Brasília se destaca por espaços e instituições dedicadas à cura espiritual

Os locais chamam atenção pela exuberância holística e preocupação com a cura do espírito

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postado em 27/08/2017 08:02 / atualizado em 27/08/2017 13:00

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

Casa dos Três Poderes, berço das principais decisões políticas brasileiras e palco dos últimos escândalos envolvendo altos escalões do governo, Brasília vive um paradoxo, ao se configurar também como um centro holístico e espiritual do país. Profetizada por Dom Bosco, a região da capital federal é mística desde a origem. No Planalto Central, bem perto do nosso quadrado, ainda há a região de Alto Paraíso de Goiás, considerada a cidade mais esotérica do Brasil, e Abadiânia, município de 13 mil habitantes, conhecido por ser a casa de João de Deus, um dos mais famosos e respeitados médiuns em atividade no mundo.

O livro Memórias biográficas de Dom Bosco, publicado em 1935 pela editora italiana Societa Editrice Internazionale, relata o sonho-visão do santo italiano, que descreve o surgimento da nova capital do Brasil. De acordo com o relato, em uma tarde de 1883, o padre Felipe Rinaldi, um dos primeiros seguidores de Dom Bosco, encontrou-o em seu escritório, em Turim, na Itália, com um globo terrestre sobre a mesa de trabalho. Ele tocava, com uma das mãos, a área referente ao Brasil, e falava sobre o sonho que havia tido dias antes, no qual fazia uma viagem à América do Sul, lugar que nunca havia conhecido.

Contou que contemplava grandes planícies, florestas, lagos, entre outros pontos, quando viu um planalto — que corresponderia, atualmente, ao Planalto Central. “Entre o grau 15 e o 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia de ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: ‘Quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível’”, está escrito. Dom Bosco localizou a faixa compreendida pelos paralelos 15 e 20, entre os Andes e o Oceano Atlântico. Exatamente entre os paralelos 15 e 16, foi localizada a nova capital do Brasil, cumprindo o que previu o santo.

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press


A cerca de 240km de Brasília, Alto Paraíso de Goiás é, por vários fatores, considerada a cidade mais mística do Brasil, seja pelos mistérios que abriga, pela abundância de cristais no solo (que, segundo alguns especialistas, alteram as emoções e funcionam como canalizadores de energia), pela presença do paralelo 14 — o mesmo que passa sobre Machu Picchu, no Peru, e outras cidades incas sagradas —, ou pelos vários grupos espirituais que se espalham pela cidade.

Em um raio de alguns metros, é possível encontrar desde igrejas católicas tradicionais a centros budistas, templos de yoga e meditação, espaços dedicados a diferentes tradições da Índia, como o movimento hare krysnha, do hinduísmo, e templos de ayahuasca, bebida enteógena (que altera a consciência e a percepção) produzida a partir da combinação da videira Banisteriopsis caapi com várias plantas.

Olhos de diversas partes do mundo também se voltam para outra pequena cidade de Goiás, a cerca de 100km do DF, chamada Abadiânia. Entre as personalidade famosas que buscaram cirurgias espirituais e mediúnicas com João de Deus, estão a apresentadora de tevê norte-americana Oprah Winfrey, a modelo britânica Naomi Campbell, os ex-presidentes da República Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, a apresentadora brasileira Xuxa e atores brasileiros como Fábio Assunção e Cláudia Raia.

Como se não bastassem essas manifestações místicas, o DF foi o local escolhido para ser a casa de Inri Cristo, homem que se diz a reencarnação de Jesus Cristo. O catarinense nascido em Indaial afirmou, em 1979, ter tido a revelação de sua verdadeira identidade após ter feito jejum durante alguns dias em Santiago, no Chile. Até então, era conhecido como Iuri de Nostradamus, nome que adotou como vidente e conselheiro. Em 1982, fundou a instituição Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade (SOUST), que estava provisoriamente situada em Curitiba, até se instalar definitivamente no Gama (DF), em 2006.

Espiritualidade

O espírito ecumênico pautou a fundação de Brasília. Para Juscelino Kubitscheck, era importante que a nova capital não discriminasse corrente religiosa alguma. Por isso, em 1963, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), órgão federal que distribuía os terrenos públicos de Brasília, anunciou que o lote localizado na 315/316 da Asa Sul seria liberado para a construção do Templo Budista. As obras demoraram 10 anos, e o templo só foi inaugurado em 1973. Hoje, o local é patrimônio tombado do DF.

O monge do templo, Ademar Kyotoshi Sato, 75 anos, ressalta que a capital do Brasil foi idealizada na década logo após a 2ª Guerra Mundial, 1950, antes de ser fundada, em 1960. “Brasília é uma cidade mística. Foi pensada em uma época na qual a humanidade estava preocupada com a paz mundial. Época do nascimento da bossa nova e outras lindas manifestações artísticas”, destaca.



