Envelhecimento da população do DF alerta para casos de Alzheimer

Médicos temem aumento substancial de casos. Faltam mecanismos de controle na rede pública e acompanhamento dos pacientes é falho

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/09/2017 08:00 / atualizado em 16/09/2017 20:38

 
A memória funciona como uma corrente. As pessoas se lembram de alguns elos e se esquecem de outros. A diferença, para os pacientes diagnosticados com Alzheimer, é a frequência com que os elos se rompem. Na capital federal, a tendência de aumento dessa doença neurodegenerativa é motivo de alerta para médicos. Alguns consideram que o mal é uma epidemia anunciada. A explicação está numa característica populacional que chama a atenção: o DF tem cada vez mais idosos. E a idade é um dos fatores de risco para a enfermidade. A estimativa é que os diagnósticos tripliquem, até 2050.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) avalia que o Alzheimer afeta 7,2% da população idosa. Em algumas capitais, como Brasília, o índice chega a 14%. Aos 60 anos, apenas 2% das pessoas têm a doença. A partir dessa idade, essa prevalência dobra aproximadamente a cada sete anos, a tal ponto que, aos 80 anos, 30% dos indivíduos tenham a doença e, aos 90, 50% a desenvolvam. Os dados serão lembrados na próxima quinta, 21 de setembro, Dia Mundial do Alzheimer, criado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para esclarecer e conscientizar as populações sobre o mal.

A preocupação dos médicos brasilienses  fica ainda mais evidente ao analisar os gráficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É que o índice de envelhecimento, ou seja, o número de pessoas de 60 ou mais, para cada grupo de 100 pessoas jovens de 15 anos de idade, está aumentando (veja Escalada crescente). Atualmente, 6,81% da população da capital tem 65 anos ou mais. Há 10 anos, em 2007,  eram 4,2%. Daqui a 13 anos, em 2030, segundo projeção do IBGE, esse número pode chegar a 11,68% da população.

A diretora científica de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Jerusa Smid, analisou o quadro da doença no DF a pedido do Correio. Para a especialista, o Alzheimer deve ser uma preocupação de saúde pública. “A população está envelhecendo e não se tem articulação de serviço público para prevenção e atenção desses pacientes”, afirma.

Jerusa tem razão. No Brasil, há falhas de informação e de registro de boa qualidade sobre dados de demências. O DF segue a mesma regra. A Secretaria de Saúde não dispõe de nenhum mecanismo que monitore a doença. “Os gastos com Alzheimer vão aumentar bastante, mas como fazer esse dimensionamento se as autoridades públicas não acompanham os casos?”, critica.

Equilibrar a oferta de serviços e a demanda é um cálculo delicado. Hoje, são cerca de 207 mil pessoas com mais de 65 anos — em 2030, serão 440 mil. Contudo, há apenas 16 geriatras atendendo na rede pública, segundo a Secretaria de Saúde. Em média, há um profissional para cada 12,9 mil idosos. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza três medicamentos para o tratamento do Alzheimer. Mas apenas 11 das 31 regiões administrativas contam com ambulatórios de geriatria. “Não estamos preparados para enfrentar essa nova realidade”, pondera Jerusa.

A Secretaria de Saúde admite que o quadro de geriatras é insuficiente, mas destaca que aposta em equipes com médicos de várias especialidades, como neurologistas e a psiquiatras,  para tratar os pacientes com demência. “Os geriatras estão distribuídos de forma que toda regional de saúde tenha cobertura de pelo menos um profissional”, explica a pasta, em nota. O texto oficial acrescenta que “o atendimento do paciente com demência e de sua família não se resume ao tratamento médico, mas sim ao acompanhamento por uma equipe interdisciplinar”.

"A população está envelhecendo e não se tem articulação de serviço público para prevenção e atenção desses pacientes"
Jerusa Smid, diretora da Academia Brasileira de Neurologia

Mudança


As mais recentes estatísticas populacionais da capital federal revelam como o perfil dos habitantes dos moradores da cidade tem mudado. Enquanto a população idosa cresce a passos largos, o número de jovens tem diminuído consideravelmente. Hoje, eles representam 32,5%. Daqui a cinco anos, em 2022, eles serão 28,8%. Em 2030, essa parcela da sociedade representará 25,5% da população do DF.


