Pioneiro prepara livro de memórias com momentos marcantes de Brasília

Engenheiro Atahualpa Schimtz, que ajudou no nascimento da capital, escreve livro de memórias com personagens pitorescos e momentos marcantes da história de Brasília

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postado em 30/08/2017 06:00 / atualizado em 30/08/2017 18:02

Minervino Junior/CB/D.A Press


O engenheiro Atahualpa Schimtz tem 92 anos, mas se alguém pergunta a idade, ele responde 93: “É que eu assumo o compromisso de permanecer vivo mais um ano”, explica Atahualpa. Ele chegou a Brasília, pela primeira vez, em 1956, quando a região era um imenso e desconhecido descampado. Do alto do avião, a faixa onde está instalado o Lago Paranoá contrastava com o restante da vegetação rala e árida. Compunha uma paisagem densa de árvores.

Atahualpa veio com a missão de construir a pista do Aeroporto Internacional de Brasília. Mas, depois de concluída a obra, não conseguiu, imediatamente, retornar ao Rio. Foi convidado a trabalhar na Novacap, a companhia urbanizadora de Brasília, e realizou os estudos para toda a pavimentação da cidade: “Fizemos as tesourinhas no olhômetro, depois que havia a indicação de topografia”, conta Atahualpa. “Senão, não daria tempo de concluir a obra”.  Ele tem espírito de aventura e, na nova capital, construída a toque de caixa, não faltaram situações dramáticas, épicas e engraçadas.

Ele fez um diário de todas as obras. Além disso, tem muito senso de humor e é um grande contador de histórias. Por isso, resolveu reunir tudo em livro intitulado Entrelinhas da construção de Brasília. Era para ser um volume, mas são tantas histórias que o projeto se multiplicou em cinco e está à espera de um editor: “Isso aqui é história do Brasil”, argumenta Atahualpa. “Se eu tivesse chegado a Brasília e fotografasse uma tribo de índias nuas, já teria encontrado um editor”, brinca Atahualpa. E, nesta entrevista, ele conta algumas das 1001 histórias que ele guarda sobre a capital do país.

Chegada a Brasília 1 

Bom, eu trabalhava em uma empresa muito grande, a Companhia Metropolitana de Construção. Eles me buscaram no DER (Departamento de Estradas e Rodagem) do Estado do Rio. Fiz asfalto para a cidade de Campos. Era rica, tinha usinas de açúcar. Pavimentei muitas estradas no Rio de Janeiro. Fiz a pavimentação de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, em direção ao Rio de Janeiro. Terminei a obra e me chamaram ao Rio com a família toda. Tinha a mulher, dois filhos pequenos e dois cachorros de raça alemães. Estava toda a diretoria olhando para mim. O presidente disse que a empresa tinha sido convidada para fazer uma obra em lugar inóspito e estradas carroçáveis. Atola tudo e é difícil o transporte chegar ao destino. Preparava o meu espírito para aceitar. Disse que convidaram os dois engenheiros mais antigos da empresa e eles recusaram. Me perguntaram: “O que o senhor tem a dizer?” Eu disse: eu quero ir amanhã, depois de amanhã não vou. Estava garantido. Minha mulher gostava de aventura. Ela foi a primeira mulher carioca a vir para Brasília. No outro dia, embarcamos em um avião bimotor grandão, rumo ao Planalto Central.

 Minervino Junior/CB/D.A Press

Parada em Goiânia

Descemos em Goiânia para nos encontrarmos com o Bernardo Sayão. Tomamos um táxi dirigido por um negro, apelidado de Azeitona. Em determinado momento, senti o carro balançar. A minha mulher era estradeira. Ela disse que o pneu estava furado. “E agora, como faz?”, Azeitona perguntou. “Põe o estepe”, recomendou a minha mulher. O Azeitona, respondeu: “Não temos estrepe”. Aí, eu falei: “Então, estamos estrepados”. O Azeitona foi lá abriu o porta-mala, tirou um arco de violino, pegou um serrote enorme e começou a tocar músicas do interior do instrumento improvisado. Tocou até chegar outro carro trazendo o estepe.

Em cima da capital

Quando chegamos, sobrevoamos Brasília, onde tem o Lago Paranoá, havia uma floresta enorme, é uma área muito úmida. Quando começaram a desmatar o Lago, dei a ideia de colocar umas plaquetas nas madeiras com cordas. Quando encheu o lago, o material boiou, subiram as árvores todas. Era só puxar as cordas. Dei ideia de amarrar um cabo de aço nas madeiras mais pesadas. Ali tem profundidade de 35 metros. Sabe quem trouxe os jacarés do Lago Paranoá? O pessoal da Aeronáutica. Eles pegavam os jacarés pequenos no Bananal e traziam para os filhos. Quando cresciam, eles jogavam no Lago Paranoá.

