Greve sem fim no metrô expõe falhas do sistema e revolta passageiros

Perto de completar um mês, greve do sistema expõe falhas que, mesmo pequenas, provocam reações agressivas dos passageiros. Empresa começa a convocar aprovados em concurso, mas negociações para o fim da paralisação seguem sem avanço

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 05/12/2017 06:58 / atualizado em 05/12/2017 07:12

Reprodução
A paciência dos brasilienses com o impasse na resolução da greve dos metroviários chegou ao fim. Passageiros depredaram quatro trens e um guichê da Estação Praça do Relógio, após ficarem cerca de 30 minutos presos nos vagões por causa de uma falha técnica. Para especialistas em mobilidade urbana e gestão pública, a confusão foi resultado da suspensão parcial dos serviços — são 26 dias de paralisação —, dos constantes atrasos e dos veículos lotados. Todos esses fatores levaram à revolta dos usuários ontem pela manhã.

O problema começou por volta das 8h, no sentido Rodoviária do Plano Piloto. Segundo passageiros, o veículo estava lento e parou duas ou três vezes. Na última delas, as luzes se apagaram e o ar-condicionado deixou de funcionar. Com isso, as pessoas ficaram confinadas, e algumas começaram a se queixar de falta de ar e a passar mal. Nesse momento, alguém apertou o botão de emergência. Imediatamente, as portas se abriram e teve início uma gritaria. Janelas foram quebradas e um passageiro subiu no trem. A confusão continuou na estação, com a depredação de um dos guichês, o que determinou a presença do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar no local.

Vídeos enviados ao Correio mostram os usuários caminhando pelo túnel e ironizando a situação. Estudante do oitavo semestre de letras da Universidade de Brasília (UnB), Raíza Barros de Almeida, 23, testemunhou a situação. “Estava muito quente. Começaram a dizer que era culpa do piloto, achando que ele estava fazendo de propósito por ter de trabalhar de greve”, relatou. A jovem estava no vagão feminino. Segundo ela, o piloto desceu da cabine, abriu as portas do vagão, mas pediu que ninguém saísse. “Pouco tempo depois, começamos a ouvir barulhos. Foi quando ele liberou a saída, e percebemos que passageiros tinham quebrado as janelas de outro vagão. Além do metrô quebrado à nossa frente, tinha um parado atrás de nós. Foi quando percebemos que a culpa não era desse piloto”, explica.



O pintor Natal Antunes Júnior, 53 anos, também testemunhou a desordem. “Avisaram que tinha um trem quebrado à frente e que teríamos de aguardar. O ar-condicionado não estava funcionando, e, no vagão onde eu estava, as pessoas começaram a ficar sem ar. Tentaram abrir as janelinhas, mas era insuportável”, descreveu.

Uma das explicações para o descontentamento da população é a falha constante do serviço. A funcionária pública Patrícia Batista, 40, recorre aos ônibus e ao sistema de transporte por aplicativo para escapar dos problemas subterrâneos. “Na semana passada, eu peguei Uber quatro vezes. Cada viagem saiu em torno de R$ 30. Isso pesa no meu bolso”, lamentou. A técnica de enfermagem Amanda Carvalho, 27, depende do metrô. “Acabo perdendo o horário e não consigo remarcar. Em alguns casos, perdi a minha diária, porque não compareci à consulta”, reclamou.

Raiva

Para o especialista em análise comportamental dos usuários de transporte urbano da Universidade de Brasília (UnB) Pastor Willy Gonzalez Taco, o quebra-quebra era uma situação previsível e causada por “estresse urbano”. “Esse estresse é provocado por contínuas demoras nas estações, pela falta de informação e de assistência governamental. Além disso, a greve reduz os serviços. Os usuários estão cansados, incomodados e com raiva. E quando algo acontece fora do normal, por mínimo que seja, as pessoas explodem. Para completar, o Estado não informa o usuário devidamente”, explicou. O especialista em administração pública da UnB José Matias-Pereira culpa o impasse nas negociações. “A população está chegando ao limite”, resumiu.

* Estagiária sob supervisão de Guilherme Goulart

Palavra de especialista

População no limite

“O que nós estamos vivendo no Brasil, e isso também vale para o Governo do Distrito Federal, é um processo de profunda deterioração da gestão pública. Quando temos uma atitude como a vista hoje (ontem), isso significa que o Estado está sendo omisso. No caso da estatal, onde há um embate entre servidores e órgão e um processo em andamento, há uma falta de capacidade de comando do GDF sobre uma empresa estratégica. O governo adotou uma postura cômoda, e isso é inadmissível. O metrô é importante para qualquer cidade. A população está chegando ao seu limite, em que se sente profundamente desrespeitada. É preciso uma postura mais proativa. No ano que vem, teremos eleições e há risco de a situação ser jogada para a frente. O quebra-quebra mostra a gravidade do problema. Chegamos à depredação e à violência. Tanto a direção do Metrô quanto o Sindicato dos Metroviários precisam dialogar, com todos olhando o interesse da população.”

José Matias-Pereira, professor de administração pública da UnB

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.