Mãe social: profissionais cuidam de crianças em situação de vulnerabilidade

Correio acompanhou a atuação de cuidadores e mães sociais que trabalham diariamente para ser o anjo da guarda de quem mais precisa

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postado em 12/10/2017 08:00 / atualizado em 12/10/2017 09:50

Minervino Junior/CB/D.A Press


O que mais as crianças e os adolescentes em situação de vulnerabilidade querem neste Dia das Crianças é viver com amor e dignidade, mesmo longe de seus respectivos lares. A reportagem do Correio acompanhou a atuação de cuidadores e mães sociais que trabalham diariamente para ser o anjo da guarda de quem mais precisa. Um trabalho, combinado com carinho e afeto, que ultrapassa a data e alcança o ano todo.
 

Dentro de um grande lote em Ceilândia Norte, 70 crianças fizeram do Lar de São José a moradia. Em cinco casas internas e duas externas, 22 mulheres se revezam para atuar todos os dias do ano na nobre profissão de mãe social. Chamadas pela legislação de cuidadoras, para as crianças têm outro nome: são as “tias”. Entre as atividades diárias estão as de acordar as crianças, levá-las para escovar os dentes, acompanhar reuniões escolares, consultas médicas ou psicológicas, identificar quais precisam de roupas novas e descobrir o jeito correto de dar amor e carinho para cada uma delas.

Há vários tipos de mães, destaca a coordenadora Aline Ferreira. “Tem as mais carinhosas, as mais brincalhonas, as mais rígidas. E cada criança consegue se identificar melhor com um tipo delas”, conta. Atuando seis anos no abrigo, Rosileide Neves, 35 anos, se considera mais rígida. “Eles sabem que, pelo meu jeito, quando eu dou amor, é algo sincero e verdadeiro. As crianças precisam receber disciplina, ser educados, mas, ao mesmo tempo, precisam receber carinho e atenção”, conta. Já Rubia Moreira, 43 anos, se considera mais reservada. “Tive cinco filhos antes de atuar como mãe social. Meu dever é compartilhar com eles o mesmo cuidado e amor que dei para todos os meus filhos”, explica.

Cuidar de crianças que passaram por episódios de violência não é uma tarefa fácil. Devido aos traumas, muitas se tornam agressivas ou fechadas. Marta da Silva, 49 anos, lembra de um caso em especial que a tocou muito. “Era um menino que já havia passado por diversos lares,  muito bagunceiro. Quando chegou aqui, conversamos muito e mostrei a ele que agir com violência não era o caminho”, relembra. O resultado foi positivo. “Ao deixar o abrigo, era outra pessoa. Graças ao carinho e ao diálogo, conseguiu se abrir comigo e entender o modo certo de se expressar”, conta.

Cursos

Para atender as crianças, as mulheres passam por diversos cursos e treinamentos, mas, pelo menos no Lar de São José, não é necessário um tipo de formação específica. “Quando faço as entrevistas, a principal questão é saber se elas estão abertas afetivamente para cuidar dessas crianças. Treinamento e orientação elas podem adquirir com o tempo, mas o amor pelo que fazem, isso é algo que tem que vir delas desde o começo”, conta Aline Ferreira, a coordenadora.

O trabalho das mães sociais ocorre em esquema de jornadas, pois pelo menos duas cuidadoras devem estar sempre nas casas. Muitas acabam tendo que deixar para trás maridos, filhos e netos, para morar em outra casa e cuidar de novas crianças. É uma profissão difícil, que precisa ser estruturada com amor e compreensão ao próximo. “É uma relação de família. Temos que zelar por eles, principalmente na questão dos estudos. Não deixo, de jeito nenhum, faltarem aula ou não fazer atividade de casa”, afirma a tia Marta.

O momento mais prazeroso, e ao mesmo tempo difícil, acontece quando uma das crianças é adotada e tem que deixar o lar. “Não posso dizer que não dói, que não sofremos. A saudade aperta tanto que machuca, mas sabemos e explicamos para eles que aqui não é o lar definitivo, que eles precisam crescer e serem cuidados por uma família que fornecerá tudo que eles precisam”, diz Rosilene.
 
Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
 

Vovó do bem 

Se algumas cuidadoras preferem ser chamadas de mães ou tias, Vicky Tavares, 68 anos, quer ser conhecida como vovó. Atualmente, ela faz a boa e velha comida de avó para 23 crianças com HIV, mas, durante os 11 anos de atuação da ONG Vida Positiva, criada por ela, alimentou e deu carinho para mais de 100. “Criei o personagem da Vovó Vicky porque, quando nasci, minhas avós já haviam morrido. Meus amigos falavam sobre o quanto era bom ter uma avó, eu não sabia o que era isso. Então, decidi ser uma avó carinhosa e cuidadosa para todas as minhas crianças”, conta.

Vicky se considera uma agente transformadora. As crianças que chegam ao abrigo muitas vezes estão à beira da morte e passam por uma transformação. “São crianças que estavam abandonadas ou eram frutos de uma família disfuncional, que não tinha condições de dar o mínimo que elas precisavam. Ao chegar aqui, recebem amor, carinho, todos os remédios na hora certa, uma boa alimentação e a valorização da vida. Com isso, nossas crianças melhoram e chegam a ter uma carga viral indetectável, podendo ter uma vida normal”, celebra. Muitos que não conseguem adoção e ficam adultos podem continuar no lar, onde se tornam o anjo da guarda de novas crianças.

O pagamento de tanto amor, para Vicky, é imensurável. A vovó até decidiu se tornar mãe de duas crianças que atendeu na ONG, as adotando oficialmente. “Dar é melhor do que receber, mas sei que sou muito amada e um símbolo de carinho para eles. Amo assistir às crianças conversarem, interagirem, porque elas não têm preconceito, são puras. Se brigam uns com os outros, depois de cinco minutos, estão brincando novamente. Elas me ensinam diariamente que nós, adultos, temos muito o que aprender com as crianças”, completa.

É uma relação de família. Temos que zelar por eles, principalmente na questão dos estudos. Não deixo, de jeito nenhum, faltarem aula ou não fazer atividade de casa” Marta da Silva, mãe social

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