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Estado de Minas

Laboratório da UnB se torna referência em realizar testes em macacos mortos

Laboratório da universidade é credenciado pelo Ministério da Saúde para, entre outros procedimentos, realizar testes em macacos mortos. Até o momento, não houve a confirmação de primatas infectados pelo vírus da doença


postado em 07/02/2018 06:00 / atualizado em 07/02/2018 07:45

Professor de patologia veterinária Marcio Botelho coordena os trabalhos e é auxiliado por 14 colaboradores, entre estagiários e docentes(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Professor de patologia veterinária Marcio Botelho coordena os trabalhos e é auxiliado por 14 colaboradores, entre estagiários e docentes (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O cheiro forte dos reagentes denuncia: a necropsia de macacos encontrados mortos está acontecendo. Médicos veterinários e biólogos investigam a presença do vírus da febre amarela nos animais. Nos últimos dias mais de 60 amostras de toda a Região Centro-Oeste passaram por análise. Há quatro meses, a capital federal ganhou um laboratório e virou referência para fazer esse tipo de investigação. Sanitaristas reivindicavam o espaço há duas décadas.

Mais que autonomia para os exames nos primatas do DF — só este ano 24 animais apareceram mortos no DF —, a cidade virou referência para Goiás, Mato Grosso e Tocantins. Com isso, os epidemiologistas ganharam um aliado importante: o tempo. Se antes as análises eram feitas no Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará, e levavam até oito meses para ficarem prontas, hoje, os diagnósticos não levam mais que 15 dias. Isso aumentou o poder de reação a um surto, por exemplo.

O Correio acompanhou o trabalho do Laboratório Regional de Diagnóstico para Febre Amarela em Primatas não Humanos, sediado no Hospital Veterinário de Pequenos Animais da Universidade de Brasília (UnB), no Setor de Clubes Norte. A reportagem viu o início da investigação em cinco macacos. Eles foram encontrados em Vicente Pires, Planaltina e Asa Norte.

Nas bancadas de mármore e mesas de metal, os 14 colaboradores do laboratório, entre estudantes, estagiários, residentes e docentes, se desdobram para monitorar se há circulação do vírus da febre amarela. O processo de investigação chega a ter quatro fases para a confirmação da doença. Partes do fígado, rim e baço são avaliadas por concentrarem o vírus quando o animal está doente (leia Passo a passo).  Até o momento, não houve a confirmação de primatas infectados.

O laboratório funciona com insumos disponibilizados pelo Ministério da Saúde. O professor de patologia veterinária Márcio Botelho coordena os trabalhos. Ele admite que o volume de serviço aumentou nas últimas semanas. “Mesmo sem indícios, os animais passam por teste para a febre amarela. Muitos animais morrem eletrocutados ou atropelados”, explica. Os testes começaram a ser feitos pelos alunos experimentalmente em 2015.

Ver galeria . 6 Fotos Minervino Junior/CB/D.A Press
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

Protagonismo


A estrutura existe há 16 anos, mas não funcionava como laboratório de referência para saúde pública. Somente em setembro de 2017, o Ministério da Saúde fez o credenciamento. Anualmente, são feitas 1,8 mil análises clínicas, entre avaliações de animais encontrados mortos em áreas urbanas, rurais e de preservação. “Não investigamos apenas a febre amarela. Esse trabalho ganhou foco com a disseminação da doença pelo país, mas fazemos a apuração para outras doenças”, detalha Botelho.

O protagonismo do laboratório é maior por funcionar em uma região em que a febre amarela é endêmica, ou seja, constante. “Precisamos estar preparados para casos positivos e negativos. Quando os macacos morrem com a doença, sabemos que o vírus da febre amarela está circulando. Isso baliza as ações de vigilância. Há uma preocupação extrema com o macaco, mas ele é tão vítima como o ser humano. A morte dele nos alerta para interromper a transmissão”, destaca.

Botelho enfatiza que, no momento, não há motivo para alarde no DF e são baixos os indícios de transmissão do vírus na cidade. “Por tudo que temos visto, não há um risco maior à população por conta dessa amostragem. O trabalho da vigilância está sendo feito. As pessoas que encontrarem macacos mortos ou com aparência de doentes devem comunicar à Secretaria de Saúde”, conclui.

Monitoramento


Há poucos dias, a bióloga da Secretaria de Saúde Gabriela Costa deixou quatro primatas mortos no laboratório. Ela conta que, quando um animal é capturado, é feita uma investigação preliminar. “É diferente encontrar um animal morto e cinco, seis de uma vez. Temos que entender se houve um envenenamento, agressão humana ou se está havendo a transmissão de doenças”, acrescenta.

Desde 2000, a Secretaria de Saúde estuda as causas das mortes de primatas no DF. Em 2016, a pasta recolheu 56 macacos mortos. Em 2017, foram 155 casos — nenhum com o vírus da febre amarela. Este ano, pelo menos 10 cidades do DF registraram óbitos de primatas. Park Way, com quatro animais encontrados, e Águas Claras, com três, lideram a lista.

20 mil doses da vacina

Atualmente, a Secretaria de Saúde investiga 12 pessoas com a suspeita da doença. No DF, houve uma morte. A pasta ressalta que 86% da população da cidade está vacinada contra o vírus. No ano passado, 207 mil pessoas receberam doses do imunobiológico. Em janeiro, o DF recebeu 20 mil doses da vacina. Precisam ser imunizadas crianças a partir de nove meses e adultos de até 59 anos. A vacina é contraindicada para grávidas, idosos, portadores de HIV, pacientes com leucemia e linfoma, além das pessoas que fazem quimioterapia e radioterapia, e alérgicos a ovo e a antibióticos. Mulheres que amamentam crianças com menos de 6 meses devem ser submetidas à avaliação médica.

Hospedeiros do vírus

O Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Primatologia (SBP) alertam que os macacos, assim como os seres humanos, são vítimas da doença. No ciclo silvestre da febre amarela, os macacos são os principais hospedeiros do vírus — a doença é transmitida pelos mosquitos Sabethes e Haemagogus. Os primatas servem como guias para a elaboração de ações de prevenção da febre amarela. Matar animais é considerado crime ambiental pelo artigo 29 da Lei n° 9.605/98. A pena chega a um ano de prisão e pagamento de multa de R$ 5 mil.

Passo a passo

Veja o processo para confirmar a infecção por febre amarela em macacos

Necropsia
São retiradas partes do fígado, rim e baço para avaliação. O aspecto geral no animal é avaliado.

Processamento de tecidos
Partes dos órgãos são fixadas em lâminas.

Exame microscópico
São observadas lesões derivadas da doença nos órgãos.

Diagnóstico com anticorpos
Anticorpos são usados para indicar a presença do vírus.
 
 
 
 

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