Ex-moradores de rua pedem ajuda para realizar sonho de se casarem

Ex-jornalista que vivia nas ruas há seis anos e catava latinhas para sobreviver apaixonou-se por um homem na mesma situação. Eles caminharam pelas estradas de cinco estados até chegar a Brasília. O sonho do casal é oficializar a união

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postado em 17/08/2017 06:00 / atualizado em 17/08/2017 10:14

Minervino Junior/CB/D.A Press


Cláudia Aparecida dos Santos é o nome de batismo, mas a ex-moradora de rua era conhecida entre jornalistas como Cláudia Ukla, na década de 1990. “Trabalhei na TV Manchete e na TV Globo de Brasília”, afirma. Funcionários da Rede Globo confirmam que, há aproximadamente 15 anos, a mulher atuou como produtora na emissora. Após sair da capital, em 2007, para ser assessora de imprensa das usinas de Angra dos Reis (RJ), pertencentes à Eletrobras, a dependência de álcool fez com que ela perdesse o emprego e passasse a viver nas ruas.

 

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Sem dinheiro, a ex-jornalista de 54 anos passou a catar recicláveis para sobreviver. Até que, em uma noite de bebedeira na praça principal da cidade fluminense, no fim de 2014, conheceu Ademir Duarte de Souza, 45 anos, um vigia de barcos do porto de Angra. Ambos eram dependentes de álcool e começaram a conversar. “Vi que a Cláudia não estava mais com o amigo dela e a convidei para ficar comigo em um dos barcos que eu vigiava no porto”, relembra Ademir, natural de São Paulo. Cláudia aceitou o convite, e assim começou a aventura — ou a história de amor.

A catadora, que morava nas ruas havia três anos, passou uma semana no porto de Angra dos Reis com o vigia, morador de rua há seis. Os setes dias juntos foram o bastante para que se apaixonassem e decidissem seguir a vida juntos. “Falei para a Cláudia que a vida em Angra estava muito difícil, lembrei-me que tinha uma irmã que mora em São Bernardo do Campo (SP) e a convidei para viajar comigo até lá”, relata o paulistano. Cláudia, também nascida na capital paulista, mas criada em Brasília, na Asa Sul, aceitou novamente o convite do homem que acabara de conhecer. Sem dinheiro para pagar as passagens, decidiram ir a pé para São Bernardo. “Pegamos a Rodovia Rio-Santos e começamos a caminhar”, relata Ademir.

Depois de quase uma semana caminhando, chegaram ao destino. “As pessoas não nos davam carona, até os caminhoneiros sentiam receio, então tivemos de andar”, explica Cláudia. A irmã de Ademir se recusou a recebê-los. “Ela tinha vergonha de ter um irmão alcoólatra e morador de rua; por isso, não me aceitou na residência dela”, diz o andarilho. Dessa forma, a dupla pegou a mochila e colocou o pé na estrada novamente. Destino: a capital do país, onde Cláudia cresceu, estudou e trabalhou. “Perdi meus pais em um acidente de carro quando eu tinha 7 anos. Fui criada por uma tia que mora na 713 Sul e decidi voltar para visitá-la”, explica.

Terra prometida


Foram mais de mil quilômetros de estradas do estado de São Paulo até o Distrito Federal. O casal parou em algumas cidades pelo caminho e teve de enfrentar adversidades. A maior delas se deu logo no início da peregrinação, em Roseira (SP), quando Ademir passou alguns dias na cadeia. “Quando bebemos, fazemos muitas besteiras. Em uma noite fria, em Roseira, eu já havia tomado duas garrafas de cachaça, quando um rapaz me ofereceu a bicicleta dele para ir ao mercado comprar mais bebida. Quando cheguei ao estabelecimento, policiais me pararam e levaram para a delegacia dizendo que eu havia roubado a bicicleta. Passei um fim de semana na cadeia, até que acreditaram que eu não havia roubado e me soltaram”, relembra Ademir.

Durante a longa viagem, que durou dois meses, a dupla conseguiu, com assistências sociais, passagens de ônibus para trechos determinados. Fizeram parte do percurso de ônibus e, a outra parte, a pé. Os últimos 150km, de Unaí (MG) até o Distrito Federal, foram os mais complicados, segundo o casal. “Não conseguimos passagem de ônibus e decidimos terminar o trajeto a pé, mas não havia pousadas para parar, nem restaurantes, nada”, afirma Cláudia. “Nós tínhamos alguns pacotes de miojo na mochila. Colocávamos o macarrão instantâneo em garrafas pet com água, embaixo do sol, e ele ficava pronto. Era isso que comíamos”, acrescenta.

Os andarilhos chegaram a Brasília e foram visitar a tia de Cláudia, na 713 Sul. “Não tive coragem de contar que eu estava na rua, mas ela percebeu. Eu era jornalista e trabalhei em grandes empresas brasileiras de mídia, tinha uma carreira promissora. Acabei me perdendo em meio ao álcool e isso é grande motivo de tristeza para minha tia”, lamenta. A visita durou poucas horas. A ex-jornalista conta que ela e Ademir foram dormir ao relento, na W3 Sul, e a tia pediu que sua secretária lhes levasse uma nota de R$ 20. Foi o último contato que Cláudia teve com a família. O casal, que estava diariamente alcoolizado, começou a pernoitar em frente a uma igreja evangélica na 504 Sul.

O resgate


Na frente da Igreja Renascer, na 504 Sul, o casal foi encontrado, há quatro meses, pela empresária Pethy Mattos, 54 anos, que os encaminhou a uma casa de recuperação, em Luziânia. “Cláudia estava muito machucada, com o rosto ferido, porque havia caído. Perguntei o motivo da queda, e ela disse que havia bebido”, relata a empresária. “Eu quis ajudá-los. Hoje, tenho um amor enorme pelos dois. É um carinho gigantesco”, acrescenta.

Na Casa de Recuperação Abraçando Vidas com Deus (CRAVCD), em Luziânia, Cláudia e Ademir se recuperam. Muitas das marcas deixadas pelos obstáculos que enfrentaram permanecem, como diversos dentes perdidos nos últimos anos. Mas a vontade de continuarem juntos é ainda mais forte.

Na CRAVCD, Ademir e Cláudia vivem separados, pois o centro de recuperação é composto por uma casa exclusivamente masculina e, outra, feminina. “A Cláudia é minha fiel parceira há três anos. Queremos nos casar e alugar nosso cantinho”, diz o noivo. A ex-jornalista ressalta que o aluguel de um terreno pequeno próximo ao centro de recuperação custa cerca de R$ 200. Por isso, estão em busca de emprego. “Nós sabemos plantar e queremos ter a nossa horta. Faço artesanatos e gostaria de vendê-los. Estou disposta a trabalhar com o que aparecer. O Ademir pode trabalhar em obras”, enfatiza.

Responsável pelo centro de recuperação, a pastora Maria Antônia Pereira Melo busca ajuda para realizar o casamento. “Eles sentiram o desejo de legalizar a vida conjugal e têm o sonho de se casar no civil. Ao procurarem um cartório, descobriram que precisam pagar uma taxa de R$ 160. Os dois não têm condições de arcar com o montante e, nós, também não, porque vivemos de doações”, afirma a pastora.

Assim que tiverem os R$ 160, o casamento será realizado. A noiva está empolgada. “Vivemos muita coisa juntos. O Ademir sempre me protegeu e cuidou de mim. Agora queremos construir uma vida digna e saudável”, destaca.

Como ajudar
Casa de Recuperação 
Abraçando Vidas com Deus: 9 9131-6474
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