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Estado de Minas

Suspeito de matar ciclista é investigado por outros 3 crimes semelhantes

Apontado como o autor das facadas que mataram o doutorando da Universidade de Brasília na ciclovia do Eixo Monumental, no início de dezembro, jovem de 21 anos estava numa geladeira, no Itapoã


postado em 08/02/2018 07:33

Policiais civis encontraram Daniel Sousa de Andrade dentro de uma geladeira ligada: caso seja considerado culpado, ele pode ser condenado a mais de 30 anos de prisão (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Policiais civis encontraram Daniel Sousa de Andrade dentro de uma geladeira ligada: caso seja considerado culpado, ele pode ser condenado a mais de 30 anos de prisão (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

 
Após dois meses de investigações, a Polícia Civil do Distrito Federal prendeu o suspeito de assassinar Arlon Fernando da Silva. O doutorando da Universidade de Brasília (UnB) morreu em 7 de dezembro de 2017, na ciclovia da S1 (Eixo Monumental), ao lado do Museu do Índio, em frente à Câmara Legislativa e perto do Palácio do Buriti. O autor do crime é Daniel Sousa de Andrade, 21 anos, conhecido como Scooby, segundo os investigadores.

Policiais civis encontraram Daniel por volta das 17h de ontem, na geladeira da casa onde o pai mora, no Itapoã. De acordo com o delegado Rogério Henrique de Oliveira, chefe da 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), a instituição recebeu denúncias anônimas que levaram os agentes à região. “Foi um trabalho integrado. Quando (Daniel) percebeu a chegada dos policiais, ele se escondeu. O pai franqueou a entrada da polícia, mas os agentes iniciaram a busca na residência e localizaram o suspeito, que estava no interior da geladeira da residência. Ela estava ligada na tomada e sem as prateleiras”, detalhou Rogério.

Daniel se recusou a prestar depoimento na delegacia, ontem, e a dar entrevista aos jornalistas. Ele havia sido interrogado outras duas vezes e associado ao local onde o crime aconteceu, mas negou todas as acusações. Segundo o delegado responsável pelo caso, ele respondia às perguntas de forma “cínica e fria” durante os primeiros interrogatórios. “Ele é responsável por três outros inquéritos aqui na unidade. Todos os quatro crimes ocorreram nas proximidades do Museu do Índio, em horários semelhantes. Ele chegava às vítimas sem avisar, na tentativa de roubar as bicicletas delas. Foram esses outros casos que nos levaram ao suspeito”, afirmou o delegado-chefe.

Em 15 de janeiro, as peças da bicicleta de Arlon foram encontradas no Itapoã, com Luiz Carlos dos Santos Ramos, 22 anos, um dos amigos de Daniel. Luiz Carlos não tinha antecedentes criminais e havia pagado R$ 500 pelas peças. Ele continua preso e deve responder pelo crime de receptação.

Autorizações judiciais

No dia seguinte à detenção de Luiz, a Justiça deferiu o pedido de prisão preventiva apresentado pela polícia contra Daniel. À época, cinco pessoas prestaram depoimento e disseram ter visto o acusado circular pela cidade com a bicicleta da vítima. Diante de novas provas, a Justiça do DF expediu uma medida cautelar para permitir que a polícia monitorasse o suspeito. Segundo Rogério Henrique, nas últimas duas semanas, Daniel transitava entre a Asa Norte e o Paranoá, onde morava com a mãe. Policiais foram a um dos locais onde ele esteve, na Asa Norte, mas não o encontraram.

O acusado será transferido hoje para a carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE) e, em seguida, encaminhado para o Complexo Penitenciário da Papuda. Daniel responderá por quatro crimes. A pena deve passar de 30 anos de reclusão. A polícia afirmou que o laudo pericial não definiu a quantidade exata de facadas desferidas por Daniel. Arlon morreu em decorrência de uma hemorragia aguda maciça. Um dos ferimentos, de aproximadamente 6cm de comprimento, foi provocado por um golpe, no braço, que atingiu o tórax do estudante.

