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Estado de Minas

Conflito de gerações causa impactos no mercado de trabalho no DF

O intervalo de tempo que separa os nascidos entre os anos de 1980 a 2000 acarreta uma grande distância na forma de pensar e agir profissionalmente


postado em 21/08/2017 06:00 / atualizado em 21/08/2017 08:09

Isama representa a geração Y: prefere trabalhar em um espaço compartilhado por várias empresas(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Isama representa a geração Y: prefere trabalhar em um espaço compartilhado por várias empresas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Há um conflito de gerações em curso no mercado de trabalho do Distrito Federal. De um lado, membros da chamada geração Y, ou millennials, se queixam da rigidez das estruturas e anseiam informalidades ainda incomuns no cenário atual. Muitas vezes, fogem de uma relação trabalhista duradoura para atender os próprios anseios e procuram espaços de coworking para produzirem. De outro, gestores da geração X, a anterior, focados em apresentar resultados, se queixam do desrespeito ao horário, da dificuldade em lidar com hierarquias e da ansiedade por parte dos funcionários mais jovens. O embate, no entanto, reflete uma tendência mundial, que aparece em diversas pesquisas e pode sinalizar, segundo especialistas, futuras mudanças, já que esses mesmos profissionais assumirão, em alguns anos, os cargos de chefia.

Designer gráfico, Isama Laryssa Paiva Nascimento, 24 anos, nasceu em 1993 e pertence ao grupo dos representantes mais jovens dos millennials. Ela trabalha em uma empresa de economia criativa, que se reúne em um espaço de coworking, mas já foi freelancer em outros lugares. “Trabalhei com convites de casamento e no setor de gastronomia. Fiz peças e cardápios. Tudo bem tradicional. Havia uma ‘obrigação em saber’. A postura é a de que você não podia ter dúvidas. E o fato de uma pessoa ser jovem e antenada não significa que ela saiba tudo. Acho que há pessoas conservadoras no mercado que não aceitam o comportamento da nossa geração. Por outro lado, também temos dificuldades em receber críticas”, pondera.



Questionada se tem vontade de fazer parte do modelo tradicional, Isama afirma que esse não é o objetivo, mas acredita que, apesar das discordâncias, não teria nenhum problema em se adequar. “Faço meu horário, trabalho de onde quiser e não há obrigatoriedade de uma reunião presencial. É uma liberdade, mas que vem com responsabilidade. Minha relação com meus colegas, hoje, é de troca de conhecimento. É muito mais democrática e dinâmica do que em outros locais nos quais trabalhei. Não há muito espaço para uma relação hierárquica”, elogia.

Quem tem que lidar com profissionais de idades variadas confirma o conflito. É o caso da brasiliense Heloísa Rocha, 51, proprietária da empresa de coworking Co-Piloto. Para ela, a disputa é inevitável e, atualmente, revela uma mudança mais profunda na forma de pensar o mercado. “Na minha geração, o sonho era ter um emprego estável, um bom salário, um carro, para, depois, se aposentar e fazer o que quisesse. A nova geração quer mobilidade. Nem sempre faz sentido ter um imóvel. É mais ou menos aí que começa o conflito. E isso se repete na educação. A escola atual não reflete a evolução da nossa sociedade. É próxima do que era há 100 anos”, avalia.

A relação de Heloísa com os millennials teve início há quase uma década, quando ela trabalhava com novos conteúdos em uma empresa de publicidade. Em uma posição hierárquica superior, mas lutando para manter uma horizontalidade na equipe, ela começou enxergar melhor a diferença de objetivos entre as gerações e como isso se refletia na produtividade. “As relações de trabalho, hoje, estão desgastadas, tanto legalmente quanto operacionalmente. Para essa nova geração, por exemplo, faz mais sentido trabalhar em um local sem relação formal ou hierárquica. Eles vivem muito mais uma busca de propósitos e de motivações. As experiências têm que trazer valor financeiro, mas precisam ter sentido para a vida. Enquanto isso, a geração X tem uma noção de propriedade exagerada”, compara.

Heloísa tem que lidar com profissionais de idades variadas e confirma o conflito entre as gerações(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Heloísa tem que lidar com profissionais de idades variadas e confirma o conflito entre as gerações (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Meta de velocidade

A relação de conflito no mercado de trabalho também se apresenta em sala de aula. Essa é a opinião do professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Ellery, 45. Ele destaca que, principalmente, por causa da tecnologia, a distância entre os millennials e a geração X é muito maior do que a da geração X com a anterior. “Eu vi chegar o primeiro videogame no Brasil. Se tinha que procurar um artigo, muitas vezes, tinha dificuldades em encontrá-lo na biblioteca. Hoje, cito um autor estrangeiro e os alunos baixam a informação durante a aula. Esse fluxo veloz de informações tem efeito sobre os valores também. As novas gerações têm muita iniciativa e estão empolgadas. Eles têm uma capacidade incrível de trabalho. Por outro lado, tudo tem que ser muito rápido”, descreve.

