De repente, parece que não há ar suficiente para satisfazer os pulmões. Os lábios e as unhas ficam arroxeados, a respiração torna-se ofegante, a temperatura baixa e a pessoa começa a suar excessivamente. Quem já teve uma crise grave de asma sabe como é incômodo passar por essa situação. Porém, basta se sentir bem novamente para o paciente deixar o tratamento de lado — como os sintomas cessam, ele mesmo se dá alta. Esse é o fator que mais atrapalha a eficácia do controle da asma no Brasil, país que ocupa a oitava posição no ranking da doença, de acordo com uma pesquisa inédita, que ouviu 140 pessoas, entre médicos e pacientes, em Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre.
Sessenta e três por cento dos profissionais de saúde ouvidos no estudo reportaram que há baixa adesão ao tratamento, sendo que, para 41% deles, os pais e pacientes não têm consciência da gravidade da doença. “As pessoas realmente não têm a percepção da gravidade. Você fala para uma mãe que o filho tem asma, ela dá o tratamento e, quando ele fica bem, acha que sarou. Mas a asma é uma condição crônica, que não tem cura, apenas controle”, afirma Zuleid Mattar, pediatra e diretora da regional de São Paulo da Associação Brasileira de Asmáticos (Abra).
A médica explica que, ao interromper o tratamento, feito à base de bronquiodilatadores e corticoides, o paciente pode ficar algum tempo sem os sintomas. Porém, eles vão voltar. “É como uma mangueira exposta ao sol. Uma hora, ela vai rachar. O mesmo acontece com o pulmão. De tanto fechar e abrir, ele perde a capacidade de se expandir. Com o tempo, nem mesmo o medicamento resolve”. alerta Zuleid. O risco de abandonar o tratamento é grande e pode resultar em morte. Uma paciente da pediatra morreu aos 13 anos porque entrou em crise durante um acampamento da escola e não estava com o inalador.
O estudo, encomendado pelo laboratório Merck Sharp & Dohme (MDS), revelou que há um forte estigma social em relação aos inaladores e nebulizadores. Vinte e nove por cento dos pacientes adultos assumiram que temem o preconceito. “Existe um mito de que a bombinha faz mal para o coração e que o medicamento vicia. Os asmáticos têm até medo de assumir a doença, preferem dizer que têm bronquite”, constata o pneumologista do Hospital Anchieta Roberto Valente. De acordo com ele, é normal sentir taquicardia logo após o uso do inalador. “As pessoas pensam que podem ter um ataque cardíaco. Acho que confundem a palavra ‘taquicardia’ com ‘ataque cardíaco’. Porém, a aceleração é transitória: quando se toma o remédio, o coração precisa bombear, e fica mais rápido. O medicamento, porém, é seguro”, afirma Zuleid Mattar.
Bronca médicaA funcionária pública Cláudia Lopes Correa, 36 anos, resistiu o quanto pôde até assumir a asma e resolver tratá-la adequadamente. Desde a adolescência, ela sofria de alergias, mas a doença só foi se manifestar há cerca de cinco anos. Antes disso, Cláudia havia tido três crises fortes, a ponto de procurar uma emergência, mas era medicada no local e depois deixava para lá. “Tive resistência sim, porque, para mim, remédio sempre foi uma coisa que você devia tomar e sarar. Levei uma chamada muito grande do meu médico, que falou que o mal do asmático é achar que está bem e protelar o tratamento”, conta.
Depois da última crise, há quatro anos, ela resolveu levar a doença a sério. Procurou um pneumologista e passou a usar os medicamentos. Desde então, Cláudia tem uma vida normal, pois, sempre que sente que a asma está chegando, já se previne aumentando a dose do remédio, sob orientação médica. Ela parou de fumar, mas não abriu mão de ter duas gatinhas em casa. Com o tratamento correto, porém, os animais não trazem problemas à saúde de Cláudia. “Hoje, eu entendo que o remédio é uma necessidade”, afirma a funcionária pública, que usa corticoides em dias alternados e, quando precisa, um inalador.
CriançasOutro dado da pesquisa apontou que as crianças são as mais difíceis de serem tratadas. Segundo 37% dos médicos ouvidos, elas têm dificuldade para usar os inaladores e nebulizadores. Oitenta e sete por cento dos pais confessaram que os filhos nem sempre tomam o s remédios, e 29% acham que é difícil administrá-los. “Os próprios pacientes — e principalmente pais de pacientes pediátricos colocam como fatores importantes para a não adesão a dificuldade de usar inaladores e nebulizadores e o estigma social da doença, principalmente o impacto no dia a dia da criança. Esses dados chamam atenção, pois hoje existem alternativas terapêuticas que podem facilitar a adesão e a redução desses estigmas”, observa o médico Octávio Costa Filho, diretor médico da MSD.
