W3 Sul enfrenta pior momento, com o abandono e falta de segurança

Ao todo, 149 lojas estão de portas fechadas. As causas mais comuns da evasão são os alugueis altos, a queda nas vendas e a falta de estacionamentos

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 10/11/2017 06:00 / atualizado em 10/11/2017 08:17

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


Considerada, por muito tempo, o primeiro shopping de Brasília, a W3 Sul enfrenta um dos seus piores momentos. A avenida, que há algumas décadas se dividia entre lojas de artigos de departamento — como as extintas Bi Ba Bô, Fofi Magazine e Lojas Pernambucanas — bancos, autopeças e até mesmo cinemas de rua, vive o retrato do abandono. Vias esburacadas, calçadas sem manutenção, prédios pichados e casos constantes de arrombamento têm assustado comerciantes e afastado clientes.  
 

De acordo com o último levantamento do Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal (Sindivarejista), 149 lojas estão de portas fechadas. As causas mais comuns da evasão são os alugueis altos, a queda nas vendas e a falta de estacionamentos. “A migração de grandes lojas para Brasília também contribui para essa evasão. Como elas oferecem preços bem mais baixos, fica inviável para o comércio local competir”, explica Edson de Castro, presidente do Sindivarejista.

A aposentada Carla Cruz Gouveia, 62 anos, chegou à capital com 7 anos de idade e viveu os dias de ouro da primeira avenida de Brasília. “Meus pais vieram pela Fundação da Casa Popular para ajudar na construção das primeiras casa de Brasília. A avenida foi crescendo devagar, as primeiras lojas de que me lembro eram a Pioneira da Borracha e o Restaurante Roma. Com o tempo, a região virou uma espécie de mercado local, onde se encontrava de tudo”, destaca.

Cinemas


Além do comércio, a avenida também oferecia uma série de opções para o brasiliense. “Era um verdadeiro ponto de encontro. A gente ia muito ao Cine Karim e ao Cine Cultura. É uma tristeza ver como a W3 está acabada, tudo fechado”, lamenta dona Carla.

Para ela, a sensação de insegurança também afasta quem vem de fora. “A gente vai porque é o comércio perto de casa, basta  atravessar a rua que está lá, mas acho que é bem difícil alguém sair da sua cidade para poder comprar aqui na W3. Policiamento é muito raro de ver. Fui assaltada na porta de casa e hoje não me sinto mais segura”, completa.

A insegurança também é constatada pelos comerciantes. Dono do Sebo Cultural Fortaleza, na 511, Carlos Araújo, 49 anos, mais conhecido como “Barata”, reclama que o movimento não é mais o mesmo de antes. “Meu pai abriu essa banca em 1960 e, no começo, parecia um formigueiro, cheio de gente. Tanto que ele costumava fechar bem tarde. Hoje, como não tem público, a maioria dos comerciantes fecha às 18h e quem fica aberto acaba dando sopa pra malandragem”, conta. “A W3 era o shopping de Brasília, tanto que o pessoal transitava até as 23h. Hoje, se você passear pela W3 à noite, tem grandes chances de ser assaltado”, completa.
 
 
 
No mesmo ponto há mais de 23 anos, o chaveiro Luis Vilarinho, 47, nunca foi assaltado aqui, mas reclama da falta de infraestrutura. “Fui assaltado em outro local e já vi gente sendo roubada aqui no beco, mas, felizmente, nunca tive problemas onde trabalho. A quadra é ótima, tem muita loja aberta ainda, mas dependendo da hora fica perigoso, principalmente porque nesse ponto não tem muita iluminação”, conta.  

A Polícia Militar do DF informa que tem intensificado o patrulhamento na W3 Sul, com operações específicas na área. Segundo dados da corporação, os roubos na região diminuíram 47% e os furtos, 40%, quando comparados ao primeiro semestre de 2016. A PMDF ressalta ainda que conseguiu reduzir o número de homicídios, atingindo o menor patamar desde 2002 e que, no mês de setembro, todos os crimes patrimoniais também tiveram redução. Mas a sensação de insegurança continua.

Só no papel


A Secretaria de Estado de Gestão do Território e Habitação do Distrito Federal (Segeth) informa que um projeto de revitalização para a W3 Sul está pronto desde 2009. Dentre as propostas estão melhorias no espaço público e novas formas de gestão urbana com participação da sociedade. A proposta ainda deve ser submetido à Câmara Legislativa.

O órgão também desenvolveu um piloto de requalificação do espaço público para a W2 e W3 Sul. O objetivo é realizar reformas de melhoria na infraestrutura das quadras 511 e 512 para, depois, ser estendido para toda a avenida. Assim que for aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o modelo será implantado e disponibilizado para aplicação em outras quadras.

Com relação às calçadas, a Novacap explica que há um processo licitatório em andamento para construção, reforma e manutenção de 465 mil metros de calçadas em todo o Distrito Federal. A expectativa do órgão é de que a licitação seja publicada ainda este semestre. O investimento total é de R$ 54 milhões.


Perfil 




O símbolo da avenida

 
A convite de um amigo, ele veio para Brasília. Quando chegou, a capital federal estava a ponto de se tornar mais do que simples linhas nas pranchetas do arquiteto Oscar Niemeyer. Nas paredes do escritório, fotos posadas com algumas das mais importantes personalidades políticas da história do Brasil dividem espaço com diplomas variados, medalhas de honra ao mérito e até mesmo um certificado de cidadão honorário de Brasília.

Dono da Pioneira da Borracha, uma das lojas mais antigas da W3 Sul, o mineiro Hely Walter Couto, 92 anos, luta há aproximadamente cinco décadas pela revitalização da única avenida da capital. No local desde 1958, quando abandonou uma locação de madeira no Núcleo Bandeirante para dar o pontapé inicial no comércio local, ele lembra, saudosista, dos carnavais que enchiam o local de vida, dos encontros com os amigos e dos passeios por outros estabelecimentos que apostaram no comércio brasiliense.

Com um relato tão detalhado, Couto sonha com a volta dos anos de ouro da avenida. “Resolveram fechar os estacionamentos e criaram os shoppings. As lojas foram fechando, algumas migraram para outras cidades, e a W3 acabou ficando cada vez mais abandonada.”

A solução, para o pioneiro, é simples: basta padronizar a altura e formato das edificações, construir novos prédios e ocupar as praças públicas com áreas de esporte, restaurantes e até mesmo uma fonte luminosa. Além disso, é necessário pintar a fachada das lojas, arrumar as calçadas e investir no reflorestamento de determinadas partes da W3 Sul. O projeto, que foi apresentado a todos os governadores eleitos, ainda não tem data para sair do papel.

Incansável, Hely garante que a revitalização “consagraria a gestão de um governador e ajudaria a reabrir muitas lojas”. Para financiar as obras, ele sugere uma contribuição em dinheiro de cada um dos comerciantes. “Hoje a avenida está completamente abandonada”, lamenta o homem da W3.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.