Transexual é demitida e denuncia loja por transfobia

A transexual Nicole afirma ter sido agredida fisicamente por um funcionário dentro da unidade da Bio Mundo do Gilberto Salomão, no Lago Sul. Uma semana após levar o caso à direção da empresa, a jovem recebeu a carta demissão

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postado em 12/08/2017 16:46 / atualizado em 15/08/2017 17:27

Arquivo pessoal
Uma transexual fez uma denúncia ao Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos alegando ter sido demitida da loja Bio Mundo, do Lago Sul, por transfobia. Nicole, 23 anos, trabalhou no local durante quatro meses e garante ter sofrido agressões verbais e físicas de um funcionário que a chamava de "viadinho". Em dezembro de 2016, após ter sido chutada pelo acusado, ela enviou um e-mail a diretoria da empresa pedindo ajuda. Porém, na semana seguinte, sem explicações, recebeu a carta de demissão. Segundo o gerente da unidade, o caso não se trata de transfobia, mas sim de uma disputa entre vendedores. 
 

A jovem atuou como vendedora na empresa entre setembro e dezembro de 2016. Durante a entrevista de emprego, Nicole contou a gerente que é uma mulher transsexual e relatou estar tomando hormônios devido à transição para o gênero feminino.  “Ela me disse que não havia problema, que se algum funcionário mexesse comigo, era para avisá-la, para que uma providência fosse tomada”, conta. Na semana seguinte, Nicole começou a trabalhar no local, e já no primeiro mês começou a ser alvo de piadas ofensivas de um colega. 

Segundo a denunciante, as agressões verbais se tornaram cada dia mais frequentes. “Avisei para a minha gerente o que estava acontecendo. Ela dizia que conversaria com ele, mas a situação só piorava”, narra. A agressão física ocorreu no fim de novembro, dentro da própria loja. “Um cliente estava vindo em minha direção para perguntar sobre um produto. Daí, ele (o suposto funcionário agressor) entrou na minha frente para impedir que eu o atendesse. Estava com uma cestinha de plástico na mão e empurrei nele, de leve, enquanto perguntava quando ele pararia com essa atitude. Daí, ele virou e me deu um chute muito forte, em frente a todos os clientes e funcionários, eu joguei a minha cesta nele e recebi outro chute. A partir daí, corri chorando para o banheiro”, relata. 

Segundo Nicole, o atendente era bastante competitivo e já teria a segurado para que ela não atendesse clientes, afirmando que ela “já tinha vendido o suficiente”. Após o episódio da agressão, Nicole comunicou imediatamente o ocorrido a gerente, que prometeu tomar uma providência, o que, segundo ela, não ocorreu. “Fiquei bastante abalada, não poderia continuar naquela situação, então enviei um e-mail para a diretoria da empresa, contando todo o ocorrido e pedindo uma solução. Menos de uma semana depois eu e a gerente acabamos demitidas. Eles não queriam nem que cumprissemos o aviso prévio, além de não explicarem o motivo da demissão”, conta Nicole. 

Denúncia 


Nicole estuda Estética e Cosmética no Centro Universitário Iesb e sonha em atuar na área. Porém, desde a demissão no fim de 2016, parou de procurar emprego. “Tenho medo que isso se repita. Fiquei muito triste e depressiva. Apaguei fotos e redes sociais porque me sentia mal em me ver”. Em junho deste ano, Nicole procurou apoio psicológico e foi aconselhada a denunciar o ocorrido. “Quando tudo aconteceu, tive medo de denunciar, por estar lidando com uma empresa grande. Mas agora entendi que se eu não fizer, outras pessoas passarão por isso também”, explica. 
 
Arquivo pessoal
 

A estudante entrou com uma denúncia circunstanciada no Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (CDPDDH), que convocou as partes para uma tentativa de conciliação nessa sexta-feira (11/8). O proprietário da rede Bio Mundo também foi convocado, mas não compareceu à audiência. “Foram o atual gerente da loja, a responsável pelo RH e o advogado da empresa, que foi bastante rispito. Eles não queriam ouvir a minha história, disse que fui despedida por não vender bem, mas ignorou toda a violência que sofri”, conta Nicole.

O Correio procurou a Bio Mundo do Gilberto Salomão para argumentar sobre o caso. O atual gerente, Marcus Tayrone, que era vendedor à época em que Nicole trabalhava na loja, nega que a transsexual sofria transfobia. “Ele (Nicole) teve um desentendimento pessoal com um funcionário, o agrediu primeiro e sofreu a reação”, afirma. 

Marcus esteve presente na audiência de conciliação e conta uma versão diferente da de Nicole. “A moça dos direitos humanos é bem esquentadinha, nem me deixou falar nada. Nosso advogado só questionou porque a denúncia já era dada como real. Eu não vi nenhuma discriminação, só porque foi com um homossexual que levam para um cunho maior. Ninguém fez nada para ofender a opção dele”, garante o gerente. O funcionário que teria agredido Nicole segue no quadro de funcionários da Bio Mundo do Gilberto Salomão. 

Justiça


O presidente do CDPDDH-DF, Michel Platini relata que a intenção era chamar as duas partes (quem denuncia e o denunciado) para entrar em um consenso. Como não houve conciliação, um processo foi aberto no conselho, que tem até 30 dias para decidir e adotar medidas que podem ir de advertência simples ao fechamento do estabelecimento, e ainda remeter a denúncia a outros órgãos como o Ministério Público.

“O dono da loja foi convocado, mas descumpriu a determinação e enviou um advogado que não soube levar a situação. Temos os e-mails como prova, a única resposta dada a funcionária foi a demissão. Tanto que o outro continua trabalhando normalmente. Ele quis defender o comportamento do funcionário e justificou a discriminação alegando que, na verdade, se tratava de uma disputa de metas. Geralmente as empresas não apresentam esse comportamento e se mostram interessadas em resolver e fazer os cursos de capacitação. Esse tipo de comportamento nos preocupa muito”, destacou Platini.
 
Por meio da assesoria de imprensa, a Bio Mundo emitiu uma nota de esclarecimento sobre o caso. Confira abaixo na integra: 
 
A Loja Bio Mundo esclarece que a demissão do colaborador Jonathan Abreu de Queiros Silva decorreu do seu mau desempenho nas vendas e das faltas injustificadas e atrasos ao trabalho. 
A empresa reforça que a orientação sexual não é critério para não admitir ou para demitir colaboradores, tanto é assim que o denunciante foi contratado, inclusive de forma pessoal pelo sócio proprietário da rede. 
Em verdade, o que ocorreu em relação à suposta violência física foi uma disputa entre vendedores, que culminou em uma agressão por parte do denunciante ao seu colega, que revidou aquela.  Ressalta, a empresa que o colaborador que revidou a agressão do denunciante foi advertido formalmente. 
Informa, ainda, a empresa que o presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos não facultou que a empresa apresentasse a sua defesa e sequer a sua versão sobre os fatos narrados na denúncia. 
A rede Bio Mundo repudia quaisquer alegações de prática de transfobia e reitera seu respeito aos seus colaboradores e seus clientes. 
 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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Vaneide
Vaneide - 12 de Agosto às 21:44
Que fato desagradável e que nenhum ser humano tá livre, temos filhos, sobrinhos, netos e outros.
 
Flavio
Flavio - 12 de Agosto às 19:06
Transexualismo é uma disforia de gênero, doença catalogada como tal pela OMS. Mais do que qualquer coisa, precisam é de tratamento.