Distrito Federal se torna destino importante na rota do narcotráfico

A quantidade de entorpecentes apreendidos pelas forças policiais no primeiro semestre deste ano é o dobro da recolhida há 10 anos no Distrito Federal. Na esteira do tráfico, muitos usuários cometem crimes para sustentar o vício

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 04/09/2017 06:00

Carlos Vieira/CB/D.A Press


É embaixo de uma garagem, no centro de Brasília, que fica o Buraco do Rato. Lá, há pessoas que, apesar do nome, perderam a identidade. Nem se reconhecem mais. Deixaram as suas casas pelas drogas. Abandonaram o emprego, venderam o que tinham. Em meio à sujeira, sobrevivem com o pouco que restou. São mulheres e homens; jovens e idosos; negros e brancos. Quem antes morava na Asa Sul, em Santa Maria e em Águas Lindas de Goiás agora resiste ao frio da noite e ao calor do dia no Setor Comercial Sul. Com os dentes apodrecidos e as roupas em frangalhos, vivem do crack. Muitas vezes, sustentam o vício cometendo roubos, furtos e, em alguns casos mais extremos, homicídios e latrocínios (veja Memória).

Antes de devastar a vida dessas e de tantas vítimas do abuso das drogas ilícitas, os entorpecentes percorrem um longo caminho até chegarem ao DF. Dos traficantes às mulas e aviõezinhos, desembarcam no Distrito Federal em quantidades cada vez maiores. O total de substâncias ilícitas apreendidas em 10 anos revela que a capital é um destino importante na rota do narcotráfico. Em 2007, as forças policiais recolheram 1.147,5kg de maconha, crack, cocaína, haxixe e merla. Em 2016, o número aumentou para 4.204kg: um salto de 266%. E, só no primeiro semestre de 2017, foram tirados das ruas 2.241,7 kg, o dobro do que era apreendido há uma década.

Lucas*, 27 anos, começou a usar maconha aos 13. Depois, passou para a cocaína. Chegou à merla e, hoje, usa crack diariamente. Quando conversou com o Correio na escada de acesso ao Buraco do Rato, chorou. Mergulhado nas drogas, foi expulso de casa pelas duas irmãs. O pai morreu aos 4. Perdeu a mãe aos 13. Só estudou até a 6ª série e, antes de se tornar dependente químico, trabalhava na construção civil. Lucas mora na comercial da 105 Sul, mas perambula no centro de Brasília. Compra o crack por R$ 10 e fuma 10 pedras por dia. Consegue o dinheiro vigiando carros e cometendo pequenos furtos no comércio. “A droga alivia a minha dor. Finjo que não tenho família, mas sinto saudade. Depois que passa o efeito, sinto até dor de dente”, conta.

Foi a cocaína a porta de entrada de Rosana*, 31, para o vício. Ela começou aos 24 anos em baladas regadas também a bebidas alcoólicas. Quando faltou o pó, uma amiga sugeriu o crack. Rosana relutou. "A pedra é a pior coisa. Mas, depois do primeiro trago, gostamos. Chegou ao ponto que tanto fazia a cocaína ou o crack”, conta a moça alta e dentes conservados.

A entrevista dado ao Correio aconteceu nas imediações do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Setor Comercial Sul. Mas, lá, o usuário só entra até as 22h, para dormir. Ao ter uma recaída, naquela semana, inalou 10 pedras. Quando se deu conta, eram 23h30, e as portas do Cras haviam se fechado. “Senti-me mal. Sabia que tinha feito algo errado, mas fui embora. Fui para a casa de um amigo”, diz.

Para conseguir a droga, ela vendeu o celular, o relógio e os óculos. Hoje, para ter acesso ao crack, “faz os corres”, sem detalhar o significado. Rosana morava no Varjão com a família. Trabalhava em uma casa de família no Lago Norte, mas começou a falhar no serviço e foi dispensada. Chegou a ir para Goiânia. Hoje, passa algumas partes do dia no centro da cidade, mas evita dormir na rua. Quando dá, faz faxina em Águas Claras. “Quando você usa a droga, passa a vontade de dormir e de comer, e acalma. Depois do efeito, bate o arrependimento”, desabafa.

Crimes


Consultor em segurança pública, o professor George Felipe Dantas ressalta que o número de clínicas de dependência química e a quantidade de ONGs que fazem trabalhos em grupos são indicadores da presença do tráfico no DF. “A dependência química é democraticamente distribuída, mas a maioria das famílias atingidas é constituída por pessoas que, na sociodemografia, estão mais para a classe C do que para as classes B e A. Não que as outras não sejam atingidas, mas parece que inflige um dano maior nas periferias. E, ao mesmo tempo em que impõe esse dano, são nessas regiões que os mecanismos de assistência estão menos presentes”, destaca.