São características, Ellery reforça, de quem nasceu nos últimos 20 anos do século 20, mas muito mais intensas nos nascidos nos anos 1990. “É uma geração muito capaz quando motivada, mas muito ansiosa. Eles correm atrás. É visível, principalmente, em quem nasceu nos anos 1990. Quem nasceu nos anos 1980 tem alguns sinais, mas ainda não traz tanta urgência. É fácil perceber e você não precisa ser especialista”, observa.

Diretor do Laboratório de Inovação, Empreendedorismo e Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ademar Bueno, destaca que o conflito entre gerações nesse cenário tende a ficar ainda mais complexo. “Hoje, nas empresas, temos gente da X, da Y e o estagiário da geração Z. A coisa está ficando mais complicada do que o conflito entre duas gerações. Está chegando uma nova para bagunçar, positivamente, tudo isso”, analisa.

“Embora alguém da geração X possa ter facilidade em lidar com tecnologias, o cérebro não tem essa característica, quase que genética, que o jovem da Y tem. Em ambiente empresarial, que exige comunicação e o uso da ferramenta tecnológica, é óbvio que teremos uma série de conflitos de diálogo, comunicação e trabalho entre as duas gerações. Se o problema for comportamental, fica ainda mais difícil”, detalha.

Para Bueno, O modo de pensar da geração X é com “cabeça de gerente”, enquanto que o da Y é “mais sistêmico”. “Por outro lado, o pessoal da X não só cresceu em um ambiente diferente, como tem mais experiência de vida e mais condições de negociar e pensar a longo prazo. Tem muito o que ensinar nesse sentido”, pondera.

Mudanças no processo educacional, porém, podem amenizar ou transformar esse conflito. Bueno explica que a geração Y cresceu com poucos desafios e necessita da sensação de conquista. “Eles precisam ver sentido no que estão fazendo. É a geração que busca um propósito. O nosso sistema educacional é o mesmo há décadas, igual ao de nossos pais. Há poucas inovações nesse processo para criar desafio. Eles têm dificuldades de encontrar sentido, até mesmo no curso superior que escolheram”, resume o professor.

Escambo profissional

Coworking pode ser definido como o uso de um escritório ou de outro ambiente profissional por pessoas de diferentes especialidades que dividem equipamentos, ideias e conhecimentos de modo criativo e orgânico, empreendendo juntas segundo as necessidades de cada indivíduo ou grupo. Durante as reuniões, podem surgir novas empresas e o escambo profissional, em que um grupo beneficia outro com os próprios serviços em vez de um pagamento em dinheiro, por exemplo.

Do fim do século

A geração Y comporta os nascidos nas duas últimas décadas do século 20. Também é chamada de geração do milênio ou da internet, foi apelidada de millennial pelo historiador e economista norte-americano Neil Howe, ainda na década de 1990. Esse grupo de pessoas tem como principal característica ter se desenvolvido em um período de grandes avanços tecnológicos. A geração X são os que nasceram nos anos anteriores.

Tema de estudo

O conflito geracional observado no mercado de trabalho do Distrito Federal segue as tendências constatadas por pesquisas internacionais, como a Future of Work, feita pela empresa de recursos humanos ADP Research Institute, em 2016, e a The Millennial Survey, de 2015, da Delloite. Basicamente, os nascidos entre a década de 1980 e os primeiros anos de 1990 têm, hoje, entre 22 e 37 anos. Eles estão no mercado, mas possuem ideias diferentes sobre negócios, crescimento profissional, aprendizado, hierarquia e trabalho em equipe. O levantamento da ADP inclui entrevistas com mais de 2 mil empregados de diversas empresas, de diferentes países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, China e Índia. As pessoas consultadas disseram estar descrentes de possibilidades de mudanças imediatas. Um total de 20% dos entrevistados acreditam que as transformações nunca vão acontecer, e 58%, que ocorrerão apenas no futuro. A conclusão do trabalho é que um terço dos millennials acredita que a escolha profissional deve focar empresas que agreguem valor ao trabalhador e à sociedade, mas não aposta na adaptação das organizações a essa mudança de comportamento. Já a pesquisa da Delloite mostrou, entre outras coisas, que, para os millennials, ter um propósito está fortemente ligado ao desempenho e à satisfação profissional. O estudo levou em conta entrevistas com 7,8 mil membros da geração Y, em 29 países, incluindo o Brasil. Segundo o levantamento, 73% dos entrevistados acreditam que os negócios devem ter impacto positivo na sociedade.



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