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Estado de Minas

Voluntários localizam família de dependente químico que morava nas ruas

Um grupo de voluntários de centro umbandista localizam família de dependente químico que morava nas ruas. Graças à ajuda, ele embarcou ontem para São Paulo. Lá, garante que vai mudar de vida


postado em 28/01/2018 08:55

Por meio de doações, grupo garantiu passagem, roupas novas e até a mala para a viagem (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Por meio de doações, grupo garantiu passagem, roupas novas e até a mala para a viagem (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

A vida do tapeceiro Éder Piter de Oliveira Meris, 39 anos, mudou completamente em pouco mais de três dias. De São Paulo, ele vagava há cerca de um mês pelas ruas de Ceilândia, sem conseguir contato com a família e entregue à dependência química. A reviravolta na trajetória dele começou na última terça-feira (23), quando Piter, como prefere ser chamado, pediu ajuda à Ação Social Caminheiros de Antônio de Pádua (Ascap), que distribuía sopa e roupas para moradores de rua em um ponto de consumo de crack em Ceilândia. O grupo conseguiu localizar a família e mandá-lo de volta para casa, onde buscará uma vida longe das drogas.

Chegando a São Paulo, onde vivia com a esposa, a mãe e o filho, ele está decidido sobre o que fazer: “Vou procurar tratamento”. Ele e a família esperam o dia em que a dependência química será página virada. “Já vi muito sofrimento, muita violência. Nunca fiz maldade com qualquer pessoa, mas faço minha família sofrer. Sempre fui trabalhador, desde pequeno. Vou conseguir superar isso”, prometeu. Piter veio para Brasília a partir da sugestão da mulher dele, a manicure Leda Meris, 36. Desesperada com a situação do marido em São Paulo, entregue ao vício, ela recebeu, num ônibus quando voltava para casa, um panfleto sobre uma clínica para dependentes químicos em Brasília.

“Ele abandonou diversos tratamentos aqui, mas retomei as esperanças quando li sobre a instituição”, conta. A esposa pediu ajuda à mãe e à irmã do marido e, juntando economias, conseguiram mandá-lo para a capital federal. O mais importante foi a disposição dele de aceitar o tratamento. “Eu também tinha esperanças”, lembrou Piter. Assim, ele embarcou no ônibus estacionado no Brás e chegou à capital do país, que só conhecia pela televisão em dezembro do ano passado. No entanto, o tratamento na clínica brasiliense não durou muito tempo. “Eu não concordava com o que acontecia lá”, disse Piter, sem dar detalhes. Por isso, resolveu deixar o local. Nas ruas de uma cidade desconhecida, voltou à rotina de usuário de crack até a intervenção da Ascap.

Ajuda em hora precisa

“Ele se aproximou buscando uma camisa. Puxei assunto, como normalmente faço, perguntando há quanto tempo ele estava lá. Foi quando soube que era de São Paulo. Depois de conhecermos a história, decidimos ajudar”, afirma a voluntária Sandra Rita, 56. A família de Piter, que não sabia como ou onde estava o tapeceiro, foi localizada na manhã do dia seguinte. “A esposa e a mãe ficaram muito emocionadas quando ligamos. Estavam desesperadas, sem notícias”, relata. Leda e a sogra procuravam por Piter em delegacias, hospitais e pontos de consumo de droga em São Paulo. “Não poderia deixar tudo aqui e ir para Brasília procurar por ele. Tenho de trabalhar e não tenho dinheiro. Acreditava que, de alguma forma, ele daria um jeito de voltar para cá”, explicou Leda.

Apesar de ser dependente químico há duas décadas, Piter nunca tinha ficado tanto tempo sem falar com os familiares. “Eu fugia por ver todos sofrendo por minha causa. Mas sempre dava um jeito de dar recados, passar pela rua ou visitá-los para que não ficassem preocupados. Eu só não queria que convivessem com o inferno diário que era minha vida. Minha intenção era protegê-los, garantir que não sofressem”, justificou Piter. A preocupação dele para com a família e a reação sensível dos familiares chamaram a atenção dos voluntários. “Além de ficar emocionada, a esposa o elogiou muito,  por ser trabalhador e por nunca ter sido um homem violento, lembra a voluntária Grazielly Tavares, 26. Após conseguir contato com a família, o desafio passou a ser reencontrar Piter nas ruas de Ceilândia.

“Voltamos no dia seguinte e ele não estava no mesmo local. Deixamos recados com outros moradores de rua e não perdemos a esperança”, conta Grazielly. Ele foi localizado na quinta-feira (28), mesmo dia em que reviu, por vídeo, a esposa. “Estávamos muito emocionados, ela me deu uma bronca por ter sumido, me mandou fazer a barba”, contou Piter. Com o apoio dos voluntários, ele não só se barbeou, como tomou banho, ganhou roupas novas e começou a se preparar para o retorno. Até uma mala foi providenciada. Os participantes da ação social colocaram na bagagem tudo que poderia ser necessário durante o trajeto. “Tem até perfume e desodorante para chegar em casa cheiroso”, brincou Sandra Rita.

Conseguir bilhetes de viagem foi um desafio, já que Piter estava sem documentos. Depois de o boletim de ocorrência ser registrado, os voluntários reuniram doações e compraram a passagem de ônibus de Brasília para São Paulo, com embarque previsto às 18h de ontem e chegada, às 12h de hoje. Apesar de estar feliz com o retorno do marido, Leda disse que ainda espera pelo dia em que Piter conseguirá vencer a guerra contra as drogas. “São 20 anos assim, de muito sofrimento. É uma vida inteira tentando”, contou. De acordo com ela,  quando encontrar Piter, eles terão uma conversa franca sobre o que fazer.

Trabalho do bem

A Ascap é o braço social do Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, instituição umbandista fundada há 46 anos em Ceilândia. Em um dos projetos do grupo, a Caminhada Solidária, voluntários percorrem pontos de grande concentração de moradores de rua e usuários de drogas oferecendo alimentos e roupas. Foi em uma dessas caminhadas que o grupo encontrou Piter. “Queremos ampliar o projeto e aumentar a frequência. Quantos Piters não devem estar por aí?”, questiona a voluntária Grazielly Tavares. Informações: ascap.cecsap@gmail.com.

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