Na visão dele, o narcotráfico tem relação direta com outros crimes, como furtos, roubos, receptação e latrocínio. No entanto, para o especialista, o fenômeno do tráfico não se mostra tão forte em Brasília se comparado ao Rio de Janeiro em razão, principalmente, do menor número de favelas no DF. “Nesses locais, a droga está tão entranhada que não existe sequer espaço físico-geográfico para intervir de maneira definitiva”, explica. George Felipe ainda ressalta que a dependência traz consequências à saúde e à incapacidade humana de trabalhar e se relacionar em sociedade. “Essa é uma questão econômica e social. O dependente nega, a família esconde e a sociedade rejeita”, afirma.

Dificuldade


Segundo a professora da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e outras Vulnerabilidades Associadas, Andrea Gallacci, os efeitos da droga variam de acordo com a atuação no sistema nervoso central (leia Para saber mais). Ela explica que dependentes químicos são minoria. “Há muito mais pessoas que usam drogas com nenhum ou pouco problema. A minoria passa por alguma situação difícil, mas a dependência química é complexa e multifatorial. Há questões sociais, de saúde, além de critérios hereditários; por isso, requer intervenções à altura da complexidade”, esclarece.

Ao entender dela, quando se trata de viciados, uma intervenção forçada apenas na internação ou em questões relacionadas à saúde pode ser perigosa. “A pessoa sai limpa, mas não significa dizer que os problemas dela acabaram. Pelo contrário, aí é que elas se dão conta do tamanho da dificuldade que é a vida delas, porque, muitas vezes, há quem minimize a dor com a droga por sentir prazer nela. Portanto, é preciso entender o que acontece e saber da vida do paciente em outras esferas”, ressalta.

*Nomes fictícios


Para saber mais


Os efeitos
» Existem três blocos de classificação das drogas, de acordo com a influência delas no sistema nervoso central

Depressoras 
» Diminuem a capacidade de resposta do indivíduo. Os reflexos e o raciocínio ficam mais lentos. Funciona como um componente analgésico. É o caso de álcool, solventes e ansiolíticos (calmantes).

Estimulantes 
» Aumenta o estado de vigilância do usuário e provoca hiperestimulação das respostas. O indivíduo fica em uma condição acelerada, já que esse tipo de droga estimula o sistema nervoso central. Exemplos: nicotina (cigarro), cocaína e crack.

Perturbadoras
» Provoca alteração dos sentidos, como tato, olfato, visão e audição. É o caso dos cogumelos alucinógenos e das drogas sintéticas, como o LSD.

Efeito misto 
» A maconha demanda quase que uma classificação própria, uma vez que tem efeito misto, ou seja, pode ser depressiva, mas, ao mesmo tempo, provocar uma leve alteração dos sentidos ou trazer sensação de depressão e analgesia.

Fonte: Andrea Gallacci, professora da UnB e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e outras Vulnerabilidades Associadas do Câmpus Ceilândia


Memória


Reprodução

Latrocínio na 408 Norte
A jornalista, mestranda da Universidade de Brasília (UnB) e servidora do Ministério da Cultura (MinC) Maria Vanessa Veiga Esteves (foto) foi esfaqueada nas costas por dois assaltantes logo depois de estacionar o carro em frente ao Bloco D da 408 Norte. O crime chocou pela covardia. Alecsandro de Lima Dias, 26 anos, e um adolescente de 15 anos abordaram a vítima assim que ela parou o veículo, um Fiesta, no estacionamento público da quadra — ela morava no Bloco C. Ao descer do carro e acionar o alarme, a dupla rendeu a vítima.

Segundo testemunhas, ao ser esfaqueada pelas costas, a servidora pública ainda disse: “Não precisa isso. Leva tudo, mas não precisa isso”. As câmeras de segurança do local gravaram toda a cena, inclusive a rota de fuga da dupla. Os dois foram encontrados em um imóvel localizado na comercial da 208 Norte. Segundo a investigação, os acusados costumavam praticar crimes na Asa Norte e usavam crack. Eles confessaram que deixaram a quitinete antes de cometer o latrocínio e, depois do crime, voltaram para lá — o apartamento era alugado por Glauber Barbosa da Costa, 42 anos.

Na ficha policial de Alecsandro, há passagens por roubo e furto qualificado. O mais jovem deles admitiu ter esfaqueado Maria Vanessa. Ele tem várias passagens pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) e havia sido apreendido pela Polícia Militar 12 dias antes do crime. O dono do imóvel, também usuário de crack, responderá, inicialmente, por favorecimento pessoal — ele também havia trabalhado no MinC e faz pós-graduação na UnB. Segundo a polícia, apenas uma coincidência.
 
 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.