Sentimento de posse provoca feminicídio, dizem especialistas

Contrariando o assassino confesso, que alegou rejeição para matar estudante, especialistas dizem se tratar de um clássico caso de sensação de superioridade sobre a vítima

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postado em 12/11/2017 08:00

“Eu tenho ódio dela”, afirmou, friamente, Misael Pereira Olair que, aos 19 anos, executou Raphaella Noviski, 16, dentro de uma sala de aula com 11 tiros no rosto, há uma semana. Mas, por que tanto ódio? O que leva uma pessoa a tirar a vida de outra de forma tão brutal por, simplesmente, se sentir rejeitado? Para especialistas em antropologia e sociologia, casos como esse têm relação com a sensação de superioridade e, ao mesmo tempo, de isolamento.

Misael está preso preventivamente pelo crime de feminicídio. A delegada responsável pelo caso, Rafaela Azzi, entendeu que o assassino matou por uma situação de gênero, por visualizar a mulher como propriedade. A investigadora ainda contou que o plano dele era se matar em seguida bebendo uma combinação que resultou em um potente veneno.

Na avaliação da professora de antropologia Lia Zanotta, da Universidade de Brasília (UnB), Misael se considerou superior à vítima. “Ele descarregou toda sua frustração, crises e falta de valores. A falta de rumo e o vazio fazem parte de um momento social complicado que afeta todos nós. Mas ele (Misael) partiu de um dos sentimentos mais negativos, de que mulher tem de ser controlada, obediente. Raphaella, segundo ele, deveria percebê-lo como homem”, explica.

Também presidente da Associação Brasileira de Antropologia, Lia esclarece que há uma cultura de os homens acharem que as mulheres estão sempre disponíveis em uma relação afetiva. Por isso, o sentimento de posse, controle e autoconfiança masculina se torna latente. “O homem quer mostrar que é o máximo. O masculino é concebido como se a mulher precisasse dar todo prestígio a ele e que o obedecesse. Nesses casos, elas são colocadas como subordinadas e a vontade do homem precisa prevalecer”, comenta.
A professora enfatiza, no entanto, que nem todos pensam dessa forma, mas é importante combater quem ainda resiste a esse pensamento. “Homens e mulheres são iguais e cada um precisa cuidar da sua completude e incompletude. A questão social está acirrando a perda de estima desses homens que acham que podem e devem controlar suas mulheres, quer eles tenham sucesso, quer estejam fracassados”, analisa.

Atrocidade

Antropólogo e professor de direito do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Rodrigo Augusto Lima de Medeiros explica que não se pode justificar o ato do jovem como vítima da sociedade, mas sim um comportamento tão brutal que pode ter relação com o sentimento de abandono e não pertencimento. “Com isso, faz com que o indivíduo não veja a atrocidade que ele comete. Para poder contextualizar efetivamente o caso, é importante compreender o processo de socialização desse jovem na família, na escola e na comunidade”, destaca Rodrigo.

Por não aceitar a recusa da adolescente de 16 anos em namorá-lo, Misael planejou o crime por um ano. Na manhã da última segunda-feira, vestido com uma blusa de capuz e com uma máscara no rosto, o assassino confesso de Raphaella pulou o muro do Colégio Estadual 13 de Maio, onde a vítima estudava, entrou na sala dela e a matou a sangue frio. A maioria dos tiros acertou a cabeça da garota.

Para o especialista, saber onde o jovem está inserido e que nível de instrução teve também ajuda a compreender a ação brutal a partir de um contexto mais amplo, como o de pouco amparo e cuidado. Misael abandonou os estudos no 8º ano do ensino fundamental, em 2016, aos 18 anos, quando teria de ter terminado o ensino médio. Era visto como um “aluno problemático” pelos outros colegas, além de calculista. Calado e de pouco contato com outras pessoas, inclusive com a família. Depois de largar os estudos, Misael não conseguiu emprego. Chegou a pedir para uma tia, comerciante da região, mas ela não tinha como recebê-lo. Misael também não morava com os pais.

De acordo com o antropólogo, uma educação construtiva e que potencializa a qualidade dos indivíduos poderia ser uma saída para a prevenção desse tipo de crime, além de diminuir uma atitude isolada. “Não seria 100% garantido que isso ocorresse, mas se tivéssemos uma rede de proteção social, de amparo, voltado para escola e para a comunidade, seria um fator que ajudaria a inibir esse tipo de ação”, ressalta.

Entenda o caso


Executada com 11 tiros

A barbárie contra a estudante Raphaella Noviski, 16 anos, aconteceu na manhã de 6 de novembro. A vítima foi morta no Colégio Estadual 13 de Maio, em Alexânia (GO), com 11 disparos no rosto. Assassino confesso, Misael Pereira Olair, 19 anos, alegou ter planejado a morte da adolescente após ser rejeitado pela menina. Segundo a investigação, ele arquitetou o crime durante um ano e comprou o revólver por R$ 2,3 mil.

Logo após executar Raphaella, Misael tentou fugir, mas acabou preso a cerca de 300m da escola, em um carro dirigido por um amigo da família, Davi José de Souza, 49 anos. Um dia depois, um juiz da cidade goiana determinou a prisão preventiva de ambos. Desde então, eles estão na Cadeia Municipal de Alexânia, sob a acusação de feminicídio.

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