(foto: Reprodução/CB/D.A Press)
(foto: Reprodução/CB/D.A Press)

Entenda o caso
Ação durou dois minutos

Arlon Fernando da Silva era doutorando em física na Universidade de Brasília (UnB). Ele foi assassinado a facadas em 7 de dezembro, na ciclovia do canteiro central da S1 (Eixo Monumental), em frente à Câmara Legislativa e a poucos metros do Palácio do Buriti. O jovem voltava para casa, no Sudoeste, de bicicleta, como costumava fazer todos os dias. Ele era considerado reservado e estudioso.

O alundo da UnB sofreu uma perfuração grave na axila esquerda e outras na mão e no braço. Policiais militares o encontraram caído ao lado da pista. Os PMs estavam em três viaturas que se deslocavam para o ginásio Nilson Nelson, onde acontecia um show. O doutorando chegou a ser socorrido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu aos ferimentos e morreu no Hospital de Base.

O assaltante que matou o pesquisador demorou menos de dois minutos para abordar, esfaquear e levar a bicicleta da vítima. Um vídeo das câmeras externas do Palácio do Buriti mostra o estudante pedalando na ciclovia ao lado do Eixo Monumental, na altura da Câmara Legislativa e em direção ao Memorial JK. A imagem não registra o momento do ataque, mas mostra o criminoso em fuga, com a bike roubada. Depois, Arlon aparece cambaleando, em direção à pista, atrás de ajuda. Carros passam sem parar.

Acusado de assaltos a outros ciclistas

Testemunhas informaram à polícia que Daniel Sousa de Andrade era “aficionado por bicicletas”. Armado com objetos cortantes, o rapaz de 21 anos rendia as vítimas, sempre ciclistas, no mesmo local, a Praça do Buriti, e por volta do mesmo horário, no início da noite. Duas delas saíam do trabalho no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) e pedalavam até regiões como Cruzeiro e Sudoeste. As peças das bicicletas eram revendidas por Daniel.

Em um dos três crimes, cometido em junho de 2015, a vítima, um servidor do TJDFT, foi atingida por uma facada nas costas. O ciclista ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Luzia por três dias, mas sobreviveu. O crime foi registrado com autoria desconhecida.

Em um assalto a um militar, em maio de 2016, o acusado atingiu, com um pedaço de madeira, o braço dele. O alvo pedalava pela ciclovia e caiu, mas conseguiu reagir e atirou contra o pé de Daniel. Ele foi levado ao Hospital de Base, preso e, um ano depois, condenado a 2 anos e 9 meses de prisão em regime semiaberto. O jovem ficou detido de novembro de 2016 a maio de 2017, mês em que conseguiu a progressão para o regime aberto, em prisão domiciliar.

Em setembro de 2017, Daniel usou uma faca para roubar outro ciclista servidor do TJDFT. A vítima entregou a bicicleta e não foi ferida. O crime também ficou registrado com autoria desconhecida. No caso de Arlon, segundo o delegado cartorário Henrique Pantuzo, da 5ª DP, não havia chance de sobrevivência mesmo que a vítima fosse socorrida de imediato. “Os cortes foram muito fortes e profundos. Ele chegava atacando a vítima. Esse modo de execução era típico do Daniel. Anteriormente, ele havia atacado outras três pessoas na mesma região, em horários aproximados e de forma semelhante. Em dois desses casos ele também levou a bicicleta das vítimas”, disse Pantuzo.

Indignação

Doutoranda em física e amiga de Arlon, Laís de Souza Alves, 24 anos, convivia diariamente com ele na UnB. A jovem recebeu a notícia da prisão com alívio e disse esperar que os responsáveis pelo latrocínio sejam penalizados. “Houve vários problemas evidenciados nesse crime. A reincidência de uma pessoa evidencia que algo está errado no nosso sistema prisional. Infelizmente, ao assassinar o Arlon, o autor não só atacou meu amigo, mas também causou muita dor às pessoas próximas e à família. Além disso, ele tirou a vida de alguém que realmente se importava em fazer do mundo um lugar melhor”, lamentou Laís.

Ontem, a reportagem tentou contato com familiares de Arlon, mas ninguém atendeu as ligações. Eles moram em Rio Branco do Sul, cidade paranaense de origem do pesquisador, onde ele foi enterrado.

* Estagiária sob supervisão de Renato Alves

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