Faltam investimentos no Inmet, diz o diretor Francisco de Assis Diniz

Em tempos de crise hídrica, Instituto Nacional de Meteorologia ganha protagonismo, apesar do orçamento reduzido e da tecnologia defasada

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postado em 05/12/2017 06:03

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 10/11/17


Há exatos 16 anos, o Brasil enfrentava o apagão energético. Na época, a crise derrubou ministros, arranhou a imagem de políticos e deu um protagonismo inédito ao Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O alívio que estancou a sangria era previsto nos monitores do instituto: chuva. Hoje, a situação se repete, mas com um alvo diferente: o abastecimento da capital federal.

Mais uma vez, a solução parte do Inmet. As visitas do alto escalão do Palácio do Buriti se tornaram comuns. Contudo, fazer meteorologia custa caro e exige investimento ininterrupto. 

O orçamento está desidratado em pelo menos 60%. O ideal seriam R$ 52 milhões anuais, em vez dos R$ 32 milhões.  Com isso, na capital, o funcionamento de um programa capaz de medir a chuva a cada 1km está parado. Hoje, a mensuração é feita a cada 7km. A operação exige o investimento de R$ 60 milhões em computadores de alto rendimento.

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Em entrevista ao Correio, o diretor do Inmet, Francisco de Assis Diniz, ressalta a necessidade de investimentos. “Deveríamos funcionar 24h, mas com essa estrutura só conseguimos trabalhar até as 23h”, explica, ao falar sobre o deficit de meteorologistas.   

Outra necessidade do DF são radares meteorológicos. Este equipamento preve mudanças climáticas no período de duas horas. Um radar custa R$ 2,5 milhões. O DF tem apenas um aparelho. Confira os principais trechos da entrevista.

Com a crise hídrica, o Inmet tem sofrido pressão? 
Todos os setores estão cobrando, mas não como aqui no DF. Sempre tem pressão. Agora, o Inmet ficou à frente dos trabalhos. Mas em 2014 e 2015, quando ocorreu o mesmo problema em São Paulo, não houve essa exposição. Isso depende da participação da direção do órgão. Minha preocupação foi apresentar o melhor dado meteorológico.

Há um sucateamento do Inmet? 
Necessitamos de investimentos, como aumento da capacidade computacional. Temos um computador com a capacidade de 56 teraflops. Eu preciso em torno de 500 teraflops. Isso significa aumentar em 10 vezes a nossa capacidade. A modernização  custa pelo menos R$ 60 milhões. Estamos com um novo modelo de alta resolução que prevê chuvas por quilômetro, mas a máquina não consegue gerar os dados. Com esse novo modelo, podemos dizer: na Asa Norte, entre as 15h e as 20h, vai chover 20mm e, no início da Asa Sul, 10mm. Se estivesse funcionando, conseguiríamos fazer a previsão por microrregião. Na Europa, só a Alemanha e a França fazem isso. Hoje, conseguimos prever a chuva a cada 7km.

O Inmet trabalha abaixo de sua capacidade? 
Trabalha. Precisamos avançar na área de radares meteorológicos. Há um radar, no Gama, que é da Aeronáutica. Ele tem sensores meteorológicos que alcançam um raio de 200km do conteúdo atmosférico, faz cálculos e consegue dizer se daqui a duas hora vai haver chuva. Isso é a previsão imediata. Cada radar custa R$ 2,5 milhões. Isso sem contabilizar manutenção e treinamento de pessoal. O radar que o DF tem não é voltado para a meteorologia, mas, sim, para o monitoramento do aeroporto. Seria necessário o Inmet ter um aparelho desse. Com esse equipamento, poderíamos prever um temporal e fazer alertas ao Detran, à Defesa Civil para evitar danos.

O deficit de R$ 20 milhões no orçamento compromete as atividades do órgão?
Se eu quero medir a temperatura em cinco, seis pontos do DF, eu tenho que montar uma estação meteorológica. Isso custa R$ 100 mil. Isso, somado ao valor da manutenção e da transmissão dos dados — que podem chegar a R$ 7 mil anuais — é um gasto que não temos como fazer. A cada dois anos, precisa-se trocar equipamentos, como sensor de temperatura. Poderíamos estar melhor com uma rede de radares meteorológicos, com mais estações meteorológicas.

Houve extinção de serviços?
Tem estações meteorológicas que são centenárias. Que geram dados significativos e que consolidam séries históricas importantes. Se isso é interrompido é uma perda grande. Aqui no DF não fechamos nenhuma, mas nos últimos 10 anos 86 foram extintas. Isso se deve muito a aposentadorias que não foram repostas. Há 15 anos que não há reposição de observador meteorológico. Os problemas sempre esbarram  na questão orçamentária. 

Há previsão de concurso?
Tem um concurso para 240 técnicos emperrado no Ministério do Planejamento. O concurso saiu, mas foi suspenso depois. Estou esperando a autorização. Até o orçamento de R$ 4,5 milhões para o certame está garantido. Em 2018, vou pedir com urgência um concurso para 300 técnicos, sendo 250 observadores meteorológicos.

Esses gargalos são específicos da sede em Brasília?
Não. Por exemplo, a previsão do tempo gera um arquivo grande. Se o Rio de Janeiro pede para mandarmos as informações para desenvolver estudos e  produtos, não temos capacidade de mandar por que lá é preciso ter máquinas para receber e um alto poder de transmissão e velocidade de internet. A tecnologia que está distribuída não é uniforme. Brasília tem a melhor estrutura da América do Sul, mas as regionais não acompanharam.

A sociedade se importa com o trabalho do Inmet?
Há 20 anos, a previsão do tempo era quase coisa de deboche. Hoje, não. A confiabilidade e a credibilidade aumentou muito. Dizer que vai ter chuva ou estiagem é uma informação valiosa e merece ser creditada.

Previsão 
 
A chuva deve se manter constante nesta semana no Distrito Federal, e o céu nublado vai virar rotina. Hoje, o Inmet espera precipitações durante o horário da tarde, mas não há expectativa de temporais com ventanias para os próximos dias. Após um mês de novembro com chuvas acima da média histórica, a expectativa é que dezembro se mantenha por volta dos 246 milímetros. As precipitações da última semana começaram a reverter a queda dos reservatórios que abastecem o DF, o Descoberto subiu de 6,9% para 9,9% da última terça-feira para cá.
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