Volta das chuvas não tem impacto imediato no volume dos reservatórios do DF

Chuva abaixo da média histórica, impermeabilização do solo e queimadas dificultam o encharcamento do solo e, consequentemente, o abastecimento

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postado em 05/11/2017 08:00 / atualizado em 05/11/2017 10:58

Breno Fortes/CB/D.A Press - 10/10/17

 
Após quase quatro meses de seca total, a volta das chuvas ainda não trouxe o alívio na crise hídrica que o brasiliense esperava. O nível dos reservatórios que abastecem o Distrito Federal continua baixo, chegando a situações caóticas, com o Descoberto beirando os 6% do volume total. O Correio ouviu especialistas para explicar qual o ciclo que a chuva percorre até chegar aos reservatórios. A expectativa é que o caminho entre os lençóis freáticos e as bacias hidrográficas demore pelo menos um mês para ser concluída. O problema é que, além de faltar água para aguentar esse período, um novo veranico é previsto pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para ocorrer entre 20 de novembro e 10 de dezembro.

Para o trimestre entre novembro e janeiro, segundo o Inmet, a expectativa é de que chova cerca de 40% acima da média histórica. O problema é que as precipitações devem ocorrer em intervalos específicos, como nas próximas duas semanas, na última quinzena do ano e em janeiro de 2018. Se as previsões se concretizarem, a possibilidade de ampliação do racionamento aumenta muito (leia Memória)tendo em vista que as próximas ações de enfrentamento à crise hídrica divulgadas pelo governo — o uso do volume morto do Descoberto e o início da captação em Corumbá IV —, na melhor das hipóteses, só sairão do papel em janeiro e dezembro de 2018, respectivamente.

Neste ano, choveu apenas 39% do que era esperado para a região do Descoberto (Veja “Estiagem 2017”). As mudanças climáticas do DF, como a alteração entre o período chuvoso das próximas semanas e o veranico do fim do mês, ocorrem devido à formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul. “Esse fenômeno é caracterizado por uma banda de nebulosidade, que começa na área amazônica, e se liga, agora, com uma frente fria vinda da região Sudeste. Acontece que o DF se encontra dentro desse corredor, o que traz essas alterações no clima”, explica Ingrid Peixoto, meteorologista e consultora do Inmet.
 
Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos - Adasa
 

Para o ecossociólogo Eugênio Giovenardi, a demora para o aumento e a estabilização do nível dos reservatórios é explicada pela escassez de chuvas no mês que passou.  “A chuva que cai em outubro é muito importante, pois é ela quem se infiltra no subsolo e atua na recuperação do volume dos reservatórios mais rapidamente”, afirma. Acontece que, no mês passado, choveu apenas 15% do esperado no DF. Foram 25,4 milímetros, bem abaixo dos 166 milímetros da média histórica.

Entre janeiro e outubro deste ano, 15.865 hectares de vegetação foram destruídos por incêndios florestais no DF. Isso também tem um impacto direto na demora do aumento do nível dos reservatórios. O fogo faz com que o chão fique ainda mais seco, intensificando a evaporação de água armazenada no solo. “É como se os poros da terra fossem fechados. Quando volta a chover, a água demora mais tempo para infiltrar, pois o recurso tem que abrir espaço novamente”, conta Eugênio.
 
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 
Percurso 
 
Para que o volume de água do Descoberto e Santa Maria/Torto aumente, não basta chover sobre o reservatório. Na verdade, o impacto do que cai diretamente no espelho d’água é quase insignificante. Exemplo disso é que, mesmo com precipitações ocasionais ocorridas desde 27 de setembro, apenas na última sexta-feira, o nível do Descoberto subiu apenas 0,3 ponto percentual.

Especialista em recursos hídricos, o professor Sérgio Koide, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília conta que os principais fornecedores de água para os reservatórios são os lençóis freáticos.“O recurso que vai molhando aos poucos o solo serve para abastecer os reservatórios durante as estiagens. Sem isso, só teríamos água na época da chuva”.

Devido à ocupação humana, esse trajeto vem sendo interrompido. “Se você pavimenta uma estrada, o recurso não infiltra e escorre direto para bocas de lobo ou rios próximos. Por isso, a importância da preservação de áreas de proteção próximas aos reservatórios, para que a chuva possa chegar ao subterrâneo”, afirma Koide.

Em Vicente Pires, por exemplo, o plano original do governo era criar uma colônia agrícola com chácaras que abasteceriam o DF de legumes, verduras e hortaliças. Quando chovesse na região, a água chegaria aos lençóis freáticos que abastecem o Lago Paranoá durante todo o ano. Porém, devido ao parcelamento irregular de terra, o solo foi impermeabilizado e nascentes foram destruídas.

Hoje, quando chove na região, as pistas alagam, causando caos para a população. “Diferente do que foi planejado, agora, em Vicente Pires, a água até pode chegar aos córregos que abastecem o Lago Paranoá, mas é um recurso bastante impuro, com resquícios de lixo e esgoto”, afirma Koide.
 
Antonio Cunha/CB/D.A Press
 

Sobre a construção de casas e edifícios em regiões próximas aos córregos, a professora Marília Peluso, do Departamento de Geografia da UnB, alerta também para o sedimento dos rios. “Obras geram poeiras vindas dos materiais. Isso pode ser levado para os córregos pelo vento ou pela chuva. Os primeiros temporais carregam terra, entulho e poeira para o fundo dos rios que, com o tempo, vão ficando mais rasos”, explica.

Previsão

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) faz diversas previsões climáticas por dia. Quando ela é realizada para um período de até quatro dias a partir do prognóstico, o índice de acerto é de 97%. Quanto mais distante é a data, maiores são as chances de erro.
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João
João - 06 de Novembro às 05:06
Existe um ditado que diz que Os justos irão pagar pelos pecadores. E vejo que sempre será dessa forma, pois o que vejo de sem noções utilizando a água de forma irresponsável e não estão dando a mínima para a gravidade da situação. Mas fazer o quê se o próprio estado não cria uma lei de punição para tais situações. Denunciar é uma coisa, agora obter o resultado dessa denuncia do estado é outra coisa.