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Estado de Minas

O adeus a Josemar Dantas, o professor

Editor do Caderno Direito e Justiça, do Correio, morreu na madrugada deste sábado (10/2). Ele se recuperava de uma cirurgia do coração


postado em 10/02/2018 11:35 / atualizado em 10/02/2018 20:31

Jornalista Josemar Dantas em julho de 2014: serenidade, profissionalismo e elegância (foto: Aureliza Correa/Esp. CB/D.A Press)
Jornalista Josemar Dantas em julho de 2014: serenidade, profissionalismo e elegância (foto: Aureliza Correa/Esp. CB/D.A Press)
 
O editor do Correio Braziliense Josemar Dantas morreu na madrugada deste sábado (10/2). Titular do caderno Direito e Justiça, publicado às segundas-feiras, ele se recuperava de uma cirurgia no coração. Atendendo ao desejo manifestado em vida, a família não fará velório e o corpo será cremado em cerimônia para poucas pessoas. 

Josemar foi colaborador do Correio por mais de 40 anos e respondia pelo caderno Direito e Justiça há mais de 15 anos. Antes, trabalhou nas editorias de Opinião e Política. Respeitado entre os colegas pela competência, profissionalismo e seriedade no trabalho, Dantas será lembrado também como uma pessoa extremamente gentil. Em dezembro de 2013, Josemar foi homenageado pela Faculdade Mauá, de Brasília. 
 
A filha Maria Luiza Dantas postou nas redes sociais um texto em que agradeceu o apoio de familiares e amigos e descreveu o pai. "Meu pai foi uma das maiores figuras que conheci. Tinha defeitos como todos nós, mas era um ser humano incrível. Não era apenas jurista e jornalista, foi do Exército, treinado para a guerra da Coreia aos 18 anos; passou fome quando se mudou para o Rio de Janeiro, foi perseguido na ditadura e teve até quem contratasse matador de aluguel para matá-lo nesses interiores do Brasil, mas, vejam, ele havia justamente defendido o matador na cadeia. O próprio matador contou essa história. Enfim, é impossível resumir quem foi Josemar Toscano Dantas. O que posso dizer é foi, com minha mãe, foi meu maior apoiador e fã. Ele me ensinou a dar valor à leitura e à escrita, e fui classificada como uma das 11 melhores dissertações no Enem 2003 entre 1 milhão e meio de candidatos. Uma verdadeira inspiração. Nosso coroa gato agora foi descansar." 

 
Elegância 

 
O jornalista Adriano Lafeta, amigo de Josemar, o define assim: "Josemar Dantas era o Sr. Elegância. No vestir, no falar, na escrita, na forma de comportar-se a qualquer hora e em qualquer ambiente, era 100% elegância. Profissionalmente, basta dizer que era tratado pelos colegas como professor. Deixa uma luz a ser seguida."
 
Em depoimento emocionado, o adovgado e escritor Luís Carlos Alcoforado destaca o caráter, a solidariedade, a amizade, a fraternidade e o talento de Dantas. "Ao partir, Josemar Dantas vai abrilhantar a vida lá em cima, mas deixará aqui um vazio de tristeza, principalmente em relação aos amigos que tiveram a sorte de compartilhar momentos inesquecíveis, também um fantástico contador de piadas", escreveu (leia abaixo o texto completo, intitulado Viagem de Josemar Dantas).
 
Em março de 2008, a diretora de Redação do Correio, Ana Dubeux, homenageou Josemar em sua coluna dominical na editoria de Opinião. No texto, Dubeux o descreve como "cavalheiro, educado, inteligente" e elogiava sua disposição de encarar com tranqulidade as transformações pelas quais o jornal passou ao longo dos anos (na época de pubicação do texto, o Correio se preparava para lançar este site, hospedado no endereço correiobraziliense.com.br). Leia:
 

O exemplo de Josemar


Por Ana Dubeux, jornalista, ediretora de Redação do Correio
 
"Ele é irresistível. Cavalheiro, educado, inteligente. Sempre envolto num terno impecável, é o tipo de pessoa capaz de atrair de cara o encantamento das mulheres e a inveja dos homens. Até poderia, tal a história profissional e o respeito que emana, mas é incapaz de se abalar negativamente diante das novidades. Num momento em que a Redação do Correio prepara-se para encarar uma revolução histórica, a reação de Josemar não foi diferente das tantas que teve diante de todas as mudanças que vivenciou aqui. Com tranqüilidade, ele já faz planos para encarar modernidades como podcasts, tags, vídeos e tantas outras estranhezas tecnológicas encobertas sob o manto espesso e — para muitos de nós ainda indecifrável — chamado convergência multimídia.