Além de dar as costas aos remédios, muitos pacientes associam a doença a mitos que não têm fundamento qualquer. “Tem gente que apela para benzedeiros e há até mesmo aqueles que acreditam que ter jabuti em casa cura asma. Antigamente, matavam um pinto e tomavam o caldo, para se ter uma ideia”, conta o pneumologista Roberto Valente. Outro mito é o de que a natação cura a doença. Além do fato de a asma ser incurável, não é a natação em si, mas a atividade aeróbica que pode auxiliar no tratamento. “Antigamente, as pessoas nadavam no mar, ao ar livre, e isso fazia bem ao pulmão. Mas uma piscina aquecida cheia de cloro pode até piorar”, afirma a pediatra Zuleid Mattar.
Outra grande confusão, feita inclusive por alguns profissionais de saúde, é achar que rinite e asma são a mesma coisa. “Como é uma inflamação no pulmão, e o epitélio do órgão é o mesmo do nariz, a asma também costuma atacar as vias aéreas. Por isso, geralmente, quem tem asma tem rinite. Mas o contrário não é verdade”, explica a pediatra. A pesquisa da MSD detectou que 91% dos asmáticos possuem os dois problemas. “Infelizmente, ainda há um problema de diagnóstico. As pessoas chegam nas emergências e os médicos dizem que estão somente com bronquite ou um início de pneumonia. O tratamento acaba não sendo adequado”, conclui a médica.
Íntegra da entrevista com Octávio Costa Filho, diretor médico da Merck Sharp & Dohme1) Qual resultado da pesquisa chamou mais a atenção?
Há muitos pontos nessa pesquisa que confirmam algumas crenças em relação ao tratamento da asma e em relação à percepção de médicos e pacientes sobre as principais barreiras para controlar a doença de maneira adequada. Chama a atenção o fato de quase 70% dos médicos entrevistados considerarem a baixa adesão como um fator crítico ao controle da asma. Os próprios pacientes – e principalmente pais de pacientes pediátricos - concordam com isso e ainda colocam como fatores importantes para a não adesão a dificuldade de usar inaladores e nebulizadores e o estigma social da doença (principalmente o impacto no dia a dia da criança). Esses dados chamam atenção, pois hoje existem alternativas terapêuticas que podem facilitar a adesão e a redução desses estigmas. A MSD acredita serem necessárias cada vez mais alternativas de tratamentos, com uma posologia e uma forma de administração cômoda, como o uso de comprimidos, preventivamente.
2) Um dos problemas citados é a dificuldade das crianças em usar os inaladores, enquanto que os adultos têm preconceito com o equipamento. Existe alguma pesquisa em curso para desenvolver um medicamento que possa substituir o seu uso?
Existem no mercado inúmeras opções de tratamento para a asma que não se limitam ao uso de inaladores. Esses são muito usados para o tratamento da crise. No entanto, o tratamento da asma não se limita à redução do número dessas crises. A asma é um processo inflamatório nos pulmões, cujo tratamento pode ser feito de maneira preventiva também. Há, por exemplo, medicamentos da classe dos antileucotrienos, que inibem as ações dos broncodilatadores e, consequentemente, reduzem o número de crises, idas ao pronto-socorro e despertares noturnos que, sem dúvida nenhuma, impactam diretamente na qualidade de vida do paciente com sintoma de asma.
3) O que pode ser feito para conscientizar melhor a população e mesmo a classe médica sobre a gravidade da doença e das implicações da falta de tratamento?
Muitas pessoas ainda acreditam que a asma é uma doença sazonal, que ocorre só no inverno. De fato, nessa estação é comum ocorrer uma piora nos sintomas, mas os pacientes estão expostos a agentes desencadeadores dos sinais da doença o ano todo. Isso fica claro na pesquisa: 60% dos médicos especialistas consultados, que tratam de pacientes com asma e rinite concomitantes, afirmaram que seus pacientes apresentam sintomas durante todo o ano e não somente no inverno.
Além da questão da sazonalidade, outras questões, que são muito pouco esclarecidas à população, referem-se à relação entre sintomas de asma e rinite alérgica e à questão do tratamento. Poucas pessoas sabem que os sintomas da rinite alérgica podem desencadear a asma ou a piora dos sintomas da doença. Muitos sempre relacionam a asma a uma doença que impede a realização de atividades físicas e ao uso da bombinha por exemplo. Isso não existe mais. Há ainda muito estigma em relação à doença e somente ações de educação à população podem ajudar a desfazer certos mitos. Soma-se a essas ações a necessidade do médico ajudar o paciente a identificar essas relações e orientá-lo sobre sua doença.
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