Com Bernardo Sayão

Logo que me encontrei com Bernardo Sayão, ele gritou meu nome: “Atahualpa!”. Ele me conhecia porque era amigo do presidente da companhia em que eu trabalhava. Sayão me deu os mapas com os marcos de topografia do IBGE e do Exército para fazer a pista de pouso do Aeroporto. O serviço topográfico estava adiantado comigo. Eu sou descendente de alemão, sou Smith. Eu gostava de charuto desde que conheci Getúlio Vargas. Os engenheiros antigos não queriam falar com Getúlio, pois ele havia tirado verbas de investimento nas estradas ao priorizar as ferrovias. Fui conversar com ele. Tinha dois charutos no bolso. Perguntei: o senhor pode me arrumar um? Ele falou: “Não sabia que gostavas de charuto, toma os dois”. Era um charuto Pimentel número 2. Fumava o charuto às sextas-feiras. Era quando os trabalhadores queriam dispensa. Quando eles perguntavam: “O senhor está fumando?”. Eu dizia: “Não, quem está fumando é o santo”. Eles ficavam assustados e eu me livrava de dispensar gente. Precisava deles no sábado.

Construção do aeroporto

Fiz a topografia e montamos a oficina mecânica para construir a pista do Aeroporto de Brasília. Em função da topografia, fizemos o projeto com extensão de 3 mil e 300 metros por 46 de altura. Tive de aumentar a pista em 100 metros. Quando o avião bate na cabeceira da pista está com peso mínimo. Mas temos de reforçar a cabeceira, para o levantamento do voo.

Impasse nas obras

Havia na obra um engenheiro alemão muito competente que ficava furioso quando roubavam os charutos dele. Começava a implicar com todo mundo. Quer dizer, eu roubava. Na pista do Aeroporto de Brasília, fizemos compensação de terra e colocamos tudo em nível certinho. Os caminhões eram numerados e cubados. Estava olhando a movimentação do escritório e percebi que, de repente, os caminhões pararam e a numeração emperrou. O goiano que cuidava da movimentação dos caminhões dizia que não estavam mais “cubicando”. Perguntei por quê? E ele respondeu que, quando chegou no número 24, ninguém queria trabalhar. “Como faço?”, perguntou o funcionário. E eu disse a ele: “Você vai lá e escreve 23 + 1”. Aí, o pessoal aceitou e a fila de caminhões andou.

Israel Pinheiro

Certa vez, o Israel Pinheiro ficou muito bravo comigo. Eu o conhecia, quando ele queria despejar uma bronca, ele dava uns cinco passos à frente, coçava o nariz e voltava furioso. Ele esbraveja, eu ouvia e, quando ele se virava, eu gesticulava pedindo desculpas. Empreiteira é para levar esculhambação, ficar calada e ganhar muito dinheiro. Só que, quem olhava de longe e me via gesticulando pensava que eu estava dando bronca no Israel, que era muito bravo. Um engenheiro que viu a cena de longe comentou comigo: “Precisava de alguém macho para dar uma esculhambação boa no Israel Pinheiro!”. O meu conceito subiu muito naqueles dias. Escrevi sobre a experiência no livro.

Lucio Costa

Certa vez, perguntei ao Ary Barroso: “Quem era aquele homem que se parecia tanto com o Santos Dumont?”. Ele respondeu: “É um tal de Lucio Costa”. Pensei que fosse irmão do Santos Dumont, com aquele bigode e chapéu. Lucio Costa era meu vizinho no Rio. Ele tinha um Lancer, entrava no carro e não pegava. Dava uma olhada e pedia ajuda para a nossa turma de futebol na rua. Aí, eu dizia: “Vamos empurrar o calhambeque!”. Saía um fogo da descarga e o carro pegava. Fiz isso umas três vezes. Mais tarde, ele me pedia para falar o que as pessoas diziam sobre o Plano Piloto. E eu dizia que desciam o pau porque não tinha esquina. Ele comentava: não é nada disso. Dizia também para ele que as pessoas falavam que aquela escultura em frente ao Palácio do Itamaraty parecia uma laranja cortada, uma laranja seleta ou uma laranja lima. Lucio Costa ria muito ao ouvir o relato da discussão.

Novacap

Depois de concluir as obras da pista do Aeroporto, fui convidado para trabalhar na Novacap. Fui chefiar a divisão de infraestrutura e pavimentação. Organizei a pavimentação e o laboratório de revestimento. Estudamos os solos de todos os pavimentos de Brasília. E tudo era executado dentro da mais rigorosa técnica. Pavimentamos a Asa Sul e boa pare da Asa Norte. O solo era uniforme, mas havia problemas de águas subterrâneas na Asa Norte. A drenagem das tesourinhas exigia muito cuidado. E, no fim, para ganhar tempo, levantava a topografia das tesourinhas e fazia o acerto de curva no olhômetro. Fazia a indicação e o patroleiro executava o trabalho. Se não fosse assim, a tesourinha não ficava pronta nunca.

Fuga do hospital

Fui diretor da Novacap, a convite do presidente Jango. Os empregados não tinham plano de saúde. Usavam meus carros como ambulância para transportar os que estavam doentes. Ninguém tinha plano de saúde. Organizei um ambulatório com três médicos e três dentistas. Certa vez, um laboratorista nosso estava muito mal e encaminhamos para um hospital da Asa Sul. Ele fez uma cirurgia e cobraram mais de 600 mil réis. Nem se fizesse uma vaquinha daria para pagar. Aí, bolei um plano. Pedi à família que, no dia de visitas, levassem o maior número de parentes possível. Eles ficaram rodeados em volta da cama, o paciente se vestiu e saiu com eles sem que ninguém do hospital percebesse. O Ernesto Silva, que era muito meu amigo e dirigia o hospital, reclamou comigo que o paciente havia saído de fininho, sem pagar. E eu comentei: “Que absurdo!”. Quem deu a ideia fui eu.
 
 
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