Máfia das Funerárias explorava a fragilidade das famílias para cobrar mais

Conversas telefônicas interceptadas pela polícia e pelo MP detalham a forma como agia a Máfia das Funerárias. O esquema explorava a fragilidade das famílias para cobrar valores mais altos por serviços como atestados de óbito

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postado em 04/11/2017 08:00

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


Desarticulada há 10 dias, a Máfia das Funerárias faturava com a dor de famílias em luto. Os integrantes do esquema de papa-defuntos adotavam táticas para fragilizar ainda mais as vítimas, como mostram áudios obtidos com exclusividade pelo Correio. Em um dos diálogos, o médico Agamenon Borges revela a um colega que orientou comerciantes a venderem “homenagens” em vez de caixões para garantir maior lucratividade. “Tem de fazer uma pressãozinha”, diz. E emenda: “Se você fica vendendo caixão, o povo raciocina caixão objeto, que vai para debaixo da terra. Se você vende homenagem, vai na emoção da pessoa”.


A conversa teve início quando um comerciante, identificado como Ítalo, afirma que fechou negócio com uma família por R$ 400. Insatisfeito com o preço, Agamenon reclama: “Ah, rapaz. Agora, você vai pagar o resto”. Ele rebate: “É porque a família lá é carente demais”. E escuta de volta: “Não. A família você só vai enterrar uma vez”. Agamenon acrescenta que se deve destacar a burocracia enfrentada no Instituto de Medicina Legal (IML) para convencer as vítimas a recorrerem às funerárias. “Eu quero a melhor coisa para a minha mãe. Aí, em vez de você vender por R$ 1,8 mil, vai vender por R$ 5,8 mil”, complementa.



Com a deflagração da Operação Caronte, Agamenon Borges e outras nove pessoas foram presas — duas estão foragidas. Os investigadores detalham a atuação de uma máfia que interceptava a frequência de rádios de comunicação da polícia em busca de informações sobre mortes naturais comunicadas às delegacias. Várias ligações telefônicas acompanhadas por policiais e promotores mostram as investidas da associação criminosa. Abordagens em cartórios e hospitais também ocorriam graças à cooptação de funcionários desses estabelecimentos.



O modelo de atuação adotado por Agamenon, de fato, era seguido à risca por funcionários de funerárias. Nos autos do inquérito, há um diálogo em que a vítima intitulada Jean afirma que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não conseguiu identificar a causa da morte do sogro; por isso, seria “importante para a família saber o que aconteceu”: se houve negligência dos hospitais por onde o idoso passou ou se, realmente, aconteceu um AVC. O acusado de liderar o esquema, Cláudio Barbosa Maciel, também preso, contra-argumenta: “Aí, fica a critério de vocês, né?! Porque se o corpo for vir para o IML, vai ser necropsiado e sairá a causa mortis. Mas, se o médico for atestar o óbito, ele também vai avaliar o estado do corpo”.



Em outro trecho, Cláudio conversa com o filho de uma mulher recém-falecida. Após ouvir que ela tinha 87 anos e sofria de problemas de pressão, responde: “Oh, meu Deus do céu. Ir para o IML é até uma covardia”. “A nossa funerária tem um médico que atesta a morte”, investe, até obter o aval da vítima para proceder com o recolhimento do corpo.

Pelo golpe, os acusados podem responder por associação criminosa, estelionato, crime contra o consumidor e falsidade ideológica. A Operação Caronte é conduzida pelo Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial (Ncap), pela 4ª Promotoria de Defesa da Saúde (Prosus) e pela Promotoria de Defesa dos Usuários da Saúde (Provida), em parceria com a Corregedoria-Geral da Polícia Civil do DF.
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