Voluntários equipam ônibus com chuveiros para moradores de rua

Um ônibus itinerante equipado com duas duchas está, desde a noite dessa quarta-feira (23/8), parado em frente ao Hospital de Base do Distrito Federal, pronto para dar um banho digno a quem não tem nem onde dormir

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postado em 24/08/2017 13:13 / atualizado em 24/08/2017 14:52

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

 
Banhos quentes fazem parte da rotina de tal maneira que mesmo em plena crise hídrica ninguém nem cogita cortar as chuveiradas. Para algumas pessoas, entretanto, o hábito diário soa como um luxo. Quem mora nas ruas não tem a facilidade de acesso a um banheiro a qualquer momento. Nem mesmo na época da seca. Por isso, um grupo de voluntários e de ex-moradores de rua decidiu dar um pouco de conforto a esses cidadãos. Um ônibus itinerante equipado com duas duchas está, desde a noite dessa quarta-feira (23/8), parado em frente ao Hospital de Base do Distrito Federal, pronto para dar um banho digno a quem não tem nem onde dormir.
 

Por enquanto, o projeto vai estacionar naquele ponto a a cada sábado. Além da chuveirada quente, o usuário terá direito a um kit de higiene, com xampu, pasta e escova de dente, além de roupas limpas. Os voluntários da ONG Futuro Esperança, responsável pelo projeto Banho de Fé, também serve lanche aos moradores de rua. Na frente do ônibus, tem cachorro-quente, bolo e refrigerante para aquecer. “ Além de recuperarmos a dignidade dessas pessoas, queremos acompanhá-las até se reintegrarem por completo à sociedade”, explica a servidora pública Elvira de Paula Batista, 47 anos, uma das idealizadoras da iniciativa.

A equipe conseguiu comprar o ônibus graças a doações. Mas não adiantava ter o veículo: faltava instalar os chuveiros e, claro, decorar o interior. Flores amarelas de plásticos, lâmpadas e balões deixam a atmosfera muito mais colorida do que o cinza do concreto onde os moradores de rua estão acostumados a passar a maior parte do tempo.

O maior desafio? Captar água. Afinal, em tempos de crise hídrica, a ideia é dar banho a 20 pessoas sem desperdiçar. Por enquanto, a voluntária Elvira abastece o ônibus a partir da própria casa. Então, cinco minutos debaixo do chuveiro, no máximo. Caso contrário: “cabô, bora, bora, bora”. E três batidas na porta.

Foi assim com Rogério Soares de Araújo, 45 anos, o estreante dos chuveiros itinerantes. Mais conhecido como “Barba”, o ex-morador de rua e líder comunitário vê no banho algo além de um mero hábito de higiene. “Só de tomar uma ducha, fico mais leve”, descreve. Os banhos, inclusive, funcionam muito mais como um chamariz para quem dorme no abandono do Setor Comercial Sul, acredita Barba. “Isso aqui é um espaço de convivência e que chama a atenção para a luta de cada um poder ter uma casa para dormir”, completa.

Barba conhece bem a realidade daqueles sem um banheiro à disposição em casa. “Minha primeira cama foi a rua”, revela. Abandonado pelos pais ao nascer, em São Paulo, ele morou em um orfanato aos 18 anos. Por causa das drogas e da bebida, acabou nas ruas. Pulou de cidade em cidade até chegar a Brasília, em 2003. 

Agora, Barba vive em Taguatinga. Está prestes a viajar de avião, algo impensável nos tempos na rua. No próximo sábado (26/8), embarca rumo à Bolívia, onde dará palestras sobre a nova vida. “Por isso, carrego um peso muito grande nas costas. Não posso errar. Sou um exemplo para todos esses moradores de rua.”
 
Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
 

Recomeço


Assim que recebeu o convite para tomar uma ducha, o morador de rua Marco Antônio da Silva, 25, juntou os cobertores que usa para dormir no Setor Comercial Sul e caminhou até o ônibus. “A gente aprende a dar valor ao banho quando não tem casa”, admite o rapaz. Além do projeto da ONG Futuro Esperança, ele frequenta o Centro Pop, na 903 Sul, para manter a higiene em dia. O local é mantido pela Secretaria Adjunta de Desenvolvimento Social, antiga Sedest. 

Marco Antônio carrega sotaque típico do sul de Minas Gerais. De Itajubá, cidade com cerca de 100 mil habitantes, ele não se lembra ao certo quando chegou a Brasília, mas guarda as memórias de quando o crack o colocou nas ruas, há nove anos. “Estou começando a largar as drogas. Já pedi ajuda para achar uma comunidade terapêutica que aceite me tratar”, garante o jovem, de fala calma e decidida.

Quando Marco Antônio se recuperar, ele poderá se espelhar no casal Heliovan Evangelista de Sousa e Fabiana Aparecida do Nascimento, ambos de 35 anos. Há um mês fora das ruas, os dois hoje vivem em uma casa de três quartos no Riacho Fundo II e ajudam moradores de rua a levarem uma vida menos perigosa. “Já levei facada, passei frio, fome, sede e fiquei sem banho. Agora que tenho um teto, vivo para ajudar os outros”, relata Fabiana. Para ela, a ONG acertou em levar os chuveiros ao estacionamento do Setor Comercial Sul. “É difícil as pessoas caminharem daqui até o Centro Pop só para tomar banho. Fica muito longe”, conta.

Agora, Fabiana e Heliovan lutam para que a filha Tainá, 10, tenha sempre o conforto de um chuveiro. A menina cursa o 2º ano do ensino fundamental e sonha alto: quer ser modelo. Depois de ficar anos longe dos pais por causa das ruas, Tainá está feliz. “Agora posso ficar com a mamãe.”
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