Mesmo com chuva, volume da Barragem do Descoberto deve recuar a 18%

Esse é o pior nível da história. E deve piorar também no sistema Santa Maria. Caesb aposta em obras de captação e na ajuda da população

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postado em 24/09/2017 07:50

Ed Alves/CB/D.A Press

Após estiagem de mais de 120 dias, as primeiras gotas de chuva que caíram sobre o Distrito Federal, sexta-feira, estão longe de reverter a crise hídrica, que caminha agora para um capítulo mais grave. Em setembro, o volume da Barragem do Descoberto caiu, em média, 0,4 ponto percentual por dia. Se a vazão de água permanecer semelhante nas próximas semanas, terça-feira, os marcadores chegarão a 18%, o pior nível da história. Em 50 dias, o reservatório responsável por abastecer 60% do capital secará. Para piorar, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) espera chuvas abaixo da média histórica em outubro e um próximo trimestre sem temporais consideráveis.

No reservatório de Santa Maria, a situação é semelhante: 30,9% do volume total, o pior da história. Para reverter o cenário e evitar o colapso no abastecimento hídrico, Maurício Luduvice, presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), se apoia em três pilares: chuva, novas obras de captação e cooperação da população. Somados, os subsistemas do Lago Paranoá e do Bananal rendem 1,4 mil litros de água por segundo à disposição dos brasilienses. Porém, mesmo se o cronograma for mantido e as obras entregues nas próximas semanas, os subsistemas começarão captando apenas a metade do possível, 350 l/s cada. A vazão aumentará gradativamente nos 90 dias em que as operações serão assistidas pelas construtoras responsáveis.

Sem chuvas e novas captações, a responsabilidade volta a cair sobre a população. A ampliação do racionamento para, no mínimo, dois dias de corte, pode sair do papel em breve, basta os reservatórios do DF fecharem o mês abaixo do previsto pela curva de acompanhamento (veja quadro), criada pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa). Para evitar um possível caos, a Defesa Civil se prepara para a possibilidade de abastecer escolas, creches, asilos, presídios, hospitais e centros de saúde com caminhões-pipa caso o racionamento aumente para 48 horas.

Até dezembro, Luduvice afirma que as regiões do Guará I e II, Candangolândia, Núcleo Bandeirante e parte de Águas Claras, que atualmente são abastecidos pelo Descoberto, passarão para o Sistema Santa Maria. 

Problema antigo


“Pretendemos integrar todos os sistemas de abastecimento do DF, para que nenhum fique sobrecarregado. Além de investir em novas obras, estamos com trabalhos para reduzir as perdas de água da Caesb, mas para reverter a crise hídrica e se preparar para a próxima temporada de seca, precisamos de apoio da população”, conta Luduvice.

Um dos primeiros sinais da seriedade da crise hídrica ocorreu em novembro de 2016, quando o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) recomendou o estado de racionamento de água no DF — aviso acatado pelo governo só dois meses depois. O mesmo documento, porém, indicava que, se a situação se agravasse, o racionamento deveria ser ampliado, algo que ainda não ocorreu.

Ed Alves/CB/D.A Press


A promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente Marta Eliana de Oliveira acompanha de perto a situação hídrica da capital há décadas, e relata que houve um planejamento mal direcionado. “Nos anos 1990, as obras do Corumbá IV eram anunciadas e tidas como ‘água para 100 anos’. Mesmo com a execução começando apenas em 2011, o recurso de lá era considerado pelo governo há muito tempo. Sempre que pediam uma licença ambiental para um novo sistema habitacional, perguntavam à Caesb se tinha água e a companhia concordava, contando com os recursos de Corumbá. Assim, construiu-se uma realidade em que os nossos reservatórios não dão conta de abastecer a população”, observa.

A promotora critica a postura política das últimas décadas de apenas contar com a água que viria, sem se preocupar em cuidar da produção. “O governo começou a não cuidar dos nossos mananciais e nascentes. Se isso não for mudado, vamos ficar sempre buscando água mais longe quando uma captação secar. E deve levar-se em conta também o prejuízo financeiro disso. Vivemos em um planalto, a água de Corumbá IV, por exemplo, é bombeada para cima, e isso é algo que traz custos altos”, ressalta Marta Eliana.

Falta de planejamento


Antes dos anúncios de Corumbá IV nos anos 1990, a professora Marília Peluso, do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), lembra que na construção de Brasília, os engenheiros diziam que, devido à quantidade de água de rios e nascentes na região, a nova capital nunca teria problemas de abastecimento. “Isso me entristece muito, pois é o reflexo de uma falta de planejamento e de cuidado com as nossas nascentes. Não precisaríamos estar na situação atual, indo procurar água em outros estados”, afirma.

Segundo a professora, as chuvas dos próximos meses ainda não serão capazes de aumentar o nível dos reservatórios. “A água precisa infiltrar no solo, para só depois trazer alguma diferença nas réguas que medem o volume das barragens”, adianta. Devido à construção de residências próximas às áreas de nascente, Marília Peluso alerta para o sedimento dos rios e a perda na qualidade da água. “Os primeiros temporais carregam terra, entulho e poeira para os rios. Assim, a água fica barrenta, necessita de maior tratamento e demora para que o nível dos reservatórios suba”.

Memória
Recorde negativo
Até a semana passada, o pior momento da crise hídrica do Distrito Federal havia ocorrido em 13 de janeiro, quando o reservatório do Descoberto registrou 18,85%. Um dia antes do recorde negativo, a Caesb anunciava que, a partir de 16 de janeiro, 1,8 milhão de brasilienses passariam a enfrentar o racionamento de água. Passados oito meses, não há expectativa de quando a medida será finalizada.

Volume

19,7%
Percentual referente ao volume dos reservatórios do Descoberto em medição realizada ontem

30,9%
Nível da água na Barragem de Santa Maria ontem
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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Carmelita
Carmelita - 24 de Setembro às 10:05
Só lembrando um pequeno detalhe: Brasília foi planejada para 500 mil habitantes, não para 3 milhões. A partir de agora, as consequências virão sem piedade e sem misericórdia. E com o aquecimento do planeta, com o calor de 38 até 40º graus registrados nos termômetros de rua durante o verão da capital, associado à seca nos meses que deveria cair chuva e não cai, a situação só tende a piorar. Duvido que haja soluções para o longo prazo. DU VI DO!
 
Cristovao
Cristovao - 25 de Setembro às 18:16
Lembrando também, que graças ao governos populistas e socialistas (Roriz). Invadiram diversas regiões e permitiram essa enxurrada de favelas e ligações clandestinas.