Movimento Não foi Acidente cobra respeito às leis e punições mais duras

O grupo conta com o engajamento de familiares de parentes mortos no trânsito em vários estados do país

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postado em 03/12/2017 08:00

Ed Alves/CB/D.A Press


Devastadores, os acidentes interrompem sonhos em uma fração de segundos. Retiram do convívio da família pessoas saudáveis que saem para trabalhar e não voltam para casa. Quem fica ou passa a lutar em prol de outras vidas ou silencia a dor para evitar lembrar a tragédia. Mas, para que outros não agonizem no asfalto, alguns passam a cobrar um trânsito democrático, com mais respeito às leis e punição mais dura para quem comete um acidente fatal, por exemplo.
 
 
É o caso do movimento Não foi Acidente, que surgiu em 2011 após a morte do administrador Vitor Gurman, em 23 de julho daquele ano, em São Paulo. O grupo conta com o engajamento de familiares de parentes mortos no trânsito em vários estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. “São pessoas que lutam por mais consciência no trânsito”, diz um dos idealizadores, Nilton Gurman, tio de Vitor.

No Distrito Federal, fora a ONG Rodas da Paz, voltada para a segurança de ciclistas, faltam movimentos organizados na luta contra a violência no tráfego. Mas sobram histórias de mortes no asfalto. De janeiro a setembro deste ano, 189 pessoas morreram no trânsito — a média é de 21 óbitos mensais. Há três meses, Elton Henrique da Silva Freire, 23 anos, convive com a ausência da mulher, Rute Ester Carvalho, 22, e do caçula, Ériko Henrique Carvalho Go, 6 meses. Ele ainda guarda no celular a mensagem que a companheira enviou um dia antes da tragédia. Rute tinha dormido na residência do pai com as crianças. Avisou ao marido que voltaria no dia seguinte, mas não teve chance de retornar. Ela, o filho e a irmã, Gabriela Carvalho, 19, morreram atropelados, pelas costas, em 27 de agosto, no Gama.

O responsável pela tragédia foi um adolescente de 17 anos, que voltava de uma festa em alta velocidade. Ele pegou o carro do pai escondido. Sobreviveram o filho mais velho, Edriel Henrique de Jesus da Silva, 2, e o avô Mun Sun Go, 66. Ao voltar ao local do acidente na tarde de quarta-feira, o olhar perdido e as poucas palavras de Elton buscavam entender a dimensão do que houve na manhã daquele domingo. Respirava fundo e recebia o consolo do pequeno Edriel. Na tentativa de aliviar a dor do pai, ele acariciava e beijava o rosto de Elton. “O que foi, pai?”, perguntava o menino. “Se ele (motorista) estivesse a 60 km/h, não mataria ninguém. Essa curva é tão perigosa que outros motoristas até reduzem a velocidade, mas ele ainda bateu em um poste, atingiu todo mundo e capotou. O que alivia a minha dor é o meu filho. Ele é um pedaço dela (Rute)”, desabafa.

Saudade

Quando Elton recebeu a ligação de um dos bombeiros poucos minutos após o acidente, pensou que fosse uma brincadeira da mulher e da irmã dela. Ele desligou e tentou falar com a cunhada Gabriela pelo celular, mas o mesmo militar atendeu ao telefone. “Nessa hora, ele falou que era a pessoa que tinha acabado de conversar comigo. Eu tremi. Até hoje, estou sem rumo. Ela era a minha parceira e eu só batalhava pela minha família. Estou tendo que recomeçar”, contou Elton.

Há quase dois meses, conseguiu emprego de agente de portaria em um shopping de Taguatinga. Cuida de Edriel com a ajuda de uma tia, que fica com o menino para o pai trabalhar. Todos os dias, antes de voltar para casa, ele busca a criança para que durmam juntos, na mesma cama, repetindo o que fazia a mãe, o pai e os dois filhos. “Não sou motorista, mas, depois de tudo o que aconteceu, quando estou com uma pessoa que começa a dirigir mais rápido, fico apreensivo”, conta.

No local do acidente, barreiras eletrônicas de cada lado da pista tentam inibir o excesso de velocidade. Os equipamentos foram instalados em 22 de novembro, mas, na tarde de quarta-feira, estavam desligados. O Detran informou que faltava a Companhia Energética de Brasília (CEB) ligá-los e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), aferi-los. Devem estar em funcionamento até o fim da semana. “Quando o motorista está bêbado, acha que consegue controlar o carro, mas não tem domínio. A minha mulher e os meus filhos morreram da forma mais cruel possível. Foram atropelados pelas costas sem nem saber o que estava acontecendo”, lamenta Elton. O adolescente que provocou a tragédia segue internado em uma das unidades de ressocialização para jovens infratores. (IS)

Morto na calçada
 
Aos 24 anos, Vitor perdeu a vida ao ser atropelado na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo, por uma nutricionista que conduzia uma Land Rover. Ela dirigia em alta velocidade e havia bebido. Em setembro deste ano, a Justiça de São Paulo aceitou recurso do advogado da motorista e mudou a tipificação do crime de doloso (quando há intenção de matar) 
para culposo (sem intenção). Cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ)

Para saber mais

Observatório e coleta de dados
Para atender à resolução da ONU, o governo federal — elaborou o Plano Nacional de Redução de Acidentes e Segurança Viária para a Década 2011-2020. O plano é composto de ações de fiscalização, educação, saúde, infraestrutura viária e segurança veicular que visam contribuir para a redução das taxas de mortalidade e das lesões por acidentes de trânsito. Entre as ações previstas está a criação de observatórios de trânsito em âmbitos nacional, estadual e regional. O objetivo deles é coletar dados e produzir estatísticas que ajudem na formulação de políticas e de soluções para os problemas viários.
 
 
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