Pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) desenvolveram um aparelho que identifica cores e cédulas de dinheiro para deficientes visuais. Batizado de Auire — saudação usada pela tribo indígena Javaés, de Tocantins —, o identificador é o primeiro equipamento do tipo desenvolvido com tecnologia brasileira e que une as funções de interpretação de cor e de notas de dinheiro (no caso, o real). Os existentes no mercado são importados e não têm as duas funções incorporadas, além de identificarem somente cédulas do dólar.
O Auire ainda é um protótipo, fruto do trabalho iniciado pela engenheira de computação Nathália Sautchuck Patrício em 2006, durante seu curso de graduação. O projeto foi retomado no fim do ano passado em parceria com o também engenheiro de computação Fernando de Oliveira Gil. Por enquanto, ele funciona acoplado a um computador e identifica até 250 cores e tons. “A ideia é que o aparelho seja portátil e do tamanho de uma lanterna pequena, para ser fácil de ser carregado e manuseado”, explica a pesquisadora.
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| Regina, durante teste do Auire: fim do constrangimento na hora de fazer compras e receber o troco |
O aparelho possui três sensores que reconhecem as cores primárias: vermelho, verde e azul. Quando é ligado, dois LEDs (sigla em inglês para diodo emissor de luz) são acesos para iluminar o objeto. Pressionando-se um dos botões, as informações dos sensores são colhidas e enviadas ao microcontrolador, que compara os valores recebidos com uma tabela de cores. Uma vez identificada a cor, o som correspondente é tocado em um alto falante. “A retina humana possui três tipos de células sensíveis à cor, chamadas cones. Cada um deles é sensível a uma determinada faixa de comprimentos de onda do espectro luminoso, mais precisamente ao picos situados a 419nm (azul-violeta), 531nm (verde) e 559nm (verde-amarelo). A classificação dos cones em vermelho, verde e azul é uma simplificação usada por comodidade para tipificar as três frequências-alvo. Todos os tons existentes derivam da combinação dessas cores primárias”, explica Gil.
Já a identificação de notas de dinheiro acontece por um processo semelhante. As cédulas no Brasil são de diferentes cores, o que permite o uso dessa propriedade para identificá-las. Após pressionar o botão, uma amostra de cor da nota é enviada ao microcontrolador, que verifica qual cor é a mais próxima dessa amostra e qual a nota que a possui. Logo depois o valor é falado. “Temos apenas que ajustar o software de identificação das notas de R$ 2 e R$ 100. Elas ainda não são reconhecidas corretamente porque possuem cores parecidas”, conta o engenheiro.
Uma vantagem do Auire deve ser o preço em relação aos aparelhos existentes no mercado. Há alguns identificadores vendidos no Brasil com preços variando de R$ 600 (somente para cores) a R$ 1.200 (somente para cédulas). Segundo Gil, o preço da invenção deve ficar entre R$ 100 e R$ 200. “Muitas vezes, a deficiência visual dificulta o ingresso em algumas áreas do mercado profissional. Como grande parte dessas pessoas são de baixa renda, elas precisam de uma solução de baixo custo”, defende Gil. “Enxergar cores não é apenas uma questão estética. Essa capacidade é importante para uma boa qualidade de vida, porque torna os deficientes visuais mais independentes, elevando a sua autoestima”, completa. Recentemente, o identificador foi selecionado como um dos 42 finalistas da competição internacional Unreasonable Finalists Marketplace, organizada pela ONG norte-americana Unreasonable Institute, que apoia projetos de cunho social.
Campuseiros Apresentam: Projeto "AUIRE"
Autonomia Regina Fátima Caldeira Oliveira, 55 anos, deficiente visual e coordenadora de Revisão da Fundação Dorina Nowill, entidade brasileira que busca a inclusão social de cegos, testou o Auire e aprovou o protótipo. Segundo ela, ter as funções de identificar cores e cédulas de dinheiro em um só aparelho foi o que mais chamou a sua atenção. “Um aparelho com essas duas funções integradas vai resolver dois dos grandes problemas para quem é deficiente visual. Não só para os cegos, mas também para quem tem daltonismo”, destaca. Regina também salienta que o aparelho poderá dar ao deficiente visual mais autonomia, o que facilita a vida dessas pessoas. “O Auire vai facilitar, por exemplo, a vida de uma mãe deficiente visual na hora de arrumar a casa, as coisas da família. Ela não vai precisar de ninguém para ajudá-la”, exemplifica.
No caso da identificação das cédulas de dinheiro, Regina considera o aparelho um avanço, já que no Brasil não há nenhuma forma de diferenciar as notas de real. “Com certeza, vão acabar os constrangimentos na hora de pagar por um serviço ou receber o troco, por exemplo.” Porém, ela sugere alguns ajustes no protótipo, como o tamanho do aparelho e a versatilidade em identificar cédulas de dinheiro de moedas estrangeiras. “A equipe que está desenvolvendo o identificador é excelente e acata a tudo que sugerimos. Se o aparelho tiver a função de reconhecer notas de moedas estrangeiras, será um diferencial bastante competitivo”, analisa.
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Autor: Fernando Gil
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