Diante da 'guerra', prefeituras recorrem a parcerias contra a violência

Prefeito de Valparaíso, Pábio Mossoró (PSDB) admite que o quadro de agentes da segurança pública é deficitário

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postado em 27/08/2017 08:42 / atualizado em 27/08/2017 08:54

ONG Programando o Futuro/Divulgação
Com poucos recursos diante da guerra urbana, as prefeituras de Valparaíso e Cidade Ocidental recorrem a parcerias e ampliação de horas extras para o pequeno efetivo de policiais civis e militares. É importante destacar que as ações para tentar mudar o quadro de violência ocorrem em um cenário de total falta de infraestrutura e omissão do Estado. Nenhum dos municípios possui uma secretaria municipal de Segurança. Para especialistas, por conta da posição geográfica, as regiões se tornaram “terra de ninguém” (nem do GDF nem do governo de Goiás). As localidades dependem de investimentos do estado de Goiás, em Goiânia, distante 190km, e do apoio da PM do DF, cuja atuação é limitada pela fronteira estadual.

Prefeito de Valparaíso, Pábio Mossoró (PSDB) admite que o quadro de agentes da segurança pública é “deficitário”. Segundo ele, 40 policiais militares estão passando por treinamento para ingressarem no batalhão da região. “Formamos também a primeira turma de guardas municipais em novembro. Ao todo, 77 atuarão na cidade a partir de dezembro”, adianta. A prefeitura usa a Secretaria de Cultura para atuar nas escolas com atividades no contraturno da aula a fim de manter os estudantes fora das ruas.

Guarda municipal

O prefeito da Cidade Ocidental, Fábio Correa (PRTB), também admite que “a situação não é a ideal”. Lá, o efetivo de policiais militares caiu de 130 para 60 em 10 anos. Ainda assim, segundo o gestor, os índices de violência têm caído. “Cerca de 80% da iluminação foi revitalizada. Instauramos a guarda municipal, com 26 agentes, e logo teremos mais 15”, promete. A PM conta com três carros e quatro motos para patrulhar toda a área e espera a chegada de um quarto veículo. O prefeito negocia a ampliação do atendimento da delegacia local, que funciona em horário comercial. 

De acordo com o delegado da Cidade Ocidental, Frederico Gama, é comum que os policiais fiquem sobrecarregados. “Temos um número pequeno de agentes. Mesmo assim, o trabalho tem rendido bons números. A Cidade Ocidental é considerada hoje a cidade menos violenta do Entorno Sul”, afirma. 

Personagem da notícia
Viva, graças a Deus

A professora Auxiliadora da Silva, 53 anos, é uma sobrevivente da violência na área rural da Cidade Ocidental. Carrega, no corpo e na alma, as marcas de uma tentativa de assalto em sua chácara, na região. Levou um tiro de espingarda calibre .12. Um ex-aluno da mulher efetuou o disparo, a uma distância de 5m. Ele não foi sequer indiciado pela tentativa de latrocínio, mas acabou preso por estrangular uma mulher em Luziânia tempos depois.

Auxiliadora sobreviveu, mas perdeu o seio esquerdo por conta dos disparos.  Está viva porque usou a porta da casa para desviar parte dos projéteis. Ainda guarda, como recordação, a porta crivada pelas inúmeras bolas de chumbo lançadas pela arma.

Moradores tentam buscar soluções

Enquanto políticos adotam um discurso burocrático e, quase sempre, ineficiente, a população busca soluções cidadãs para encarar o dia a dia em meio à violência urbana. Em Valparaíso, Vilmar Simion, 37 anos, ajudou a criar a organização não governamental (ONG) Programando o Futuro, que oferece, de graça, cursos de informática, técnicas de reutilização de lixo eletrônico e ações de estímulo à cultura independente para jovens e adultos. “Nós buscamos inserir essas pessoas num contexto social em que elas possam ter uma nova perspectiva de vida”, detalha.

A instituição capacita cerca de 800 alunos por ano e muitos têm a chance de ser contratados pela própria ONG. Nascido em Valparaíso de Goiás, o jovem Natã Vieira, 23 anos, por sua vez, atua em conjunto com amigos oferecendo doações de roupa, cobertores, comida e utensílios de higiene para moradores de rua e dependentes químicos. “Se eles têm o mínimo de ajuda, não têm o por que roubar”, argumenta.

Na Cidade Ocidental, o cabeleireiro Marcelo Rodrigues, 37, ensina o ofício, gratuitamente, a quem quiser. Órfão e de família humilde, criou o projeto social Corte com Amor para ajudar “no futuro dos jovens”. “Tenho alunos de todas as idades. Três dos garotos que aprenderam comigo já estão pensando em abrir um negócio para trabalhar”, orgulha-se. Atualmente o curso conta com 62 inscritos. “Temos uma turma de 26 alunos e outros 36 na fila de espera. Todos querendo um futuro diferente”, diz.

Idealizador do projeto Vidas Sim, Drogas Não, o assistente social Wilton Monteiro também batalha para transformar a região. O projeto foi selecionado para receber verba do governo federal. “É preciso ocupar a mente dos jovens. Só assim eles não se envolverão com a criminalidade. Conseguimos o apoio que precisávamos e, em breve, ofereceremos esporte, cultura, lazer e capacitação a quem quiser uma vida diferente”, garante.

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

Capoeira

Valdemir Teixeira Correa, 36 anos, mais conhecido como Mestre Miro, aposta no esporte para transformar a juventude do Novo Gama. Ele percorre vários bairros da cidade para ensinar a arte, na rua ou em escolas públicas. O nome do projeto é Incentivart, e ele conta com a ajuda de alunos mais velhos para abraçar as localidades. “Eu sei o que a capoeira pode fazer na vida da pessoa, porque transformou a minha. Nasci e cresci na periferia. Minha adolescência foi toda na malandragem e me transformei quando comecei a praticar”, conta. “No início, os jovens pensam que vão aprender a se defender. Depois veem que capoeira é vida e, então, se apaixonam. A partir daí, isso ocupa um espaço importante na vida do adolescente e ele começa a se transformar”, explica.

Everton Jhonatas Alves da Silva, 35, trabalha com igrejas evangélicas da região. Ele procura vagas em clínicas de reabilitação e recebe indicação das congregações para conversar com dependentes químicos. “Fazemos um trabalho de convencimento. É uma chance boa de a pessoa mudar. Quem aceita é levado imediatamente para a clínica, caso contrário, perdemos a oportunidade”, afirma.

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