Distrito Federal tem deficit de 5 mil leitos na rede pública de saúde

Há dois anos nenhum leito é inaugurado na capital

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postado em 26/08/2017 07:00 / atualizado em 26/08/2017 13:53

Antonio Cunha/CB/D.A Press


Cirurgias atrasadas, tratamentos cancelados e pacientes em fila de espera. Leitos de internação são ferramenta importante para o funcionamento de qualquer hospital. Os problemas que afetam a saúde pública da capital fazem com que o Distrito Federal tenha menos vagas que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade internacional estabelece uma faixa de três a cinco leitos por mil habitantes como ideal. No DF, a Secretaria de Saúde disponibiliza 1,2 leito para cada grupo de mil pessoas — defasagem de cerca de 5 mil vagas.

 
 
Para atender à recomendação da OMS, o Executivo local deveria aumentar em 137% a quantidade de leitos. A rede pública deveria disponibilizar 8.753 vagas para a população de 2.914.830 habitantes. Contudo, os hospitais somam 3.686 vagas. Há dois anos nenhum leito é inaugurado na capital. 

Com mão de obra limitada e manutenção de equipamentos deficiente é quase impossível ampliar a margem de atendimento. O Palácio do Buriti pretende lançar um pregão para comprar 500 monitores de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 170 ventiladores. A ofensiva é para abrir 35 leitos e desafogar o sistema. Entre outras dificuldades, elenca o secretário adjunto de Gestão em Saúde, Ismael Alexandrino, está a contratação de servidores, sobretudo os de enfermagem.

A especialidade que mais precisa de leitos é a internação cirúrgica de adulto. Os custos para manter uma vaga são altos. Por dia, o governo gasta R$ 2,4 mil com as despesas de cada leito de UTI. O problema é recorrente em todas as unidades de saúde. No Hospital de Base, por exemplo, 100 leitos de enfermaria e 20 de UTI estão fechados. Distante 35km do Plano Piloto, o Hospital Regional do Gama mantém sete dos 20 leitos de UTI bloqueados. Os motivos variam entre falta de mão de obra ou problemas com a manutenção.

A Secretaria de Saúde admite que faltam leitos, mas utiliza outro cálculo para dimensionar o deficit. Ancorada em uma portaria de 2015, que leva em consideração o número de internações em vez do total de habitantes, a pasta diz que faltam mil leitos — sendo 900 gerais e 100 de UTI. A defasagem é de 25%, segundo esse cálculo.

A escassez faz com que a recuperação de muitos pacientes fique comprometida. Atualmente, a rede pública disponibiliza 401 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sendo 354 próprios da Secretaria de Saúde e 47 contratados da rede particular. Na última semana, 80 deles ficaram bloqueados. “Em termos de quantitativo, se conseguirmos abrir os que estão fechados, é quase o mesmo número de pacientes que estão na fila”, destaca Ismael.
 
Problema em toda a rede 

O secretário adjunto de Gestão em Saúde, Alexandrino, Ismael acredita que apenas criar leitos não seria a solução. “Existem regras de dimensionamento. Em determinadas situações, precisamos de um enfermeiro para quatro ou cinco leitos e nós não temos esse quantitativo de profissionais. A enfermagem é a coluna vertebral do hospital. Se um andar tem 40 leitos e se eu tenho um profissional, por determinações legais, eu não consigo abrir as vagas”, justifica.

A licitação prevista para este mês não soluciona os problemas integralmente, mas ajusta o cenário. “A abertura de 35 leitos não perfaz todos os que estão fechados, em média, temos 70 leitos de UTIs fechadas no DF”, pontua Ismael. E emenda. “Existem três números quando se fala de leitos: o real, o ideal e os credenciados, ou seja, aqueles que recebemos dinheiro do Ministério da Saúde pelo funcionamento. Há UTIs que têm 20 leitos, mas apenas 10 estão credenciados. O restante é mantido com verba local”, conclui.

Quem precisa de atendimento reclama da falta d espaço na rede pública. O marido da costureira Amparo da Silva Cruz, 49 anos, teve um mal súbito na última quarta-feira e precisou ser hospitalizado. Não conseguiram vaga para internação. O homem de quase 60 anos, acabou levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Sebastião. “Eu liguei para os hospitais e nenhum podia recebê-lo. Fiquei desesperada e trouxe ele para cá, mas disseram que não poderá ficar por muito tempo”, lamentou a moradora da Quadra 203 de São Sebastião.

Nas UPAs, o problema com leitos também ocorrem. Cada uma das seis unidades tem 15 leitos para observação e quatro para urgência. A proposta é manter os pacientes em observação por até 24 horas, mas a maioria dos internados ultrapassa esse tempo. O problema acontece porque, após o primeiro socorro, é difícil conseguir leito para encaminhamento do paciente para uma unidade de saúde de maior porte.


R$ 2,4 mil - Valor gasto pelo governo 
para manter as despesas 
de cada leito de UTI  


 3.686 - Quantidade de leitos 
de internação na rede 
pública do DF 


 25% - É o percentual de leitos 
que a Secretaria de Saúde acredita ter que aumentar


100 - Total de leitos fechados somente no Hospital de BaseA intenção da Secretaria de Saúde é criar uma estratégia para dar alta aos pacientes com maior celeridade. “Há casos em que a literatura médica recomenda a internação de sete dias na UTI, mas, às vezes, o paciente fica 14. Ou tem alta com 13 e fica mais um dia porque não tem leito na enfermaria.”


Palavra de especialista


Como fica o paciente?

A conta não é fácil de fechar. Há uma deficiência no DF. Aumentar o número de leito é essencial. A questão é como criar mais leitos. Só de abrir as vagas que estão fechadas já seria um alívio. Falta de servidor e equipamento não é justificativa. Um é o ponto de vista do administrador, que sempre está difícil, mas e o outro lado? Como fica a situação do paciente? Esse não é um problema que se precise de um monte de dinheiro para solucionar. A situação é ainda mais crítica quando se avalia as UTIs. A Secretaria de Saúde tem que racionalizar a administração. Contratar a iniciativa privada sempre é mais fácil. Porém, quando o governo paga pouco ou atrasa, a iniciativa privada deixa de prestar o serviço e o governo não tem como reagir, porque não investiu na rede própria.

Vitor Gomes Pinto é especialista em administração da saúde e integrante do Observatório da Saúde do DF.
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