momento em que o sargento espancou meu irmão. Mas todas as imagens estão em poder da Polícia Civil. Esperamos que a filmagem ajude a provar que meu irmão foi injustiçado, ele não se matou”, frisa.

Segundo Paulo César Feitoza, advogado da família do motorista, vizinhos de rua que presenciaram a colisão entre o carro da presidência da Caixa conduzido por Luís Cláudio e o veículo particular de um sargento da Rotam foram intimados para depor na semana passada. Pessoas que estavam na delegacia na tarde em que Luís Cláudio foi detido, em 14 de julho, também prestaram depoimento. “O inquérito anda a pleno vapor”, afirma.
 
Em nota, a Polícia Civil do Distrito Federal informou que apenas se manifestará a respeito do caso após a conclusão do inquérito policial. 

Primeira a chegar


A sobrinha da vítima, Anna Beatris Rodrigues, 29 anos, foi a primeira a chegar à 13ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho, após a detenção do tio, Luís Cláudio Rodrigues. A brigadista terceirizada da Caixa Econômica Federal contou ao Correio como foram as três horas de espera no local até o momento em que soube da morte de “Caio”, como Luís Cláudio é carinhosamente chamado pela família desde pequeno.

Anna Beatris chegou à delegacia por volta das 15h30, logo depois que a família foi avisada do incidente em que o motorista da presidência da Caixa havia se envolvido — foi detido após conduzir embriagado e bater no carro particular de um PM na rua em que morava. Luís Cláudio vivia com duas irmãs, Marta e Juliana Rodrigues, a sobrinha Anna Beatris e o cunhado Marcos Eustáquio, casado com Marta. “Eu não entendi por que o levaram para a 13ª DP, em Sobradinho, se moramos em Sobradinho 2 e há uma delegacia mais perto, a 35ª DP”, pontua.

Cerca de 30 minutos depois da chegada de Ana Beatriz, o cunhado de Luís Cláudio, Marcos Eustáquio, chegou à delegacia. Segundo a sobrinha, por mais que pedisse para ver o tio, os funcionários da delegacia informavam que não era possível. “Depois que insisti muito, disseram que eu apenas poderia vê-lo com a presença de um advogado. O advogado chegou e, mesmo assim, não nos deixaram vê-lo. Disseram que só depois que pagássemos a fiança”, relata. 

Durante o tempo de espera, a brigadista relembra que conversou com o sargento da Rotam envolvido no acidente com Luís Cláudio e com os policiais que atenderam a ocorrência. “Todos estavam bem tranquilos. Principalmente o sargento dono do carro no qual ele bateu. Disseram que meu tio era muito gente boa, que ele não tinha reagido e, inclusive, havia convidado todos eles para o almoço de aniversário no dia seguinte”, destaca. 

Marcos Eustáquio e Anna Beatris lembram ainda que, por volta das 17h, os funcionários da delegacia disseram que Luís Cláudio estava em um sono pesado e roncava alto. “Eles falavam: ‘Tá ouvindo esse ronco? Ele está tão bêbado que caiu no sono. É a cachaça’, e ficavam rindo”, diz o cunhado. “Hoje acho que eles forjaram o barulho do ronco vindo lá de dentro, pois cerca de uma hora depois meu tio foi encontrado sem vida”, crava a sobrinha, que ficou responsável por preencher os documentos que liberariam o carro Toyota Corolla preto, propriedade da Caixa Econômica Federal, apreendido pelos policiais que atenderam a ocorrência da colisão.

“Minha mãe saiu do Plano Piloto por volta das 16h para ir atrás do dinheiro da fiança e só conseguiu chegar na 13ª DP às 18h. Depois, o escrivão demorou cerca de meia hora para liberar o papel. Foi quando o Marcos entrou na cela e viu o corpo”, explica. “Quando o Marcos falou que meu tio estava sem vida, comecei a gritar e chorar. Fui para o lado de fora da delegacia, deitei no chão e caí em prantos”, completa. 

O cunhado ressalta que a janela da cela, onde o motorista teria pendurado a blusa usada para se enforcar, era alta e ficava distante do banco. “Impossível o Caio, pequeno do jeito que era, alcançar aquilo ali e conseguir se matar”, enfatiza. 

O filho, Caio Vinícius Rodrigues, 27 anos, e a sobrinha de Luís Cláudio, assim como ele, são funcionários terceirizados da Caixa, brigadistas. “Meu tio que conseguiu o emprego para mim. Ele me indicou e comecei a trabalhar lá há cinco meses. Meu primo está lá há cerca de cinco anos”, diz.
 

O caso 


Em 14 de julho, o motorista Luís Cláudio Rodrigues, 48 anos, morreu horas depois de ser preso por dirigir embriagado e bater no veículo de um policial militar. O acidente aconteceu por volta das 15h30 no Setor de Mansões de Sobradinho, próximo à casa de ambos os envolvidos. Testemunhas disseram que, após a colisão, Luís sofreu agressões e humilhações do PM, um sargento da Rotam que estava de folga e chamou colegas para realizarem a detenção — a Polícia Militar nega qualquer violência durante a abordagem.

Luís submeteu-se ao teste do bafômetro, que, segundo a Polícia Civil, acusou 1,35 miligrama por litro de ar expelido. Em seguida, foi encaminhado para a 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho). A família dele chegou à unidade cerca de uma hora e meia após o acidente, por volta das 16h. Às 18h30, os parentes pagaram a fiança de R$ 1,2 mil. Depois disso, descobriram que Luís estava morto. Oficialmente, a Polícia Civil informou que o motorista praticou suicídio, versão contestada pelos familiares desde então.

A família também rejeita laudo preliminar do IML. O documento reforça que não houve agressões e que a morte ocorreu em decorrência de “asfixia secundária a enforcamento”. Além disso, os peritos não visualizaram em Luís qualquer lesão externa, que não aquela proveniente do próprio enforcamento. Mas fotografias feitas pelos familiares no dia seguinte à morte revelam diversas marcas no corpo da vítima. Peritos ouvidos pelo Correio avaliaram que Luís apresenta marcas de violência e não apenas no pescoço.   
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marcelo
marcelo - 04 de Agosto às 08:32
Esse triste episodio mostra o quanto essa lei é equivocada, pois classifica como alcoolizado todo e qualquer cidadao que tenha ingerido uma taça de vinho ou uma cerveja, ate 0,30 de alcool no sangue e como crime quem tem dosagem superior a 0,30 com prisão, esquecem que os pacientes embriagados necessitam de atendimento medico e deveriam ser levados a hospitais, haja vista, risco de morte por hipoglicemia, por aspiração de vomito e mesmo surtos em função da abstinência