Corpo de jovem morta com 11 tiros em Alexânia será enterrado hoje

Mascarado, jovem de 19 anos pulou o muro de colégio estadual, no Entorno do DF, e disparou 11 tiros à queima-roupa na estudante. Tudo porque, segundo ele, a menina não queria namorá-lo

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postado em 07/11/2017 06:00 / atualizado em 07/11/2017 06:44

Reprodução/Facebook


Raphaella Noviski morreu aos 16 anos
, com uma saraivada de tiros, a maioria no rosto, dentro da sala de aula, por evitar um relacionamento com um vizinho. Em uma tentativa de justificar a barbárie, Misael Pereira Olair, três anos mais velho, recorreu à rejeição. Aos investigadores disse, sem remorso, que o amor se transformou em ódio. Nutrido de tal sentimento, passou um ano planejando o fim da adolescente. Juntou R$ 2,3 mil, o suficiente para comprar um revólver calibre .32 e a munição. Decidiu agir na manhã de ontem.

Pouco depois das 7h, Misael pulou o muro de 1,5 metro de altura do Colégio Estadual 13 de Maio, onde havia estudado. Localizado em um bairro de classe média, com 400 alunos, é a segunda maior instituição de ensino de Alexânia, cidade goiana do Entorno distante 91km de Brasília. Uma escola sem histórico de violência em um município, até então, sem registros de casos graves em ambiente escolar.

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Com a máscara toda branca no rosto, a arma na cintura e à procura de Raphaella, estudante do 9º ano do ensino fundamental, Misael invadiu a sala do 9º ano B, a primeira do corredor. A professora o expulsou. Sem reconhecer o jovem mascarado, ela pensou se tratar de uma brincadeira. Misael entrou na segunda sala, a do 9º ano A, quando a professora de geografia fazia a chamada e todos os estudantes estavam sentados.

Ao verem o jovem armado, cerca de 30 alunos saíram correndo. Sentada na última fila, Raphaella ficou acuada. Ao vê-la, Misael, já com a arma na mão direita, se aproximou. Sem nada dizer, a cerca de meio metro da estudante, deu seis tiros à queima-roupa, com o cano do revólver apontado para o rosto da menina. Recarregou a arma e fez mais cinco disparos, quando Raphaella agonizava. O atirador correu para os fundos da escola e pulou o muro novamente.

Do lado de fora, havia um Ford Escort à espera dele. Ao volante, um amigo, o comerciante Davi José de Souza, 49 anos. Mas ambos só conseguiram andar por 300 metros. Acionados assim que Misael foi visto armado no colégio, policiais militares cercaram a instituição. Eles abordaram e prenderam a dupla em flagrante. Não houve reação. No caminho para a delegacia, sem demonstrar remorso, Misael falou aos militares sobre a motivação do crime. Repetiu a versão em depoimento filmado à delegada Rafaela Azzi.

Rede social


O assassino confesso e a vítima moravam no mesmo bairro e se conheciam havia cinco anos, mas nunca foram amigos. Misael se apaixonou pela adolescente. Em uma das tentativas de conquistar a menina, ele pediu para fazer parte da rede de amigos dela no Facebook, mas Raphaella não respondeu. Ele, no entanto, não desistiu. Chegou a ir à casa da garota, com um presente, mas não teve “coragem” de entregar a ela, que no momento cuidava da avó adoentada. Sem realmente saber se a menina queria algo com ele, passou a se sentir rejeitado. A cada recusa, o jovem sentia mais raiva, a ponto de trocar as investidas pela premeditação do assassinato.

Amigos e familiares da vítima contaram que Misael a ameaçava constantemente, mas a garota nunca contou nada aos pais, tios e educadores. "Ele já a ameaçava desde o ano passado. Quando foi hoje (ontem) cedo, ela recebeu uma ligação e ouviu: ‘Está preparada?’. Aí, logo em seguida, ele desligou", relatou uma prima da menina, também estudante do 9º ano.

Além da máscara, do revólver e de seis balas intactas, os PMs apreenderam com Misael uma faca e uma garrafa plástica com um líquido vermelho. À delegada, ele afirmou que era veneno e que pretendia beber tudo após executar Raphaella. “Misael disse que havia pensado em suicídio. Para isso, procurou na internet a combinação que resultaria em um veneno potente. Ainda, admitiu que daria um disparo de arma de fogo contra ele mesmo”, contou Rafaela Azzi.

"Propriedade"

 
Misael afirmou ter feito 11 disparos, mas se recusou a falar sobre a origem da arma, que contou apenas tê-la comprado há três meses. Até a noite de ontem, nem a PM nem a Polícia Civil haviam identificado a procedência do revólver. Mas a delegada deu o caso por encerrado. Ela decidiu indiciar o rapaz por feminicídio. “Por se tratar de uma situação de gênero, por visualizar a mulher como propriedade, ele tirou a vida dela. Atirou no rosto de uma menina que não quis relacionar-se. Vê a desqualificação da mulher”, explicou Azzi.

Já Davi José de Souza deve responder processo por favorecimento pessoal ou pelo mesmo crime que o atirador, pois, segundo a delegada, ele deu carona ao suspeito até a escola, agindo como comparsa. Advogado de Davi, Joel Pires de Lima alegou que o cliente é amigo da família de Misael e não sabia da intenção do jovem.

Lima sustenta que o cliente até desconhecia que Misael carregava uma arma, uma faca, uma máscara e um frasco de veneno. “Ele (Davi) me contou que o Misael apenas pediu para levá-lo à escola, onde pegaria um documento. Também pediu para esperá-lo. Quando viu um rapaz mascarado e armado correndo, achou que era um assalto. Não reconheceu o Misael. O mascarado entrou no carro e disse: ‘Sai daqui senão eu atiro, sai da cidade’”, ponderou o advogado. Lima garantiu que o cliente ainda tinha a intenção de encontrar um carro da PM e entregar o passageiro.

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Em depoimento, Misael eximiu Davi de qualquer culpa. Garantiu que não falou sobre o seu plano para ninguém. Ambos não tinham antecedentes criminais. Após serem interrogados, foram levados para o presídio de Alexânia.

Velório e enterro

 
O exame realizado no IML de Anápolis, para onde o corpo foi levado após perícia na escola, apontou 11 perfurações “de entrada” em Raphaella, sendo a maioria na cabeça, além de uma no tórax. Também havia marcas no antebraço e nas duas mãos da vítima, o que, segundo os legistas, caracterizava que ela tentou cobrir o rosto para se defender.

Ed Alves/CB/D.A Press
No entanto, não foi possível afirmar que a adolescente levou 11 disparos. Os responsáveis pela necropsia explicaram que um ou mais projéteis podem ter atingido mais de duas partes do corpo da menina. O laudo diz que a causa da morte foram lesões e hemorragias encefálicas, provocadas pelos tiros.

O velório de Raphaella começou às 18h30 de ontem, na igreja Assembleia de Deus Madureira, no centro de Alexânia. O enterro vai ser realizado hoje, às 10h, no Cemitério Municipal Campo da Saudade.
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 
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