Especialistas tentam descobrir qual é a identidade sonora de Brasília

Acervo da inciativa, que nasceu no ano passado, será disponibilizado, a partir deste sábado, no site do projeto

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Nay Mesquita/Divulgação

 
A cidade tem sons. O metrô, a rodoviária, os cantadores, os sapos e as aves de lagos e lagoas, por exemplo, compõem a identidade sonora da capital federal. Mesmo que passem despercebidos na loucura cotidiana, cada um desses sons, garantem especialistas, ajudam a entender e a formar o que é o DF. E, a partir de hoje, alguns deles podem ser ouvidos on-line gratuitamente no site do projeto “Identidades Sonoras” (www.identidadessonoras.org).
 

A iniciativa começou a construir um acervo de sons que formam a memória auditiva do DF e de regiões próximas em 2016. A ideia surgiu com os pesquisadores Gustavo Elias e Kamai Freire.

Colegas do curso de composição musical na Universidade de Brasília (UnB), os dois ficaram muito interessados quando estudaram, em 2015, o conceito de paisagem sonora, cunhado pelo canadense Murray Schafer. Para ele, os sons são capazes, entre outras coisas, de constituir uma representação singular de locais.

Além disso, segundo os pesquisadores, o som é deixado muitas vezes de lado em relação a outras maneiras de se fazer registros, como a imagem. “Esse conceito da paisagem sonora é recente. É um terreno incipiente no nosso país. Atualmente, somos um dos poucos acervos brasileiros. E vivemos em uma sociedade centrada nas paisagens visuais”, explica Kamai.

Motivados pela ideia e pela falta de iniciativas do tipo, Gustavo e Kamai resolveram conhecer, pesquisar e documentar a paisagem sonora do DF e de regiões próximas daqui. “Nós começamos a amadurecer essa ideia e fomos pesquisando e vimos que não tinha muitos estudos no Brasil. Sentimos que era um terreno bacana para trabalhar”, lembra Kamai. “Queríamos também registrar como esses sons se relacionam à identidade do DF”, completa Gustavo.

Entre o fim de 2015 e o início de 2016, os pesquisadores começaram a fazer testes e a refletir sobre a possibilidade de levar a ideia adiante. Com o projeto, eles conseguiram apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e começaram, em março de 2016, a documentar profissionalmente os sons de diversas situações e regiões do DF e proximidades. 

Categorias

Orientados pelo professor do Departamento de Música da UnB Flávio Santos Pereira, eles dividiram a pesquisa em três áreas: sons urbanos, da natureza e das tradições culturais. “A gente optou por fazer uma categorização, até para fazer a triagem, e chegou a essas três categorias. A partir disso encontramos os 18 primeiros campos registrados pelo projeto”, detalha Gustavo.
 
Nay Mesquita/Divulgação
 

Hoje o site disponibiliza cinco dos registros feitos pela equipe. Depois, os outros serão divulgados semanalmente. Os primeiros registros englobam as três categorias. “Nos sons da natureza, há gravações da Lagoa Bonita, que é a maior lagoa natural do DF. Fomos no período de chuvas e temos os sons dos sapos e rãs de lá”, exemplifica Gustavo.

Três momentos foram escolhidos para apresentar inicialmente a categoria de tradições culturais. “Vamos disponibilizar gravações do Encontro de Folia de Reis do DF, da Romaria dos Carreiros (que ocorre rumo a Trindade-GO) e do Império de São Gonçalo, festa na comunidade kalunga”, expõe o pesquisador. Para os sons urbanos, o primeiro local a ser disponibilizado é o metrô.

Acesso 

O acesso ao acervo no site do projeto terá dois níveis gratuitos. O primeiro deles disponibiliza trechos das gravações, imagens e pequenos textos. “Nesse primeiro nível, o público terá acesso à plataforma, mas sem as gravações na íntegra. Se a gente gravou 9 dias de uma novena por exemplo, ele vai ter um recorte disso tudo”, explica Kamai.

O segundo nível exigirá que o usuário faça login (que deverá ser solicitado à equipe) e que ele aceite um termo de responsabilidade quanto ao uso do material. “Neste caso, a pessoa poderá ter acesso à íntegra, às gravações completas de tudo o que disponibilizarmos.”
 
Nay Mesquita/Divulgação
 

O material pode ser usado para fins didáticos e de pesquisa, mas não pode ser utilizado comercialmente. “O acervo se torna, por si, um instrumento muito rico de pesquisa. Daqui a algum tempo, alguém pode querer comparar o que mudou ou o que se manteve. É uma forma de você conseguir observar como essas tradições culturais, esses espaços se colocam e se reinventam”, acredita Kamai.

Permanente

A ideia é que o projeto seja permanente e que o som de outros espaços sejam registrados com o tempo. Além disso, a intenção é trazer pesquisadores de outras áreas para o estudo. A nova etapa começa com um registro maior dos cantadores de viola do DF.

Com o apoio do Fundo de Apoio à Pesquisa (FAP), oito profissionais de áreas diferentes, como música, antropologia, letras, museologia e artes visuais, analisarão as manifestações culturais dos repentistas no DF. “Esse, por exemplo, é um modelo que a gente tem interesse em replicar com o máximo de manifestações culturais possíveis: juntar uma equipe transdisciplinar para estudar um objeto”, aponta Kamai.
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