Luziânia registrou 73 assassinatos no primeiro semestre de 2017

Famílias são marcadas pela violência. Em seis meses, região também teve 77 tentativas de homicídio, cinco latrocínios e milhares de roubos

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postado em 20/08/2017 08:00 / atualizado em 20/08/2017 11:14

Minervino Junior/CB/D.A Press
 
 
As tristes estatísticas da cidade revelam uma guerra em que o cidadão é a principal vítima. No primeiro semestre deste ano, o município registrou 73 assassinatos. A região teve, ainda, 77 tentativas de homicídio, cinco latrocínios (roubo com morte) e outros sete atentados, além de 2.258 roubos, 10 sequestros relâmpagos, 1.909 furtos, 180 lesões corporais e 74 casos de tráfico de drogas. Os números, porém, não expressam com exatidão o medo de quem convive com tamanha violência, e a dor de quem perdeu uma pessoa querida para o crime, como Ângela, a personagem que o leitor conheceu no inpicio da reportagem.

Sem opção, ela segue em frente com uma força respeitável. Olhar forte, passos firmes, negra e pobre, viúva aos 29 anos. Na última semana, a única filha (de 10 anos) entre os irmãos avisou que não participaria da festa do Dia dos Pais. “Mãe, não quero ir para escola de jeito nenhum”, encerrou o assunto. Na sequência, o mais novo quis saber do pai. “Está no céu”, a mulher respondeu sem vacilar. “Podemos visitar ele?”, voltou a perguntar a criança. O silêncio preencheu o quarto e o fez entender que jamais o veria de novo.

A morte de Anderson Maciel da Silva deixou um vazio na família, que vive apenas da aposentadoria de um salário mínimo. “Tenho que pagar aluguel, água e luz. As crianças precisam de roupas, sapatos e remédios. Não dá para nada”, lamenta. 

Após um quadro de convulsão, Anderson precisou parar de trabalhar e deu entrada no processo de aposentadoria. Mas, para manter o benefício, era necessário o ensino médio completo. Perdeu a vida a caminho da escola, aos 29 anos. “Morreu, morreu. É só mais um, enterra ali e acabou. Tem muito mais gente descendo o caixão. As autoridades não se importam”, desabafa Ângela.

Tiros na cabeça

Há 16 anos, Marina (nome fictício), 51 anos, chegou em Luziânia. Natural do Rio Grande do Sul, veio tentar uma vida melhor com os dois filhos e o marido. Os meninos cresceram, se casaram e permaneceram em Luziânia. O mais novo, de 27 anos, teve duas crianças e conseguiu um emprego na lotérica local, mas, em 11 de abril de 2014, foi assassinado. Após um dia de expediente, dois homens armados entraram no local e deram dois tiros na cabeça dele. O motivo: o caixa já havia sido trancado e a chave não estava lá.

“A gente sai de casa e não sabe se volta. Meu filho morreu há três anos e nada mudou”, conta Marina, com a voz embargada. “Se ligarmos a tevê agora, estará passando a morte de alguém”, lamenta. O sentimento de revolta aflora. “Não temos policiamento. O pouco que existe, não atua de forma correta”, diz, desesperada.

O medo é cliente contumaz também do comércio, onde a compra e a venda acontecem através de grades. Nas ruas, praticamente todo mundo tem uma história de violência para contar. Dono de uma loja de rações, Mário (nome fictício), 37, sofreu um furto este mês. “Levaram vários produtos e R$ 500 que estavam no caixa”, lamenta. Ele perdeu três amigos em assaltos nos últimos quatro anos. “Tenho quatro filhos e não quero que nenhum more aqui depois de adulto. Aqui, ninguém tem coragem de sair à noite. Depois de 21h, não há uma alma na rua”, reclama.


Falta infraestrutura

Para a professora de direito penal e especialista em segurança pública Cristiane Vieira, a raiz da violência em Luziânia e em outros municípios do Entorno é a falta de infraestrutura. “É claro que o estado não consegue dar cabo dessa violência e, como essas cidades são muito próximas a Brasília, ainda há uma briga entre o DF e Goiás pela responsabilidade. Ninguém quer assumir”, conclui.  

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