Para Sato, os escândalos políticos fazem com que Brasília viva um momento de apatia. “A população está perplexa. Em momentos de crise, o ser humano pode sucumbir ou aproveitar como oportunidade de emancipação e crescimento como seres humanos”, pontua. O monge, formado em economia, direito e ciências sociais pela USP, enfatiza ainda que a crise política não é apenas brasileira: é mundial. “Essa é a crise pré-modernidade, que afeta todos os países. Em tempos como este, a espiritualidade pode ser bem ou mal aproveitada. Existe a boa espiritualidade e a má espiritualidade. Devemos ser luz”, destaca.

Sob os olhos de Clarice 

Nas três passagens pela capital federal, a escritora Clarice Lispector, surpresa com a estética e a disposição da cidade moderna, registrou suas impressões nas crônicas Brasília (1964) e Brasília: Esplendor (1974). Veja alguns trechos do que escreveu:

“Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. (…) Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. ”

“Quando o mundo foi criado foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília.”

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


“Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos que não eram americanos nem suecos e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. (…) Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos: eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade”.

Vale do ombro amigo

Em Planaltina, um complexo religioso recebe visitantes de todo o Brasil e de outros países, como Canadá, Bolívia e França, desde 1969. O Vale do Amanhecer, fundado pela médium clarividente Neiva Chaves Zelaya, conhecida como Tia Neiva, no fim da primeira década de existência de Brasília, originou quase mil espaços como ele em outras cidades do país e do mundo. Após cinco décadas de criação, a doutrina espírita de Tia Neiva tem, hoje, cerca de 700 templos ativos em todo o Brasil e em outros sete países.

A sede, em Planaltina, é como uma pequena cidade, com vários espaços abertos e fechados, lagos, cascatas, cores, imagens, símbolos, montes, estátuas, esculturas, além de centenas de casas dos moradores do Vale do Amanhecer — estruturas mantidas por cerca de 150 mil médiuns, homens e mulheres integrantes de uma complicada estrutura hierárquica, baseada em referências cristãs, espíritas, maias e até orientais. As vestimentas dos moradores e frequentadores do local chamam a atenção pela excentricidade. Capas, botas, vestidos, colares, enfeites de cabelo, estampados com figuras simbólicas da doutrina.



Raul Zelaya, 70 anos, filho da fundadora do vale e responsável pelo espaço, diz que a procura pelo local tem aumentado bastante nos últimos anos. “Quando os tempos ficam difíceis, as pessoas começam a procurar por Deus”, afirma. “Na falta de um ombro amigo, pessoas vêm ao Vale em busca de acalento. E aqui encontram paz, com os pretos velhos que as escutam, aconselham e dão esperança”, completa. Os pretos velhos são entidades da umbanda, espíritos que tiveram, pela sua idade avançada, o poder de entrar no corpo e dominar a pessoas, conferindo-lhes elevada sabedoria, paciência, humildade.

“As manifestações em frente ao Congresso Nacional estão cheias de energias negativas. O ideal seria que todas as pessoas, inclusive os políticos, se recolhessem e buscassem paz interior, para serem melhores”, defende Zelaya, que é ex-motorista aposentado do Senado Federal. Para ele, uma boa vivência espiritual pode curar doenças, tranquilizar as pessoas e melhorar o país.

Cura pela energia

Terapias energéticas são bastante procuradas por quem acredita que harmonizar os níveis de energia no corpo estimula a recuperação da saúde física e mental. Reiki (feito com a imposição de mãos, visa canalizar a energia universal e restabelecer o equilíbrio espiritual, emocional e físico) e thetahealing (ensina o paciente a identificar e liberar crenças e padrões que o impedem de ser feliz) são algumas das opções de procedimentos terapêuticos energéticos.

A terapeuta holística Del Rodrigues, 29 anos, atende clientes na W3 Sul e acredita que a comunhão entre corpo, mente e universo ajuda a combater doenças como câncer e depressão, além de diminuir o alto índice de suicídios. “Tantas pessoas são sufocadas pelas demandas do mundo capitalista. Elas precisam parar, olhar para dentro, meditar, amar aos outros e a si mesmos. Assim, elas irão emanar energias de amor, energias de compaixão. É importante que o indivíduo se conheça, para se perdoar e curar feridas”, pontua. “A melhora da sociedade começa por nós. Precisamos parar de pensar no inferno, em condenação. O importante é tentarmos ser pessoas melhores para humanos, animais e plantas”, acrescenta.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press


Del Rodrigues também é astróloga e ressalta que a astrologia, na maior parte das vezes, é explicada de forma generalista, o que é extremamente prejudicial. “As pessoas acabam se prendendo a estereótipos, principalmente nas redes sociais. O mapa astral precisa ser bem lido para que a pessoa possa de fato se entender. Cada indivíduo é um mundo à parte”, aponta. Ela ainda enfatiza que julgamentos não fazem parte da essência humana. “Estamos sempre julgando os outros, mas isso é algo causado pela sociedade em que vivemos. Não podemos julgar tanto. Todos devem se tratar com respeito”, destaca.

Para a terapeuta, a capital federal se destaca por estar no Planalto Central, no centro do país e por haver sido profetizada por Dom Bosco. “É possível encontrar infinitas formas de conexão espiritual em Brasília. Ainda temos a sorte de estar ao lado da Chapada dos Veadeiros, um lugar repleto de pedras, que captam e armanezam energia”, aponta.
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