CRISE HÍDRICA

Obras avançam para captação de água do Lago Paranoá

Após cinco meses, cerca de 80% do empreendimento erguido para tornar possível a captação de água no espelho d'água está concluído

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postado em 17/09/2017 08:00 / atualizado em 17/09/2017 10:42

 Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

A captação no flutuante do Lago Paranoá tornou-se a menina dos olhos do governador Rodrigo Rollemberg. O empreendimento é o mais adiantado, com 80% da obra executada e previsão de início de operação para outubro. A velocidade dos trabalhos — cinco meses — fez a paisagem mudar rapidamente às margens da Quadra 4 do Setor de Mansões do Lago Norte. O lote, antes vazio, passou a abrigar imensos canos verdes, estruturas metálicas amarelas, bombas e uma nova estação de tratamento de água.

No entanto, a salvaguarda da crise hídrica tem um futuro incerto. Por se tratar de uma captação emergencial, segundo Maurício Luduvice, presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), a expectativa é de que o projeto “seja desativado quando o sistema do Paranoá ficar pronto”. Até o momento, não há um veredito sobre o destino da estrutura montada, o que pode fazer com que os R$ 42 milhões investidos tenham prazo de validade.

O racionamento já  dura oito meses. A estiagem de mais de 115 dias recolocou os reservatórios em estado crítico. O Descoberto, responsável pelo abastecimento de mais de 60% do DF, voltou a beirar os 20% do volume total. A expectativa da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa) é que o número seja ainda mais baixo ao fim do próximo mês: 9%.

Ontem, começaram os testes da captação no flutuante do Paranoá — esta deve ser a primeira obra de maior porte inaugurada no Distrito Federal desde o início dos anos 2000. O subsistema, feito em tempo recorde, será entregue um mês após o previsto pelo cronograma inicial. A estrutura encantou o governador Rodrigo Rollemberg durante visita na última quinta-feira.

Instalada na ML 4 do Setor de Mansões do Lago Norte, a construção da captação emergencial do Lago Paranoá ocorre sete dias por semana. Nos picos, 200 trabalhadores atuam no projeto. O sistema funciona em formato de ultrafiltração por membranas, modelo com uso crescente em situações emergenciais, devido à rápida instalação, que demanda pouca construção civil. “É uma solução clássica, porque, a grosso modo, basta colocar bombas no flutuador para a captação ser realizada. O risco de atraso era apenas nas questões administrativas e contratuais, que, felizmente, até o momento, não ocorreram”, avalia Oscar Cordeiro Netto, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo o professor, alguns materiais do sistema podem ser reutilizados para impedir que todo o investimento, liberado pelo Ministério da Integração Nacional, seja perdido. “As bombas podem ser reaproveitadas, e as plantas de tratamento podem ser usadas em outras situações”, indica Oscar.

Atraso


Com entrega prevista para outubro, o Subsistema Produtor do Bananal foi a primeira obra de enfrentamento à crise hídrica a sair do papel, em setembro de 2016. Um ano depois, o local está tomado pelas novas estruturas de ferro e concreto que rodeiam um córrego de água cristalina, que começa raso, mas cresce ao percorrer 19km até desaguar no Lago Paranoá. A expectativa inicial era de que a entrega ocorresse neste mês, mas acabou remarcada para outubro. Em 12 meses, 67% foi concluído. Agora, em menos de 30 dias, a Caesb espera finalizar os 33% restantes para não ter de alterar o cronograma novamente.

Com captação de 726 litros por segundo, o subsistema atenderá as regiões da Asa Norte, do Sudoeste, Cruzeiro e Noroeste, que, no total, servem de moradia para 200 mil pessoas. O investimento é de R$ 20 milhões, provenientes do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste, do Banco do Brasil. Executada pela Via Engenharia, a obra começou com o desvio do rio. Depois disso, serão construídas duas elevatórias de água. A primeira, próxima ao manancial, está em fase de conclusão. A segunda aguarda instalação de bombas e equipamentos elétricos. Segundo a Caesb, a captação está em fase de acabamento. Todos os equipamentos e materiais foram comprados e se encontram disponíveis no canteiro; por isso, a previsão de captação continua para o começo de outubro.

O professor Oscar Cordeiro conta que, diferentemente dos reservatórios do Descoberto e de Santa Maria, o Bananal não terá um barramento. A captação será feita em fio d’água, o que explica o córrego raso visto pela reportagem. “Em represas, a água não é tão corrente. Ela fica estocada e apresenta uma coloração mais esverdeada. No caso do Bananal, a captação depende de uma vazão. Sendo assim, em época de estiagem, não será possível retirar tanta água quanto na  época de chuva”, explica Oscar. Após a captação no córrego do Bananal, a água será bombeada para a Estação de Tratamento de Água Brasília.

Alerta pela manutenção

Em frente às bombas de tratamento do Lago Paranoá, Rollemberg anunciou que, com a conclusão dessa obra e da do Bananal e de Corumbá IV, o governo resolverá, de vez, a crise hídrica. “Estamos fazendo investimentos que ficarão para as futuras gerações de brasilienses”, disse. A entrega de dois dos novos subsistemas é aguardada para o próximo mês e, após a inauguração de Corumbá IV, prevista para o fim de 2018, especialistas alertam que, se não houver manutenção, os sistemas seguirão os mesmos passos do Descoberto. E uma nova crise hídrica vai se instaurar no DF em até três décadas.

O professor de engenharia civil do Centro Universitário Iesb Charles Almeida aponta que os primeiros sinais de problemas são visíveis há quase uma década: placas de venda de imóveis às margens do Corumbá IV. “No caminho para Goiânia, após Engenho das Lajes, identificamos muita água-pé nos rios, uma planta que demonstra a eutrofização da água, um processo que ocorre quando o recurso começa a receber muitos nutrientes, abaixando os níveis de oxigênio no líquido”, alerta.

A diminuição da vida útil dos reservatórios ocorre, principalmente, quando eles vão se tornando rasos, fenômeno chamado de sedimentação. “Começa com o assoreamento, que é o acúmulo de detritos no fundo dos rios. Com isso, ao passar dos anos, os reservatórios vão se tornando mais rasos, armazenando menos água e secando mais rápido”, detalha. Segundo Charles, para evitar que isso ocorra, é necessário vigilância do governo e conscientização da população. “Os órgãos precisam aumentar a vigilância e a punição contra a grilagem e o parcelamento de terras nas áreas de reservatórios, enquanto a população não deve comprar lotes irregulares nessas regiões”, conclui o professor.


Status de conclusão das atuais obras de captação do DF
80% 
Subsistema emergencial do Lago Paranoá

67% 
Subsistema do Bananal

60% 
Sistema Corumbá IV
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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Raimundo
Raimundo - 17 de Setembro às 10:46
Uma palavra: vergonha. Um país pantanoso captando água de um lago por incapacidade mental de desenvolver um projeto decente. Jeitinho Brasil. Letargia!
 
Wilson
Wilson - 17 de Setembro às 09:07
As obras do lago não atrasam porque o abastecimento é destinado a classe mais abastada do DF, a região dos lagos. Que se dane o pessoal que depende do corumbá e bananal. Aliás nunca vi uma palavra acerca da melhoria do sistema descoberto, poderia ser parecido com o sistema cantareira de SP, onde existem acima da captação principal vários lagos de captação, digamos uma reserva técnica da água desperdiçada na epoca das chuvas.