Sinais de alerta

Os pacientes afetados pelo mal de Alzheimer normalmente têm perda de memória, problemas com tarefas familiares, confusão com tempo e localização, mudança na personalidade, dificuldade para solucionar problemas, confusão com imagens e espaços, dificuldade com palavras, julgamento empobrecido, abandono de atividades sociais e perda de objetos.


Escalada crescente 

  Índice de envelhecimento em ascensão no DF *

2016     31,09

2017    33,29

2018    35,56

2020    40,23

2025    52,68

2030    68,07

* Índice de envelhecimento, ou seja, de pessoas com 60 ou mais, por grupo de 100 pessoas menores de 15 anos de idade.

Fonte: IBGE


Poucas certezas

Ainda há dúvidas sobre as causas do Alzheimer. Uma das certezas é que a genética é um dos fatores influenciadores. O sistema nervoso central produz uma proteína chamada apolipoproteína E (ApoE). Essa proteína tem algumas subformas, e a presença do alelo E4 do gene da apolipoproteína E (ApoE4) é considerada fator de risco elevado para o desenvolvimento da doença. Outros fatores, além da idade, são a presença de radicais livres (chamado stress oxidativo), diabetes, traumatismos cerebrais e elevação da homocisteína, um aminoácido presente no sangue que está relacionado com o surgimento de doenças cardiovasculares. No mal de Alzheimer, há uma redução importante do neurotransmissor acetilcolina.


Três perguntas para // Otávio Castello

Diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer

Por que os casos estão cada vez mais frequentes? 
 Em mais da metade dos casos, o fator de risco é a idade. Se eliminarmos os casos genéticos, eles representam apenas 7%. A cada sete anos, a partir dos 60 anos, dobra-se a probabilidade dos casos. Esse fator não tem como eliminar, a cidade está ficando cada vez mais velha. O Alzheimer é a mais comum, mas temos que ter atenção com todas as demências. A velocidade do envelhecimento populacional é muito maior em países em desenvolvimento. Mesmo para os fatores modificáveis, temos que ter políticas públicas mais eficazes.

Embora não exista cura, há tratamento?
A doença é pouco conhecida até mesmo no meio médico. A maior parcela dos pacientes não é diagnosticada na fase inicial. Quanto mais cedo, melhor será o tratamento. Os remédios minimizam os impactos da doença. Diminui o sofrimento da pessoa e de quem está em volta.

Existem políticas públicas para a população com demência?
Alguns países no mundo estão traçando planos para controle das demências. O Brasil nem sequer começou seu plano de demência. As iniciativas ainda são muito pequenas. Os atores que estão falando disso ainda estão começando a conversa. Não é que não exista ação implantada, não existe mesmo é a estratégia. As únicas coisas que existem são a Cartilha do Idoso e a disponibilização de alguns remédios. (OA)

Drama abala famílias

Quem convive com pessoas que têm Alzheimer sabe das dificuldades. Tarefas cotidianas e muito simples se tornam um calvário. A aceitação da doença também não é fácil. A costureira Rose da Silva, 73 anos, criou cinco filhos e sempre foi conhecida como uma mulher agitada. Essa realidade mudou há cinco anos.
Ninguém, na família, nunca desconfiou ou percebeu os sintomas. “Ela estava fazendo exames de rotina quando o médico suspeitou. É difícil, porque aos poucos tudo vai se perdendo ou se confundindo na memória dela. Ter dificuldades para reconhecer filhos ou netos é muito doído”, conta uma das filhas de Rose, a professora aposentada Nilcéia Moreno da Silva, 50 anos.
 
Para retardar o avanço dos danos e aprender a lidar com a doença, mãe e filha participam de um grupo de apoio. “Atualmente, ela tem assistido muito à televisão. Essa é uma das muitas coisas que mudaram”, conta Nilcéia. Hoje, os filhos e netos se revezam nos cuidados com Rose, que não abre mão de morar sozinha.
Rose não fala sobre a doença. Fica irritada quando perguntam. Nilcéia acredita que a resistência pode estar ligada à falta de campanhas e esclarecimentos sobre o mal. “As pessoas não conhecem a doença, e o preconceito prejudica médicos e pacientes”, pondera a moradora do Núcleo Bandeirante. (OA)
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.