Livro conta a história de Glorinha e do Lar da Criança Padre Cícero

A casa da vida conta a história de uma pernambucana abandonada ainda bebê que, mais tarde, criou uma instituição em Taguatinga onde deu abrigo a mais de 2,5 mil crianças

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postado em 07/11/2017 06:01 / atualizado em 06/11/2017 23:14

Reprodução/Internet

Órfã, iletrada, nordestina. Maria da Glória Nascimento de Lima tinha tudo para ser só mais uma estatística dolorosa. Nascida em 1945 na cidade de Buíque (PE), Glorinha, no entanto, quis fazer diferente. Mais do que fugir da sina cruel, ela decidiu lutar para que outras pessoas pudessem ir além e não sofressem com os mesmos dramas.
 
Mesmo sem ter condições para isso, abriu as portas, ainda nos anos 1980, da própria casa para crianças e adolescentes que viviam nas ruas do Distrito Federal. Em 1984, fundou em Taguatinga o abrigo Lar da Criança Padre Cícero, por onde passaram mais de 2,5 mil pessoas.   

"Tudo o que acolhe é casa." A frase de Glorinha, cheia de poesia, é uma síntese da batalha constante para dar um lar a quem, infelizmente, não pôde ter. A história dela (cheia de reviravoltas, superação e, por que não?, bom humor) ganha também agora um lar em A casa da vida, livro da psicóloga e escritora Adriana Kortlandt.

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A obra, que será lançada hoje, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, é um retrato da trajetória sofrida de Glorinha e, sobretudo, da sua capacidade de superação e resistência. “O foco do livro é a vida. A construção da vida depois de uma situação trágica”, explica Adriana.

Nas 326 páginas, é a voz de Glorinha, entre a velhice e a infância, que conta detalhes de cada parte do caminho percorrido por ela. “A gente desenvolveu uma cumplicidade muito bonita. Ela é uma contadora de histórias muito boa, eu estava com a voz da Glorinha muito forte em mim. Então, pedi licença a ela para escrever na primeira pessoa e, de certa forma, eu me vesti dela”, conta Adriana Kortlandt.

Encontro

Uma tragédia foi responsável pela situação em que as duas se conheceram. A morte de um filho adotivo por assassinato fez com que Glorinha se fechasse. Psicóloga, Adriana foi chamada por uma amiga em comum para conversar com Glorinha. “Ela se trancou no quarto e não queria sair de lá”, lembra a escritora.

Dias depois, Adriana voltou e encontrou Glorinha refeita. A casa estava em alvoroço porque um novo bebê tinha chegado ao local. “Ela resgatou uma criança do lixo e estava cuidando dela.” A psicóloga levou como presente um livro sobre luto, que Glorinha recusou por não saber ler. “Isso me marcou, fiquei muito intrigada em ver como uma pessoa com tanta capacidade de administrar e gerir não sabia ler”, lembra.

O momento foi marcante para Adriana. Ali, sentiu que precisava escrever um livro sobre aquela história. “Desde o dia que eu fui lá e vi aquele bebê, vi o engajamento dela e a vontade imensa de dar um futuro melhor para as pessoas, eu tive a vontade de escrever.”

Recusa

Glorinha não gostou da ideia de ter um livro com a sua história. Ela relutou por muito tempo até concordar com o projeto. “Eu lutei a vida inteira para não me expor, para não ter placa ou rótulos. E foi também uma coisa muito íntima, contar esses fatos era como me despir e lembrar de problemas angustiantes”, explica.

Além disso, Glorinha acreditava que a história não tinha relevância. “Eu não achava que as pessoas iriam querer saber disso com tanta coisa importante por aí”, diz. “Ela se convenceu quando mostrei que o foco era a superação, a parte boa de tudo”, acrescenta Adriana.

Agora, com o livro pronto, Glorinha concorda com a visão da escritora. “Foi bom fazer esse livro, porque tem muita coisa de superação. Hoje, há muita gente falando coisa ruim, falando do mal. Então, a gente mostra que é possível ajudar e, se não dá para mudar tudo, dá para melhorar o que está ao redor de nós, dá para transformar vidas e multiplicar o bem”, comenta.

Depois de tanto tempo à frente de projetos sociais, Glorinha acredita que, ainda assim, foi muito mais ajudada do que ajudou. “É tão bom fazer o bem que você não pode parar. As pessoas que fazem trabalhos como o meu sabem o que eu estou  falando. Você ganha muito mais do que dá”, reflete.

“E tudo o que eu fiz não é nada diante da imensidão de necessidades que temos por aí”, sustenta, com a modéstia que lhe é característica. A vontade de trabalhar pelo bem continua viva, garante Glorinha, e ela vai continuar firme enquanto viver. “Eu vim para servir e no servir a gente está sempre pronto.”

Duas perguntas / Glorinha

Hoje, depois de todo esse tempo, como a senhora se sente sabendo que ajudou e mudou a vida de tanta gente?
Eu ajudei mais a mim. Fui criada sozinha, então, fui agregando pessoas também para não sofrer e para elas não passarem o que eu passei, para buscarem uma vida que seja realmente delas. Muitas pessoas boas também me ajudaram no caminho. Elas fizeram essa história acontecer de uma maneira bem melhor.

Contar essa história fez a senhora ver algo de maneira diferente?
Não. A minha vida continua a mesma. Mas eu me senti mais realizada, tirei a angústia de muita coisa que estava dentro de mim. Só tenho mais vontade de fazer o que eu tenho que fazer.

Trecho do livro “A infância nunca nos deixa"
A menina que fui vive ao meu lado, companheira, conselheira ou sombra. Olho para trás e sei que tudo o que fiz pelas crianças e suas famílias é fruto de duas intenções entrelaçadas. Primeiro, para que a infância pudesse existir em suas vidas. Infância aconchegada. Depois, por minha causa, por minha menina e seu quase impossível começo neste mundo. Agora que estou velha e encaro a morte com o respeito que ela merece, a menina ficou ainda mais presente. Parece até que estamos fazendo um acerto contábil. No final das contas, foi ela quem me instigou a agir. O tempo todo, a menina junto.”

A casa da vida
Adriana Kortlandt. Tagore Editora. 326 páginas. R$ 59,90. Lançamento hoje a partir das 18h30 no mezanino da Ala Sul do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. 
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