Jornalista da velha guarda, esse paraibano de João Pessoa não está neste mundo há mais de sete décadas a passeio, embora às vezes até pareça, tal a desenvoltura com que flana por caminhos nunca dantes navegados — ao menos os do ciberespaço. Quer entender os caprichos da tecnologia, porque não se permite humilhar por ela, como qualquer jovem de seu tempo. Editor do caderno Direito & Justiça, um dos suplementos mais prestigiados deste jornal, Josemar Dantas é dono de um texto brilhante, que você tem oportunidade de ler nessas páginas. Opinião das melhores, articulista de lucidez invejável, está no Correio há 30 anos, completados hoje. Esbanja, além do talento, bom humor. Desconfio muito que essa sua virtude deve-se ao apreço por outra arte: a música. 

Cantor e compositor, ele lançou em 2005 o DVD Champagne. Na dedicatória aos amigos, o tom anedótico é para esconder a modéstia e a humildade, qualidades dos bons. Assim diz: “Você está obrigada a ouvir o DVD e elogiá-lo, ainda que lhe massacre o fígado...” Se cometeu algum erro público na vida foi ter optado por torcer pelo Flamengo, apesar de conhecer de perto os feitos do Santa Cruz, de Recife, meu time do coração, da alma… Em sua defesa, nem cito seu talento como advogado, mas sua disposição em compartilhar coisas caríssimas: a terminologia e as entranhas jurídicas e legais, as suas experiências no Correio da Manhã, onde começou no jornalismo, além das lições de cavalheirismo explícito. Portanto, não seria mal parodiar publicamente o tratamento que me destina e a vários outros. Na verdade, Josemar, você é nosso professor. E será sempre." 

Ver galeria . 7 Fotos Josemar Dantas, homenageado pela Faculdade MauáValério Ayres/CB/D.A Press - 13/3/14
Josemar Dantas, homenageado pela Faculdade Mauá (foto: Valério Ayres/CB/D.A Press - 13/3/14 )
 

Viagem de Josemar Dantas

 
Por Luís Carlos Alcoforado, advogado e escritor
 
"Certamente, o céu já está repleto de grandes vultos, de pessoas que fizeram história e ensinaram a fazer história para que aprendêssemos a viver segundo os valores e os princípios mais importantes que dimensionam os homens, social e espiritualmente, exemplares. 
 
Mas na madrugada do dia 10 de fevereiro, sexta-feira de Carnaval de 2018, Deus sentiu que faltava Josemar Toscano Dantas, razão por que o convocou para ascender ao céu e levar as virtudes que lhe eram intrínsecas: caráter, solidariedade, amizade, fraternidade e talento.

Ao partir, Josemar Dantas vai abrilhantar a vida lá em cima, mas deixará aqui um vazio de tristeza, principalmente em relação aos amigos que tiveram a sorte de compartilhar momentos inesquecíveis, também um fantástico contador de piadas.

Culto, fez do jornalismo a trincheira de que partiam textos que, intransigentemente, defendiam a liberdade e a moralidade dos costumes públicos. 

Sempre professou a crença contra o autoritarismo e contra os poderosos que se abasteciam de fontes ilícitas.

A tristeza não cabe apenas aos amigos, mas a todos os jornalistas, porque perdemos o farol lumiar de um dos mais brilhantes textos da história da imprensa brasileira, de todos os tempos.

Não havia assunto que fosse alheio ao domínio técnico de Josemar Dantas, pela profundidade de seus dotes culturais que, de início, vicejaram na pequena João Pessoa, migraram para o Rio e, depois, Brasília.

Sem dúvida, foi no Correio Braziliense que Josemar viveu os seus dias mais felizes de jornalista, por quase três décadas, duas das quais no comando do Direito & Justiça, suplemento idealizado por ele para reforçar as vozes do direito, como lembrança dos seus duros tempos de advocacia, exercida no interior de Minas Gerais, durante o período da ditadura militar. Se perdemos um professor que tanto nos ensinou, guardemos as suas lições.

Para sempre, Josemar Dantas." 


 

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