Surgida antes de Brasília ser imaginada, Planaltina celebra 158 anos

Ao virar cada esquina, a sensação é de volta no tempo

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Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

 

Brasília ainda não havia sido projetada no papel, e Planaltina começava a dar os primeiros passos como cidade. Criada em 19 de agosto de 1859, hoje, a região administrativa mais antiga do DF comemora 158 anos de muita história. E cada rua estreita ou casa feita de adobe continuam firmes na charmosa arquitetura colonial, tão contrastantes com as encontradas no Plano Piloto, distante apenas 38,5 quilômetros.


Ao virar cada esquina, a sensação é de uma volta no tempo. Apesar de pavimentadas, as ruas lembram uma cidade do interior, cujas casas se erguem em volta de praças e o trânsito flui sem o movimento acelerado de grandes metrópoles. Para os amantes de história, a região é um prato cheio de memórias. É possível conhecer os centenários casarões, que um dia abrigaram participantes das expedições em busca de um lugar ideal para a construção da nova capital no interior do país.

Ainda assim, a cidade luta para se modernizar e chamar a atenção dos turistas. E criatividade é o que não falta. Há restaurantes e bares que, em estruturas antigas, tentam trazer um pouco de outras culturas para a região. Assim como espaços de teatro, que atraíram espetáculos para a cidade. Planaltina abriga ainda espaços de espiritualidade e religião, cachoeiras, estações ecológicas e festas tradicionais, como a via-sacra do Morro da Capelinha,  a festa do Divino Espírito Santo e outros eventos na sede espiritualista do Vale do Amanhecer.


Relíquia

O adobe é um material usado na construção civil que antecede o tijolo de barro. Como muitas construções foram feitas no século 19 em Planaltina, o adobe é um material comum em edificações antigas, como na Igreja de São Sebastião.

 
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
 

Respirando história


Mesmo que, oficialmente, a cidade celebre 158 anos, há quem insista em dizer que ela tem 206 anos. Isso porque registros mostram que a história começou bem antes, logo após a passagem da Missão Cruls, que esteve na região para estudar onde seria a futura capital do país.
 
Simone dos Santos Macedo, 59 anos, é uma das que acredita que a história começou antes do oficial. Apaixonada pela cidade, ela fundou a Associação Amigo do Centro Histórico, que tem como missão defender o patrimônio da região. “Tem um discurso de Juscelino Kubitschek em que ele diz que, quando chegou aqui, nada tinha. Mas tinha, sim. Tinha Planaltina.”

Quando se mudou para a cidade, há 20 anos, Simone decidiu que cuidaria do local e, desde então, faz de tudo para que todos vejam a região da mesma forma que ela. “Você demora mais por uma rua do que por outra. A formação das cidades antigas tem isso. Se você tiver passando por uma rua, verá que ela é diferente de outra. Os quarteirões e as esquinas são desordenados.” Simone luta para, sobretudo, preservar o lugar que acolheu tantos jovens candangos em busca de um espaço para construir a própria história.


Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Sabores da cidade

Na Praça Tradicional, há um pedaço da Itália. O restaurante de Matteo Gianella, 51 anos, é uma aula de criatividade. Na casa, de decoração provençal, fotos do país europeu. No fundo, um jardim remete à estrutura de lanchonetes italianas. “Quando chegamos aqui, falaram que éramos doidos por montar um negócio todo arrumadinho. Mas acho que fomos pioneiros. Tem gente que olha, vê que deu certo e também quer tentar”, comenta o chef.
 
O restaurante já passou pelo Setor Comercial Sul, no Plano Piloto, mas se firmou em Planaltina. A ideia era que ficasse no mesmo local onde a esposa de Matteo, Patrícia Teodózio, 40, nasceu e cresceu. Agora, o italiano tem um carinho especial pela região. Para ele, o clima é de interior, de cidade pacata e de tranquilidade. 

Para Patrícia, que cresceu na região, apesar de ainda não ter shoppings ou cinemas, Planaltina mudou. “A cidade está viva. Antes, as pessoas saíam, iam trabalhar e depois voltavam.” Além disso, para eles, a cidade é sinônimo de qualidade de vida, já que foge dos principais problemas urbanísticos de cidade moderna.


Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

A cara da cultura e da arte

De fora, até parece que o professor de educação artística Preto Rezende, 58 anos, mora em uma casa normal. Apenas uma placa entre os dois andares chama a atenção: Teatro Lieta de Ló. Na garagem, muitos apetrechos artísticos. E na sala, em vez do sofá, há um palco. Do outro lado, as cadeiras e uma janela levam ao estúdio de luz e som. Um corredor improvisado serve de camarim e, em um pequeno sótão, os quartos servem como espaços para abrigar acervos de filmes e peças antigas.

A ideia começou ao perceber que não havia espaço para a arte na região. O grupo do qual faz parte, o Senta que o Leão é Manso, atua há 31 anos. “Algumas peças a gente conseguia fazer na rua, mas outras, não. Então, a gente pensou: temos que arranjar um lugar.” Passada uma década, todo o suor para construir e transformar a casa valeu a pena. O lugar recebe um dos espetáculos do Cena Contemporânea pela primeira vez este ano. Para Preto, a arte ainda resiste na cidade. Há sempre pessoas interessadas em conhecer espaços culturais, mas o problema são as questões burocráticas e governamentais. “Aqui, temos grandes festas, mas poucos eventos apoiados”, critica.

Onde o agronegócio prospera

Entre as 31 regiões administrativas do DF, Planaltina é a que tem o território mais extenso. E a população local tem aproveitado esse espaço para alavancar a produção agropecuária e mover a economia da capital do país. São mais de 600 produtores que ocupam cerca de 1,5 mil quilômetros quadrados na área rural, que abriga 30 mil habitantes. O destaque é o pimentão, com uma produção de 180 toneladas por mês, que vai direto para a mesa dos brasilienses ou é vendido para outras unidades da Federação.

A produção da fruta (sim, é uma fruta) chega a 120 toneladas por hectare em estufa e a 60 toneladas por hectare em campo aberto. Na região, está concentrada a melhor tecnologia do país para a produção desse alimento, com uso de estufas de ambiente controlado, que faz o período produtivo aumentar de seis meses para um ano. O principal polo de cultivo é o Núcleo Rural Taquara, onde 550 empregos diretos são gerados na cadeia produtiva, que move em torno de R$ 10 milhões anualmente.

Mas não só de pimentão vive o agronegócio da cidade. Há 40 anos, o Programa de Assentamento Dirigido do DF (PAD/DF) criou uma área de cultivo de 61 hectares, entre Planaltina e Paranoá, onde ocorre o plantio de cereais, cultivo de hortifrutigranjeiros, bovinocultura e avicultura, entre outros. Nos últimos 20 anos, a produção de milho em Planaltina cresceu 100%. No PAD/DF se produz 158% a mais que em outras regiões do mesmo tamanho no resto do país. Esse é o mais bem-sucedido programa de colonização e reforma agrária do Brasil.
 
A primeira colheita de soja deste ano em Planaltina bateu recorde de 4,6 milhões de sacas. Já o trigo tem uma média de coleta de 6,2 toneladas por hectare. O maracujá é fruta de destaque da região, com o aumento da produção a cada ano.


Vale visitar


Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

Igreja de São Sebastião 

» Localizada na Praça São Sebastião, a primeira igreja da cidade foi o principal lugar de formação e construção que culminou com o desenvolvimento da cidade. A popularmente conhecida igrejinha foi sede paroquial até a construção da nova matriz. O prédio foi tombado em 19 de fevereiro de 1982.


Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

Pedra Fundamental 

» Bem antes de Juscelino Kubitschek assumir a Presidência e transferir a capital do país para o interior, houve o lançamento da pedra fundamental, em 7 de setembro de 1922. A ideia era que o obelisco de 3,75 metros de altura estivesse onde se pretendia construir a futura capital do Brasil. A pedra foi tombada em 1982.


Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Vale do Amanhecer

» Sede da Ordem Espiritualista Cristã, o Vale do Amanhecer foi criado em 1964 por Neiva Telaya. A Ordem tem como objetivo a prática do espiritualismo cristão, com elementos sincréticos de origem afro-brasileira e kardecista. Com quase 800 unidades em todo o mundo, a sede recebe visitantes de todo o Brasil.


Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

Museu Histórico

» Construído em 1905, o edifício que abriga o Museu Histórico e Artístico de Planaltina foi, em princípio, a residência de Afonso Coelho Silva Campos, que hospedou as caravanas que se dirigiam ao Planalto Central para realizar estudos sobre a implantação da nova capital. O tombamento foi firmado em 1982.
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